domingo, 17 de setembro de 2017

Cap II tx

Abdon estava em Carolina no dia em que a Coluna
Revolucionária Miguel Costa-Prestes chegou à cidade
vinda do Goiás. Antes, os membros do Partido Republicano
de Carolina já tinham feito contato com a Coluna e os
esperavam em festa, acompanhados por boa parte da
sociedade local. Um emissário da Coluna conseguiu
imprimir, em uma das duas gráficas de Carolina, um
número do jornal revolucionário “O Libertador”, contando
os feitos dos andarilhos revoltosos nos sertões de Goiás.
Abdon assistiu à calorosa recepção da Coluna na cidade,
tão diferente do medo que o movimento tenentista fazia
chegar na capital. Um rico membro do Partido Republicano
da cidade fez um sarau em homenagem aos colunistas e
Abdon, que também fora convidado, teve a felicidade de
assistir a números musicais e recitais de poesias – com uma
linguagem mais culta do que a dos folhetos de cordéis que
também vendia com outras bugigangas – e ficou deveras
impressionado com o desenvolvimento artístico e político
de uma cidade tão distante do litoral.

Naquela noite amena, que até reclamava um lençol
para aquecer o corpo na hospedaria de Donana, Abdon
pensava na sua vida e nos últimos acontecimentos. Uma
carga de tecido tinha se perdido numa travessia do Rio
Pindaré e o patrão tinha posto na sua conta. Já fizera mais
de quatro viagens e não conseguia quitar a dívida. O patrão
adiantava algum, para que ele pudesse sobreviver, e a dívida
aumentava. Achava que estava escravo do “carcamano”
para sempre. Precisava mudar alguma coisa.

Dos últimos acontecimentos em Carolina lembrava
o dezenove de novembro, dia da bandeira, que lhe seria
inesquecível, pela presença da Coluna dos tenentes
revoltosos do exército brasileiro. Após o hasteamento da
Bandeira Nacional, foi lido um boletim do tenente-coronel
Cordeiro de Farias, alusivo à data. Entretanto, os discursos
de Juarez Távora e Moreira Lima fizeram eco pela proposta
de um mundo melhor naquela pátria, que nem era dele, mas
sabia que a tinha adotado para sempre. Os oradores davam
sentido à marcha empreendida pela Coluna. Seus membros
precursores eram tenentes das forças armadas brasileiras,
que se revoltaram contra os desmandos da perniciosa política
do café com leite, em que o poder era repartido com o apoio
dos “coronéis” do interior deste grande país, que mantinham
seus privilégios grilando terras e explorando, quase como
escravos, os moradores locais. O sentido da marcha pelos
sertões, frisara enfática e convincentemente Juarez Távora,
era mostrar essa situação aos povos oprimidos e fazê-los
acreditar que havia esperança. O movimento revolucionário
propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração
e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei
e os cartórios para a defesa de seus interesses. Abdon tinha
pensado que bem uma revolução podia também livrá-lo de
suas dívidas.

Para libertar o povo da opressão, em ato contínuo
aos inflamados discursos, os revolucionários mandaram
queimar, em praça pública, os livros e as listas relativos à
cobrança de impostos, “verdadeiro auto de fé, praticado
como protesto às extorsões que o fisco oligárquico exerce
sobre o povo escravizado”, nas palavras de Moreira Lima
que ficaram impressas no cérebro de Abdon. A população
assistia a esta queima na maior alegria. Abdon lembrava
que os habitantes fiscalizavam a fogueira e teve um que
reclamou que o seu recibo não tinha sido ainda queimado.

Távora sorriu e o incentivou a atiçar a fogueira para que as
labaredas destruíssem as dívidas do reclamante. Um velho
vaqueiro do sertão, dirigindo-se a Moreira Lima exclamou:
“Seu capitão, eu já tenho setenta e oito anos e até hoje
foi a coisa mió que vi fazê na Carolina, pruquê os dêrêito são
um despotismo”. E, enquanto a fogueira queimava as dívidas
dos carolinenses com a Coletoria Federal, a Filarmônica
local executava a música “Ai, seu mé”, provocando uma
verdadeira euforia no povo mais humilde da cidade.

As lembranças de Abdon cavalgavam que nem as
mulas de suas viagens por essas terras férteis e prenhes de
babaçuais. À tarde os revolucionários começaram uma ação
que eles chamavam de “requisição de mercadorias”, para
uso dos colunistas e para distribuição para os moradores
mais humildes da comunidade. Tudo era pago com notas
promissórias que seriam resgatadas quando a revolução
fosse vitoriosa. Os comerciantes fechavam suas casas para
tentar evitar o que chamavam de “saque”, mas Abdon
achou justa a história das promissórias. Tão justo que ele
mesmo ofertou a sua valiosa carga – as peças de mesclas,
que serviam para a confecção de uniformes militares –, os
animais que seriam valiosos para a marcha dos tenentes,
negociando para ficar com a seda e o linho, que, entretanto,
também foram requisitados pelos revoltosos para presentear
o povo pobre. Abdon só pediu que fossem acrescidos na sua
nota promissória, o que foi feito de pronto, e decidiu entrar
para a Coluna tenentista. Faria uma mudança de vez na sua
vida, pensou naquele momento, e guardou as promissórias
que era a garantia que estava passando de devedor a credor.

A mudança de sua vida estava ligada à mudança de governo.
Aquela era a sua causa.

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