domingo, 11 de junho de 2017

Quem é você?, diga logo que eu quero saber o seu jogo


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Paulo José Cunha *

Acredite: já houve um tempo no Brasil em que não se quebrava nada nas manifestações políticas. Protesto era protesto, depredação era depredação. Raramente alguém saía ferido, e as escolas não eram invadidas, oops!, invadidas não: ocupadas, para usar a expressão atual. E os estudantes não precisavam entrar em greve. Os comícios pelas “diretas já” não tiveram um ato violento. E um presidente da república foi derrubado pelos caras-pintadas da mesma forma. 

Na ditadura, militares foram reprimir uma manifestação estudantil e mataram com um tiro o secundarista Edson Luiz de Lima Souto no “Calabouço”, o bandejão dos estudantes de baixa renda do Rio de Janeiro. Torturas e mortes ocorriam aos montes, mas nas masmorras do regime. Nas manifestações, não. Tanto que a camisa ensanguentada de Edson Luiz foi carregada pelas ruas como troféu e símbolo da truculência dos gorilas, como nos referíamos aos militares que pilotaram a ditadura de 1964.

Atualmente, não há manifestação sem um quebra-quebra patrocinado pelos black blocks. No passado, ao contrário de hoje, os participantes se orgulhavam de aparecer nas fotos. Uma das mais famosas, de Evandro Teixeira, em “O Globo”, exibiu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Torquato Neto, de braços dados, na Passeata dos 100 mil, em 1968. Todos de cara limpa. Nada foi quebrado  naquela tarde.

Algo anda errado na tendência novidadeira dos black blocks que se mascaram para arrebentar estabelecimentos comerciais e bancos, de carona nos protestos legítimos contra o governo. Destroem-se placas de rua, bicicletas, banheiros químicos, pontos de ônibus. Incendeiam-se carros particulares, ônibus e lixeiras, em atos que atendem por um nome muito antigo: vandalismo. Destruição do patrimônio público em nome da defesa desse mesmo patrimônio? No mínimo, um contrassenso. No máximo, pura imbecilidade. Até porque lixeiras, placas, banheiros e pontos de ônibus são inocentes até prova em contrário...  

Não há registros, nas manifestações do passado, de gente mascarada. Sim, havia repressão policial, enfrentada com paralelepípedos ou “miguelitos”, artefatos feitos de pregos soldados entre si para furar pneus das viaturas policiais, e bolas de gude, que eram espalhadas no asfalto para desequilibrar os cavalos da tropa montada.

Nos protestos atuais, os manifestantes atribuem as depredações a grupos infiltrados. Mas não cuidam de expulsar os infiltrados. Dão a entender que aprovam a ação deles, embora de público os responsabilizem pela baderna e se eximam de responsabilidade.

O roteiro, com poucas variações, é um só: a manifestação segue tranquila até um mascarado agredir a polícia ou ameaçar invadir um prédio público. Aí os policiais reagem, às vezes exagerando na violência. Os vândalos insistem no ataque, a depredação cresce, patrimônios que não tem nada a ver com o peixe são atacados, o caos se instala. A senadora socialista Lídice da Mata (PSB-BA), revelou da tribuna ter visto na manifestação do dia 24 de maio em Brasília provocadores indo pra cima da polícia: “Agrediram até os próprios manifestantes e a polícia ficou como se não tivesse comando”, disse.

Raramente os apoiadores dos protestos reconhecem a ação deletéria dos mascarados.  Os policiais sempre são acusados de ter começado os confrontos, de atacar manifestantes desarmados, “vítimas indefesas de policiais truculentos”. Esse relato é repetido à exaustão, mesmo que se choque com a lógica mais primária: policiais, ao que se sabe, não atacam pessoas por prazer. Ao contrário, eles são treinados para proteger a população – inclusive os manifestantes - e o patrimônio público. Se agem em sentido contrário, cometem atos violentos ou irresponsáveis como o uso de armas letais, devem ser exemplarmente punidos. Simples assim.

Enquanto os organizadores das manifestações – legítimas, é bom que se insista - e os próprios manifestantes não expulsarem de suas fileiras os que se disfarçam para promover a baderna, a escalada da violência vai crescer.

Em tempo: quem não mostra a cara: 1) está mal  intencionado; 2) é o Batman; 2) é o Zorro; 3) é bandido. Por último, se estiver mascarado num baile de máscaras, 4) é carnaval.  
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*Paulo José Cunha é jornalista, professor e escritor        

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