domingo, 16 de julho de 2017

é desse jeito, meu chapa! (15)



E porque nascemos no mapa feito pelos europeus, fomos desenhados na parte de baixo e entre muitos rios de uma terra sem fim “em si plantando tudo dá”, de um povo que não precisava andar vestido e enfeitado de penas coloridas e lianas trançadas aos tornozelos e braços com significado incompreensíveis aos olhos dos achadores, mas que não precisavam cobrir as vergonhas, como diria Caminha no primeiro e-mail que comunicava haver de fato terras na divisão das Tordesilhas e abaixo do equador, como dizia o santo padre que governava o mundo ocidental até ali. E por vergonhas descobertas, deu-se uma sem-vergonhice sem fim de nosso pai ser português e nossa mãe, índia e já chegaria a tia preta das costas de África para enredar o carnaval de nossa miscigenação a perder de gerações, que para os puristas marcava a degeneração da raça, enquanto médicos mulatos tentavam enxergar um melhoramento na literatura de Machado de Assis. Porque Lima Barreto continuaria a ser a degeneração dos costumes dos subúrbios misturados à aguardente Paraty fabricada nas senzalas e internado no hospício. Os jesuítas conseguiram provar que a alma tinha cor e era branca, tendo vindo nas caravelas do mundo civilizado para desembarcar numa terra de índios sem deus e com as vergonhas oferecidas. A tia preta de África aqui chegou também despojada de alma porque as almas brancas sempre habitaram um território celeste acima do equador. Os índios nunca aceitaram as almas que os jesuítas quiseram lhes colocar por não se deixarem domesticar. Desse gentio intratável o jeito foi dá fim aos machos e amarrar as índias na cumeeira da cozinha para servir à mesa ao dia e rede à noite. Mas na sua rebelião a nossa mãe servia de rede ao português e seu filho e por isso somos tios de nossos irmãos. E pela parte do DNA branco que recebemos pudemos ser catequizados na infinita misericordialidade do criador, porque Deus é um poço de bondades, diziam os jesuítas. Tínhamos que imaginar um poço noutras terras, pois no sertão o poço estava seco das bondades do criador e nem água dava, tinha era um fundo de pedregulho no lajedo estorricado da seca e não podíamos entender esse posso sem fundo e com muita água benta que nunca secava. Mas aos trancos e barrancos fomos também catequisados no sertão. No preto a catequese foi diferente: se aceitava o Jesus dos jesuítas tinha a alma branca imaculada, nos trajes de senhor fidalgo de Machado de Assis. Degenerado, beberrão, inconformado, de fato sujo e vomitado, andando pelas sarjetas e hospício no exemplo de um preto em quem nunca conseguiram escanchar a alma, como em Lima Barreto. O preto de alma branca sempre teve sua cor desbotada pela percepção dos brancos, mas o preto sem alma sempre foi amaldiçoado como um pária que apenas trazia a peste da degeneração e os maus costumes do pito no pango e no cultivo de suas divindades pagãs. A intelectualidade de Lima Barreto acreditava tanto nisso que não lhe deu filhos, como se para abortar a maldição. Mas a maldição de seus escritos perdura pela eternidade na alma que saiu da pena daquele preto sem alma. E era uma alma preta nas cores de seus personagens dos lábios grossos, nariz esparramado, testa curta e cabelo encarapinhado de “um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral”. Foi a escrita de Lima Barreto que libertou os escravos e não a lei dourada da princesa Izabel. O problema é que só libertou nas letras vivas dos livros fechados nas prateleiras das livrarias e não foi muito lido pelos escravocratas que foram desalfabetizados na herança escravizante que traz incrustada no DNA de colonizador transmitido ao feitor filho da tia negra de África que nega sua origem naufragada num navio negreiro que não aportou na sua consciência e nunca chegou ao cais do Valongo redescoberto ainda agora nos escombros da revitalização do porto da cidade maravilhosa. Na redescoberta do cais do Valongo, novos negros, mulatos, cafuzos e mamelucos foram novamente expulsos das habitações largadas que tinham invadido. Mostraram o cais do Valongo aos descendentes dos escravos que aqui desembarcaram para que eles desocupassem o porto maravilha revitalizado. O cais ficou sem os pretos para a exposição aos olhares dos brancos. Nova forma de escravidão cultural. E os brancos também invadiram a Pedra do Sol para dançar e cantar a música dos negros expulsos de lá. Preto velho ri da ironia de um destino que atravessou o atlântico para que fosse catequizado por cristãos jesuítas nas terras novas em que Ogun teve que montar o cavalo de São Jorge, Oxalá fosse Jesus crucificado, Xangô brinca com o carneirinho de São João, Iansã faísca os raios de Santa Bárbara e a rainha do mar exige incorporar a santa Maria mãe de Deus nos barquinhos de prendas lançadas a Iemanjá. Preto Velho finge que foi catequizado e aprende a rezar missa ofertando galinha morta no sacrifício da encruzilhada. Porque se nós somos um sonho do português com o paraíso na terra, quer dizer, um sonho de vinda; nós sonhamos com uma volta ao que não existe mais aqui em Portugal. 
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 Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)                    

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