domingo, 2 de julho de 2017

Encontro com a velhice

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(Geraldo Borges)


         Saí para tirar a barba. Estou pensando em ficar mais novo. Cheguei  a porta do barbeiro  e a encontrei fechada. Tive que voltar para casa. Eram mais ou menos dez  horas da manha. Logo de saída quando ia atravessar a rua, encontrei uma  mulher alva, bonita, com feições de nobreza decaída, com um livro na mão.

Perguntei-lhe de ela gostava de ler. Disse-me que sim e me mostrou o livro; era uma bíblia “para mulher.” O que me surpreendeu. Começamos a conversar. Disse-me que era casada e tinha filhos, um casal. E havia feito no Senac um curso de educação dos idosos. E me perguntou por que eu estava ali sozinho.  De início eu poderia ter cortado o papo e dito.

 Eu não estou sozinho. Estou com você. Mas já estou indo embora.

 Mas a mulher era simpática e atenciosa e começou a provocar em mim emoções censuráveis, de modo que tive de conter meus sentimentos primitivos para não contrariá-la.   
      
Ela disse para mim que estava esperando uma pessoa, ali onde nos encontramos. Mas que a criatura estava demorando.

  Resolvemos nos despedir. Foi então que ela sugeriu que ia me deixar em casa. Pois eu  não deveria andar sozinho. Era perigoso. Poderia ser assaltado. Foi nesse momento que atravessamos a rua. Ela pegou  em minha mão e guiou os meus passos. Gostei do seu conato. A esta altura eu já sabia de sua idade. Tinha quarenta e sete anos e era  filha de um ex- expedicionário da FEB.

         Continuamos andando para o rumo de minha casa. Imaginei mil coisas. Quem sabe ela não faria parte de alguma quadrilha para saquear os velhos e o cara que ele estava esperando  não seria seu cumplice. Disse para ela que bem que poderia contratá-la para ser a minha secretaria particular e cuidar de mim. Enquanto isso íamos  aproximando mais da minha casa. A atenção com que ele me conduzia era tocante. Eu estava  em suas mãos. Era um momento mágico. As coisas estavam acontecendo. Imaginei – me chegando em minha casa apoiado no seu braço. Tocando a campainha, a minha mulher abrindo  a porta e se deparando comigo e a minha amiga de mãos dadas. Eu falaria.

"Essa aí, Fatima, é a minha nova  secretária".

  Não consegui imaginar a reação da minha mulher. Mas talvez  ela fosse rir e achar muito engraçado. Imaginei um dialogo entre as duas,

 "Eu o encontrei perdido, e trouxe o para casa".

 "Obrigada".

Estava nesse devaneio quando a mulher  ouviu o seu celular tocar e atendeu. Era a pessoa que ela estava  esperando. Não sei se era jovem ou velho. Aproveitei para me despedir. Já que estava perto de casa, a um quarteirão de distancia. Valeu. Socorro. Tudo foi tão rápido que me esqueci de pedir o numero de seu telefone.

         Provavelmente nunca mais verei essa mulher, de modo que ela virou uma personagem na minha imaginação. Mas, esse episódio serve, para  que, eu me convença realmente de minha velhice, com barba ou sem barba.

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desenho: Antônio Amaral




  

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