domingo, 19 de novembro de 2017

DE VOLTA À CHAPADA DO CORISCO

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Foto: Jucelino Reis



(Edmar Oliveira)


Dessa vez a Therezina me recebeu de braços abertos, abraço apertado como se estivéssemos nos melhores tempos do nosso amor.

Explico outra vez: há mais de quarenta amos fugi dela e me amasiei com a Cidade Maravilhosa. Therezina ainda era uma menina magrela, sardenta, com menos da metade da população que tem hoje.

O Rio era uma vedete de meia idade, ainda cheia de curvas insinuantes, seios de pão de açúcar, com um Cristo em pingente que não a fazia religiosa, mas tinha um quê de malícia proibida. Ainda não tinha sido atingida por balas perdidas que lhe deixaram com dificuldade de mobilidade. Hoje puxa de uma perna, carregando o sofrido subúrbio e a violência que a deixou mais triste, se bem que ainda sorri nas calçadas quando passa distraída, chinelo de dedo, um vestidinho de verão que ainda insinua as antigas curvas, embora não consiga mais esconder suas mazelas. Envelheceu um pouco maltratada, mas ainda vejo os seus encantos na sua boca sensual da Guanabara, que Levi Strauss desdentou para ver banguela (coisa de etnógrafo que não sabe compreender as mulheres). Em resumo, ainda gosto dela e não vou abandoná-la. O amor da velhice não tem o ímpeto da juventude, mas a calmaria sossegada de uma paixão domada.

Conheci outras: uma formosa francesa sapeca, mas difícil de convivência por vaidade excessiva. Algumas espanholas: com os mistérios de Andaluzia de uma beleza árabe; outra Valenciana modernosa feito paella de Calatrava; uma separatista da Catalunha; e, confesso que adorei a madrilena da Porta do Sol. Portuguesas duas: uma lisboeta de pernas grossas de subir as ladeiras de Alfama e outra do Porto, tripeira da Ribeira de encantos ressaltados pelo vinho de seus tonéis que descem o Douro. Conheci ainda uma holandesa em suas vitrines de sexo nos canais do Amstel. Cucarachas duas: uma portenha maravilhosa e uma uruguaia que comprava cannabis na farmácia. A chilena virada para o pacífico não tinha vinhos bons e eu subi os lagos andinos para encontrar uma esquiadora em Bariloche. Adorei uma limenha, outra cuzquenha e ainda outra inca enigmática em Machu Picchu. Nenhuma era tão apimentada como a asteca do México. No México ainda conheci a Catrina, musa morta dos finados, mas de uma beleza sem igual.

Andei por aí com outras, mas retorno sempre a minha Cidade Maravilhosa e a Therezina adolescente. Desta vez fui até a Palmeirais de meu cordão umbilical. Visitei parentes e aderentes.

Como eu ia dizendo, me amasiei com a Maravilhosa, hoje nem tanto assim, mas sempre dei minhas saidinhas, vez por outra, para encontrar Therezina. Acontece que com ciúmes, Therezina estava me tratando mal. Matou alguns amigos para não me deixar sair de casa. Algumas vezes me ignorava e parecia não me ver chegar, ficando indiferente. Confesso que não gostei quando ela fez a cirurgia plástica – ainda tão nova – se mudando para o outro lado do rio Poty.

Dessa vez foi diferente. Me recebeu para o lançamento de SITIADO com banda de música, pagina inteira nos cadernos culturais dos três jornais locais, entrevista em duas televisões. Me senti envaidecido sabendo que ela ainda gosta de mim.

Mas foi assim tão voraz que não me deixou ir ao Conciliábulo dessa vez. Nem conversar direito com Assai Campelo, Durvalino Couto, Geraldo Borges, Geraldo Brito, Paulo Tabatinga, Kenard Kruel, Dino Alves, Cícero Manoel, Garrincha, Chico Castro, Cinéas Santos, Paulo Machado, Poeta William, Gilson Caland, Gabriel Arcanjo, Paulo Moura. Em compensação, Amaral me apresentou direito Bernado Aurélio, Aristides, Jaislam e uma meninada nova que me disse que por mais que a cidade emburreceu, alguma coisa acontece para revirar esse marasmo.

Fiquei Feliz.  

E nem relampejou. Nem tava bonito pra chover. Avalie se tivesse!





    

Um comentário:

simaocuruca disse...

Que saudade do velho Edmar...