domingo, 16 de julho de 2017

Investigação sobre a natureza do amor



E se nos montes, rios ou em vales
Piedade mora ou dentro mora amor
Em feras, aves, plantas, pedras, águas
Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor
Que grandes mágoas podem curar mágoas.
(Camões)

Acostumou-se a não ser nada além de um saco de pancada. Carinho? uma palavra estranha, tinha cheiro, gosto de coisa não comida, travo e trevas. Palavras eram grunhidos, berros cuspidos, um gemido aqui, outro acolá. O que valia mesmo eram os vergões nas pernas, o galo na testa, o roxo-beliscão na pele, as cicatrizes que desciam pelas costas magras. Cresceu assim, apreendendo o mundo embaixo de porrada e gritos e palavras feias, por isso mesmo era uma menina burra, manquitola e desdentada, uma coisa, a epiderme uma titica manchada, tecido desbotado de uma macabéica figura, ser sem tempo. Confiava apenas na suspeita, era boa nisso, em suspeitar. Vivia esperando coices, de tudo e de todos. Passava horas roendo as unhas, arrancando cascas de feridas de antigas surras. Isso sim lhe era prazeroso, o sublime gesto de arrancá-las, as casquinhas pretas, devagar, introduzindo, após diversas tentativas, a unha roída entre aqueles montinhos escuros e secos de substância nova e sua parte velha do corpo, puxando-as levemente para cima, afastando-as com aquela dorzinha típica e familiar que redundava nos ferimentos abertos e sangue fresco, uma babinha rala e rubra que ela espalhava com o dedinho, antes de lamber. Aprendera a gostar de lamber-se e daqueles raros momentos de silêncio absoluto, quando enfiava a cabeça na bacia d’água suja e o mundo desaparecia num silêncio turvo e aquático. Não sabia ler olhares, eram todos iguais, mordiam, ameaçavam. Sua cartilha era essa: olhos de dor e foda-se. A mãe, um tumor fétido coberto costumeiramente por homens sujos, farrapos bípedes e bêbados que muito raramente depositavam uns trocados por conta do gozo rápido que ela lhes oferecia e que em seguida lavava na bacia ao pé da cama. Era a própria metástase peniana disseminada numa vagina que berrava e xingava e batia e cuspia e lamentava e chorava sem razão. Assim, seus olhinhos amarelo-malária enxergavam a mãe. O pai que lhe restara na memória era aquela massa disforme e sangüínea que um caminhão carregado de cimento houvera por bem amaciar. O que mais a incomodava não eram as surras, que se sucediam tediosas e que por serem constantes ela já se acostumara, mas estar, às vezes, amarrada ao pé da cama. Nessas horas, sangrava-lhe o tornozelo e não lhe era permitido gemer, pois isso incomodava o sono materno. Assim aprendeu que toda dor é silenciosa, deve ser assim silenciosa, indefectivelmente silenciosa e solitária. Aprendia rápido e esquecia quase sempre na mesma velocidade. A vida era uma eterna investigação sobre a natureza de tudo. Desnecessário dizer que ela nunca saberia o que é investigação ou natureza ou vida ou tudo. Puro instinto. Mas nesta manhã, atada ao pé da cama, ela conheceu o amor. Foi despertada de um sono atribulado por uma barata que lhe cruzou toda a extensão da perna estendida. A sensação de algo além de dor fez com que abrisse os olhinhos amarelo-icterícia e ficasse, inerte, saboreando as coceguinhas que as patas da barata lhe faziam, primeiro nas pernas, depois, na virilha, na barriga. Era um trajeto de estranho gozo que ela saboreava desesperadamente. Não que esses insetos lhe fossem estranhos, pois baratas e ratos enormes infestavam aquele lugar, mas essa baratinha, especificamente essa e não as outras, pela primeira vez lhe tocara gentilmente o corpo, de uma forma diferente, de um jeito diferente, com patas diferentes. Ou seria ela, a coisinha murcha de olhar-cancro-e-herpes, o fato diferente naquela história toda? Não, ela era a mesma florzinha sem graça e triste atada ao pé da cama. Só podia ser a barata. Era mesmo a barata. Dessa ela gostava e nem sabia o que era gostar, estava aprendendo. Desconfiava agora que o gostar era o diferente que caracterizava essa baratinha e a distanciava de todas as outras. Sim, gostar é um algo diferente. Gostar é o-mesmo que um dia se torna um-outro. Talvez o gostar fosse essa coisa que ela sentia nessa manhã, muito além do princípio do prazer. Talvez gostar fosse, na verdade, o gosto de não sentir dor. Talvez o prazer de não sentir dor fosse o gostar. Ou será que o gostar era a sensação de descobrir no toque, no contato, algo mais que a força bruta, que dor e ferimento? Gostar, ela sentia, era então querer que aquilo nunca acabasse. Era lutar para parar tudo que andava e para manter tudo como está. Ela tentava evitar, em vão e a duras penas, até respirar mais profundamente ou mover-se bruscamente com receio de que a barata fugisse e lhe deixasse só, com seu tornozelo ferido e atado à cama, onde a mãe, aquele furúnculo, dormia com outro homem sujo, babando-se. Então, gostar era também não respirar e ficar parada para que tudo não se acabasse. Gostar era ter medo de que tudo acabasse. Medo do acabar. O medo de perder era parte do gostar, ela descobriu. Estendeu a mãozinha e gentilmente colheu do chão a barata que já se afastava. Colheu-a como se colhe um caju, uma coca-cola, um Caetano na loja de discos, que ela nem sabia o que era. A barata debatia-se desesperada diante do olhar embaciado-hepatítico da menina. Ela, orgulhosa de suas descobertas, imune ao pavor do seu objeto de desejo que esperneava, levou-o à boca, muito aberta e receptiva, e mastigou-o, sentindo-lhe o sabor, a consistência, enquanto algumas lágrimas escorriam pelo rosto. Aprendia nesse gesto, finalmente, que o amor, o gostar, era algo que exigia ação e, mais que ação, paladar e sacrifício. Aprendia que o amor era integração de corpos e de almas, exigia que se guardasse o diferente, o amado, dentro de si; que o amado podia ter um gosto amargo e que, principalmente, tempos depois de provado, o amor era capaz de deixar traços muito dolorosos e tristes no coração, um buraco cheio de vazios… e resíduos de asas nos dentes.

(Leo Almeida)

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