domingo, 16 de julho de 2017

O MEDO POR COMPANHIA



(Edmar Oliveira)

Já passava da meia noite quando a família de Bryan – o pai, a mãe, a irmã e a tia – saiu da casa da avó para voltar ao lar, aonde Bryan não chegou. A violência que transborda numa cidade que perdeu os contornos da lei faria outra vítima, apenas porque a gratuidade da violência não admite porquês. E ela cada vez mais se aproxima das situações mais banais que acontecem na vida de seus habitantes.

O pai de Bryan até tinha pressa para levar a família à segurança do lar. O sábado na casa da avó entrou na madrugada do domingo. Parou no semáforo vermelho na estrada de Campinho, uma via importante do bairro onde mora. A obediência ao semáforo fechado irritou o motorista do carro que estava atrás. O apressado na noite buzinou, ligou os faróis altos e acelerou como querendo passar por cima do carro que obedecia a paragem na sinalização vermelha.

Certamente um otário que obedecia ao sinal vermelho àquela hora da madrugada, deve ter pensado o motorista impaciente. O semáforo mudou para verde e o pai de Bryan saiu sobressaltado com a impaciência do motorista detrás. O motorista nervoso acelerou e, ao lado do carro da família de Bryan, xingou colérico e o pai de Bryan tentou pedir desculpas no momento em que percebeu que o motorista impaciente estava com uma arma na mão. A acompanhante do motorista colérico – sim, ele estava acompanhado de uma mulher – até que tentou evitar que seu companheiro atirasse.

Num átimo que acompanha o instinto, e que às vezes nos trai, o pai de Bryan acelerou, enquanto o motorista colérico apertava o gatilho algumas vezes. O pai de Bryan conseguia sair da linha de tiro, mas a rapidez que o afastou, deixou a mãe e as duas crianças no banco de trás vulneráveis ao trajeto das balas. A mãe de Bryan foi ferida pelo grito da filha, a irmã de Bryan gritava como se um animal feroz mordesse sua perna. Bryan sentiu uma dor nas costas que lhe tirava a respiração. Queria ir pra casa, mas não chegaria.

O pai de Bryan, mesmo com agonia dos gritos dos entes querido, ainda conseguiu dirigir até um hospital do bairro. Pelo retrovisor, preocupava uma mancha vermelha que crescia na camisa de Bryan. Acelerou para que a vida não deixasse Bryan antes do que fosse possível ser feito.

A irmã de Bryan teve ferimento leve, se é que se pode chamar assim o efeito de uma vontade assassina. Bryan não resistiu. Foi ferido de morte numa discussão de trânsito, onde a culpa do seu pai foi apenas ser obediente a um semáforo vermelho. A cor que estampou a camisa de Bryan na madrugada trágica.

Nada se sabe do motorista colérico. A aflição do pai de Bryan não permitiu que a placa fosse anotada. Teria? Seria clonada? O carro assassino sumiu na noite escura deixando o rastro de sangue e tirando a ainda muito pequena vida de Bryan.

A cidade violenta não tem tempo para chorar Bryan. Ontem, Arthur morreu no ventre da mãe antes de nascer. Hoje, outra criança foi ceifada por uma morte violenta que carrega um fuzil para uma guerra sem fim…

A cidade não é mais maravilhosa. A violência estendeu seu manto para esconder a beleza das montanhas e a alegria de ser carioca. Temos o medo por companhia.
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desenho: Dino Aves

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