domingo, 3 de setembro de 2017

RECORDAÇÕES DA CASA PATERNA

(Edmar Oliveira)

Recebi o novo livro de Geraldo Borges (Recordações da casa paterna, 2017, Pi, edição do autor e Manoel Ciríaco) pelo correio e só tive tempo de abrir o envelope no dia seguinte. Ainda bem que não abri o envelope no dia que recebi, senão meus afazeres seriam seriamente prejudicados. Quando dei de cara nas primeiras letras, não consegui parar de ler. Fiz apenas uma ligeira pausa para o almoço e voltei ao livro.

Não é um livro de crônicas, como os dois anteriores (Cidade Submersa, 2011 e Estação Teresina, 2014). Se as crônicas anteriores já traziam o memorialista de forma esparsa, as Recordações são uma autobiografia sequencial deliciosa. Que se inicia antes do nascimento do autor, enredado em destrinchar a genealogia que o trouxe ao mundo, das lembranças do engatinhar nos ladrilhos da casa paterna, das descobertas do mundo nos pequenos detalhes e personagens de sua aldeia, da viagem na balsa que levou a maioria de nós interioranos para a capital, da entrada em Teresina pelo cais – quando a estrada para o sertão ou para o litoral era o rio. 

Nessas primeiras impressões, Geraldo tem o dom de revelar ao leitor piauiense as suas memórias esquecidas, pois são verdadeiras lembranças de arquétipos grudadas no nosso DNA afetivo. Do cuspe ao pé do balcão da venda; do depósito de couro de boi e de bode; do sal vendido a litro de madeira, que retira a umidade e o cheiro de maresia de um mar que nunca tínhamos visto; do vapor-gaiola, que carregava um trem de barcaças com mercadorias desejantes para serem trocadas por gêneros extrativistas, num escambo primitivo sem papel-moeda. Assim ele faz a revelação de nossas próprias memórias escondidas.

Temos uma diferença de idade que se agora não é notada, fazia-nos em gerações diferentes na meninice. Mas eu estava no vapor que aportou na Bacaba do Geraldo para o troca-troca de mercadorias e vi também o seu amigo que fazia verdadeiras maravilhas esculpidas em buriti. Descubro que aprendi a cortar a laranja com o pai do Geraldo  Era como se ele tivesse me roubado a memória para me fazer lembrar. Esses encantamentos, certamente, vários leitores terão. É o autor revelando no leitor – de forma quase mágica – suas próprias recordações esquecidas. Também cheguei pelo cais do Parnaíba, quase que na mesma balsa, e joguei bola na rua de terra batida, que depois foi empredada – como se dizia na época – e muito depois asfaltada.

Quando as recordações de Geraldo vão tecer a sua história pessoal, deixando de lado o genérico, descobrimos que não conhecemos o amigo por mais que tenhamos convivido. A pessoa que vai sendo autobiografada é um desconhecido, acho que também para o próprio autor, pois é ele quem afirma que “quem recorda já não é a mesma pessoa que viveu aquele outro tempo”. 

Mais não digo, para não privar o leitor das descobertas que me encantaram. E ainda reclamo que suas recordações terminam exatamente na época em que nos conhecemos. E de lá pra cá são quase quarenta e cinco anos que ele fica me devendo. Mesmo que “os fatos vividos e lembrados nem sempre são iguais”, nós inventamos a versão do que fomos. E a invencionice é a literatura e sua magia. No que a mentira vira verdade definitiva. Uma boa leitura!



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