domingo, 8 de outubro de 2017

PREFÁCIO DE SITIADO

                              
                                     

             SITIADO é a segunda obra na linha ficcional de Edmar Oliveira. Esse notável piauiense de Palmeirais, radicado no Rio de Janeiro. Tal como a primeira, “Terra do Fogo”, foi alicerçada em fato histórico. Antes de abraçar, ou ser abraçado pela literatura, o autor exerceu a psiquiatria com competência e louvor. Dela extraiu algumas experiências e situações utilizadas nos livros “Ouvindo Vozes”, em 2009, e “von Meduna” em 2011.  

              Agora, servindo-se de outro fato histórico, a Coluna Revolucionária Miguel Costa- Prestes, criou este romance. Escrito na terceira pessoa e de atmosfera, às vezes lírica, às vezes trágica. Também de passagens e personagens epopeicos. O livro é composto de 21 capítulos. Todos epigrafados com versos do cordel, que se estendem, adequadamente, ao longo do texto ficcional. E que funcionam como uma espécie de trilha sonora. Muito mais do que reforço à narrativa. Por sinal, atraente e emocionante.   

            O texto inicia-se nas trincheiras dos soldados piauienses, montadas nos arredores da cidade de Teresina, quando esta se viu cercada pela Coluna, nos últimos dias do ano de 1925. A única capital do País sitiada por aquele movimento. A partir daí, a ficção mistura-se, envolve-se e se imbrica, mutuamente, com a realidade histórica.

             A própria Coluna que, normalmente apareceria como pano de fundo, surge com o ímpeto de uma personagem autônoma e vigorosa. Além de divisor do espaço e do tempo. A ela se juntam os protagonistas: o soldado Teodoro; o mascate libanês Abdon;  o comerciante coxo Geraldo;  e Bernardino - o “Lenine da Mata”,  introdutor do espiritismo na região central do Maranhão. Figuras emblemáticas que vão sendo reveladas ao longo do texto.

                          A Coluna, após percorrer por 13 estados (Do Rio Grande do Sul a Bahia) acabou com seus chefes exilados na Bolívia. E utilizava uma estratégia defensiva, como explicaria Luís Carlos Prestes: “O nosso intuito (...) era o de manter a revolução, esperando que, nas capitais, alguma eventualidade nos proporcionasse o ensejo para o golpe decisivo sobre a tirania opressora. Por isso, evitamos choques. Não nos interessava o combate decisivo”. (“A Coluna Prestes”, p. 189, de Anita L. Prestes, 4ª Ed., Paz e Terra). 
 
             Como a capital piauiense estava fortemente protegida não proporcionou a eventualidade almejada e, por consequência, não foi invadida. Ao contrário, ainda, prenderam um dos líderes revoltosos, o tenente Juarez Távora que, curiosamente, não esboçou  a  reação esperada de um oficial revolucionário. Aqui, Edmar Oliveira deixa à mostra a famosa dúvida histórica: de que ele já estava cansado e convicto da “falência da empreitada” e por isso se deixou prender. Pode ter sido, mas isso fica a cargo da História. Tanto quanto o insucesso da Coluna na cidade paraibana de Piancó, que fixou o começo do fim do movimento.  
        
             Edmar Oliveira descreve Teresina do meado da década de 20 com toda fidelidade, inclusive citando os nomes originais dos logradouros e o surgimento dos sobrados e mansões que foram ocupando seus espaços vazios. E, com muita sensibilidade, o drama dos moradores durante o cerco. 
  
           Outra descrição que ressalta pela força e vigor é a da paisagem do sertão baiano, comum a todo Nordeste. Vale transcrevê-la: “A vegetação ia se estreitando pelo caminho, apertando a passagem da tropa. Eram mandacarus, veleiros, chiques-chiques, unha de gato, facheiros, macambiras, coroas-de-frade, todos eles eriçados em grandes e duros espinhos (...)  Era a Estrada do Cruel e o nome rezava, conforme o desatino de quem fazia aquela passagem. Quanto mais iam em frente, mais a mata de espinho rasgava a carne das pernas e dos braços. Também as mãos que protegiam os rostos ficavam lanhadas e não conseguiam desviar os espinhos que marcaram as faces daqueles homens”.  
 
                SITIADO não acaba com a Coluna. Continua. E deixo o desfecho para o leitor, porque não sou estraga-prazer. De uma coisa posso assegurar: terá boas surpresas. Pois, trata-se de um livro muito bem escrito, feito com garra, imaginação e talento.

  
JOSÉ RIBAMAR GARCIA
-  advogado e escritor –
Membro da Academia Piauiense de Letras
                                                                               

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