domingo, 16 de julho de 2017

Sobre livros



 
escultura de Su Blackwell
(Geraldo Borges)

            O livro é um objeto antropomórfico  e também antropofágico. E natural. Pois é uma construção humana. Vejamos a sua morfologia.

 Ele tem lombada e fica em pé enfileirado nas estantes, como guerreiros prontos para o combate.

Tem pé de página e rodapé. Tem folha de rosto, tem orelha, tem boneca, tem capa e contra capa, brochura e capa dura, dura mais quando é capa dura, encadernado. Tem título.  Por exemplo: Dom Quixote, David Copperfield, Brás Cubas.

Também  existem livros de cabeceira e livros de bolso.

 O livro já foi virgem. Ainda na metade do século passado e em todo o século dezenove, o livro saia do prelo com as folhas  pregadas. Lê-lo era a maior aventura.

 Podemos ler num trecho de Ana Karênina, uma cena que ilustra bem o que estou  dizendo “ (...) Pediu a Anuchka que pegasse a lanterna, prendeu a no braço da poltrona e retirou de dentro da bolsinha uma espátula para separar as paginas  de um romance inglês .”

E assim de página em página, de cena em cena, de capítulo em capítulo Ana vai  penetrando nas entrelinhas, de um enredo maravilhoso, dentro de um trem.

Hoje mudou, não há mais virgindade. O mais que se pode fazer com o livro  e embrulhá-lo em papel plástico e expô-lo nas prateleiras das livrarias. Uma forma de censura velada, como se livro não fosse feito para ser manuseado e lambido, e cheirado.  Ainda existe muita gente por ai, leitor antigo, que passa as páginas de seus livros com um toque de saliva.   Daí um passo para comer o livro, sentir o gosto.

Mas isso é um perigo. Pois o livro pode estar envenenado. Como ocorreu no romance  o Nome da Rosa.

 Pois é, sedento leitor. O livro é um alimento fenomenal. Um biscoito recheado. Você come, digere, assimila. Ou um tijolo, que de repente você descobre que é uma catedral.

 Às vezes ele lhe  constipa e você  vira um visionário. Foi  o que aconteceu com o fidalgo Dom Quixote ao ler os romances de cavalaria. Valeu a pena. Vale.

E melhor você ficar doido por excesso de leitura do que ficar estupido por falta de livros; ficção principalmente, já que a vida é uma narrativa, onde cada personagem cumpre sua jornada e encarna o seu livro, com suor e sangue. Em carne viva.




Um comentário:

PauloTabaTinga disse...

lindíssimo texto! Parabéns, Geraldo!