domingo, 2 de julho de 2017

É desse jeito, meu chapa! (14)

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Aspira esse ar do Douro, que as nuvens já se vão com a brisa que vem do mar. Se tivermos sorte o sol dará as caras antes de ir embora e seus raios farão brilhar o cais da Ribeira no casario que se debruça ao rio. Porque o casario daqui parece vir de dentro do passado longínquo, não é como o casario de Lisboa botado abaixo pelo terremoto de 1755 e refeito em cima da risca na obsessão do Marquês de Pombal, que escorou as estruturas para que outro terremoto não desmanchasse de novo a Lisboa alegre à beira do Tejo. Não se sabe se a cidade resistirá a um novo terremoto que os lisboetas tanto esperam. Muito antes da modernização de Pombal, nasceu Antônio num casario antigo perto da velha Sé. Santo Antônio foi converter os árabes no Marrocos, numa tentativa de tentar evitar a invasão árabe que hoje invadiu a Europa e, como já sabemos, não foi feliz. No regresso de sua empreitada, uma tempestade deixou seu navio nos costados da Sicília. Na Itália conhece São Francisco e foi um pregador profícuo da arte que aprendera em Coimbra. Tendo lecionado em Paris, não volta a Lisboa e vai morrer em Pádua na Itália, ficando ali conhecido como Santo Antônio de Pádua. Os portugueses não se conformam dos italianos terem roubado seu santo padroeiro e no dia 13 de junho um carnaval toma conta da Avenida da Liberdade para reivindicar que Antônio é de Lisboa e se come sardinhas que se multiplicam como os milagres do santo que tem a fama de casamenteiro. Presta atenção se tu pegas o vinte e oito para Alfama. Antes do largo da Sé, a tua direita, num terreno recuado, está o templo em homenagem a Antônio com um museu de relicários anexo. Não tão exuberante como o de Pádua, que preserva a língua incorrupta do santo pregador e o crânio no qual foi baseada uma reconstituição que deram a Antônio um aspecto italiano. O templo na subida a Alfama foi reconstituído no lugar de um outro derrubado pelo famoso terremoto, mas o sítio é o local da casa em que nasceu Antônio de Lisboa que foi morrer em Pádua muito antes do terremoto. Acho que por mais que os portugueses festejem Antônio não deram sorte com a nacionalidade do santo. Quando ele atravessou o Atlântico para aportar no Brasil, embrenhou-se no sertão e foi fazer fortuna como o milagreiro casamenteiro das festas juninas. No sertão ele dança uma quadrilha de anarriê roubada da França e tem que fazer milagres escrevendo as iniciais do namorado da moça na lâmina da faca enfiada no tronco da bananeira. E lá no sertão, o santo reverenciado aqui em Portugal e na Itália, não tem toda a importância que a igreja romana lhe confere. Lá Antônio conseguiu se misturar com as lendas pagãs e é tratado como se homem comum vivo fosse. Em algumas cidades, os homens pedem licença às entidades indígenas para caçar um mastro onde será erguido o pavilhão do santo. Colocado na porta da igreja, o pavilhão é cercado por mulheres interessadas no casamento, que aproveitam a fama de Antônio para desejar um marido. Reza a lenda que quem pegar no pau do mastro do santo consegue a graça. Mas vá que não tem homem disponível para todas, principalmente nos períodos de seca, quando os varões se embora foram para São Paulo. O santo paga pela graça negada! E é submetido a castigos cruéis.  Na representação em que Antônio leva o menino Jesus no colo, a criança é retirada e só é devolvida aos braços do santo se a moça casar. Tirar o símbolo cristão dos braços do santo é como lhe negar a religiosidade, né não? Mas tem outras que se revoltam com o santo e viram a imagem de cabeça para baixo ou tentam afogá-lo numa bacia d’água ou ainda lhe emborcam com a cara na terra e colocam uma pedra em cima. E esses castigos só são aliviados se o santo atender a graça solicitada. No sertão Antônio perde tanto a nacionalidade portuguesa ou italiana para ser um vaqueiro de dentes careados, baixinho careca com um rosário de poucos cabelos em volta, levando um menino no colo ameaçando entregar para uma mãe solteira. E aí se ele não consegue um pai pro menino que está por vir – com ele anunciando na imagem – a revolta é grande e tome taca no santo. E nas festas juninas lhe arranjaram dois companheiros que foram discípulos de Jesus: Pedro, que é de 29 e João, cantado em 24. Antônio, João e Pedro passam o mês de junho nas festas de forró, enfeitadas com bandeirinhas e com fogueiras crepitando alegria na embriaguez do aluá, da pamonha, canjica e mugunzá na festa pagã de celebrar a colheita no solstício de inverno. Ironia do destino: Antônio nos trouxe as festas pagãs da Europa mudando de hemisfério para trocar o plantar por colher.  

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)             

Um comentário:

chico salles araujo disse...

Edmar, brilhante! O texto e a imagem de Lisboa. Depois vem o Climério maravilhoso, nos pedindo para deixar de ler jornais. Em seguida Geraldo, conquistador barbudo, chega apresentando uma personagem que é acidentalmente a mulher do CB. CB é um sertanejo que conheci, chamado Chico Beleza, que pela sua feiura, conquistava as mulheres mais bonitas, aqui transformado em protagonista do Leo Almeida.
Tudo muito bom demais.
Chico Salles.