domingo, 3 de setembro de 2017

Um olha sobre a cidade de Teresina



Resultado de imagem para guilherme müller e a invenção visual de teresina 


Ao folhear do livro de Paulo Gutemberg – Guilherme Muller e a invenção visual de Teresina – , nos damos conta do balanço do tempo, das transformações.   Por exemplo. A Coluna da hora na Praça Rio Branco. É um modelo de arquitetura, um monumento histórico de outra época. Mas perdeu a sua utilidade principal, já que todo mundo usa  relógio de pulso. Também se vê a foto de um  orelhão , que não serve mais para nada, pelo menos, na pratica da comunicação auditiva. E um marco do passado. Este é um olhar interessante que as fotos favorecem ao leitor atento. De modo que a leitura das fotos nos propicia uma viagem pelas avenidas, logradouros, atravessando o tempo, um leque de luz. E cada olhar do leitor vai descobrindo novas faces e fases do trabalho de Paulo Gutemberg.

Na fotobiografia de Teresina, não apenas o cenário político nos é apresentado, festas cívicas e religiosas, como, também, cenas  ribeirinhas,  como por exemplo, as lavadeiras batendo roupa, homens trabalhando no calçamento das ruas, canoas no leito do rio com pescadores solitários  A cidade progredindo, se urbanizando Também fotos onde autoridades presenciam o asfaltamento de estradas.  Fotos  representando  a liturgia do poder.

Nem uma   foto sobre a Estação do Trem  aparece no livro, o que talvez seja um descuido. Pois  trata-se da estrada de ferro, tão importante para o Piauí e o Maranhão, como o rio Parnaíba.  A Estação  foi o  local onde o fotografo Guilherme Muller desembarcou. Bem que poderia ter deixado uma lembrança. Um souvenir, um cartão postal. Hoje o espaço da estação restaurado nos propicia uma nova visão cultural.

Outro descuido é a ausência do Porto no cais do rio Parnaíba com os vapores   gaiola. Esses dois meio de comunicação (o trem e o vapor)  foram até certo período da nossa história o eixo por onde fluía os nossos produtos agrícolas..

O livro do Paulo Gutemberg  tem duas contextualização, um recorte biográfico que trata da vida do fotografo Muller, uma dissertação bem elaborada; o outro recorte trata   da  própria evolução urbana da capital pictoricamente falando.

 No inicio, a cidade, com a  chegada do fotografo Muller,  era  espaçosa, tinha mais paisagem ruralista,   menor população, de modo que quase ninguém via pessoas na rua, a não ser quando saiam aos domingo para a missa.. Aos pouco a cidade foi crescendo e mudando a sua arquitetura; diminuindo o tamanho dos quintais, residências dando lugar as comércio. Incluindo novas praças  derrubando árvores. Exigindo mais pontes para atravessar os rios na sua ânsia de novos espaços. Como aconteceu com as amendoeiras de toda a Rua da Gloria.  

 Teresina hoje não é mais a Teresina, cidade verde, sob o olhar de Coelho Neto, é uma cidade cinza,  e o asfalto reverbera aos olhos de seus habitantes. Mas tem uma história, esta historia foi registrada em parte na câmara do fotografo Guilherme Muller. Hoje, na era do celular, todo mundo tem a história de Teresina gravada,  de conformidade com o seu interesse.

Eu peço licença ao Paulo Gutemberg  para oferecer esse livro, já que me sinto um pouco seu coautor, para um punhado de pessoas que  não foram fotografadas;  mas, sem sombra de duvidas, ajudaram a dar impressão e imagens a nossa cidade,   quer como figuras populares, e outros tipos de personalidades.

Portanto ofereço este livro ao motorista Gregório, santo e padroeiro dos desvalidos, ofereço  este livro ao Pedro Margarida, que tinha um ambulatório e cuidava  da saúde das mulheres da rua Paissandu. Ofereço este livro  ao Manelão, que divertia as crianças com brincadeira de cinema, ofereço este livro a Nicinha, a folião mais conhecido de nossos carnavais de rua. Ofereço este livro ao Guarany poeta e humorista da Radio Difusora, ofereço esse livro a Guadalupe a primeira vereadora mulher em Teresina. Ofereço este livro às lavadeiras do cais, aos pescadores do rio Poty e do rio Parnaíba, ao Cabeça de Cuia.  Ofereço este livro a seu Cornélio  e a comunidade árabe que frequentavam o Café Avenida. Ofereço este livro ao Providencia que amava tanto as artes cênicas e também ao Santana E Silva. E a todos que habitam ou habitaram  essa cidade;   pessoas invisíveis, mas presentes no imaginário cultural da  nossa capital. E deles que eu quero falar. Todos já estão mortos. Mas sem eles a nossa cultura popular seria inexpressiva. Falo do fotografo Lambe Lambe que quebrava o galho do estudante pobre tirando retrato três por quatro, falo do camelô, que fazia discurso de propaganda de seus remédios na Praça da Bandeira   para o povo doente. Falo dos locutores dos alto falantes do bairro Macaúba e do Mafuá. Falo da Maria da Inglaterra, do Braguinha  conversando na esquina da Farmácia do Povo. Falo do Mafuá e do Augusto Ferro.

  Guilherme Muller chegou a Teresina procedente de  Belém via são Louis, pela estrada de ferro, desembarcou na estação com sua maquina fotográfica à tiracolo. Saiu de uma cidade cosmopolita, mas se deu bem aqui na província. Veio trabalhar na Imprensa Oficial,  cobrir  os eventos políticos do estado novo. Casou com uma filha da terra, de família  da nobreza rural e teve muitos filhos. Logo virou um personagem importante no meio da sociedade piauiense, em parte devido o  glamour da sua profissão e, também, pelo zelo de seu trabalho. Teresina quase toda foi fotografada por ele, desde os prédios mais antigos aos mais modernos Fez também fotos aéreas da cidade. As suas fotos agora arrumadas em álbum num livro, sem rigorosamente  uma linearidade cronológica,  são a testemunha de como uma cidade, mesmo com sua fúria de progresso conseguiu manter algumas edificações  que bem representam o seu passado; se bem que algumas foram sacrificadas. Rever as fotos de Guilherme Muller é reviver uma época de emoções e perplexidade, desde o tempo do Estado Novo, passando pela frágil  democracia que elegeu Getúlio Vargas, a sua morte, e por fim uma prolongada, escancarada e vergonhosa ditadura. 

Quanto ao texto de Paulo Gutemberg é bastante elucidativo ao que diz respeito ao tratamento do  tema focado em seu trabalho. Na verdade, disserta muito bem, sobre a história do desenvolvimento da imprensa no Piauí, especialmente quando aos recursos técnicos e humanos. Os dois ilustres protagonistas  do  livro  se completam.


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