domingo, 11 de junho de 2017

A ópera bufa de um cadáver insepulto


congresso dino

(Edmar Oliveira)

A revolta contra o governo usurpador e cheio de negociatas escusas foi à Brasília numa grande marcha pacífica pedindo “diretas já”. Aconteceu o script de sempre: anarquistas e agentes infiltrados partiram para o confronto disparando a senha de ataque à multidão pela força policial. Bombas de gás, tiros de borrachas, alguns nem tanto emborrachados, cavalaria montada e grande aparato militar atacaram, no descampado da esplanada, uma multidão indefesa, desarmada e embandeirada. Há graves feridos em hospitais e ainda não se fez o levantamento dos abatidos no massacre. Entretanto a perda material foi computada na conta de vândalos que justificaram o covarde ataque. Triste de uma gente que odeia vândalos para identificá-los com o protesto pacífico e chora o velório de vidraças quebradas.

Uma mídia hipócrita e parcial comanda a comoção com a depredação do patrimônio público, que não chega a um milímetro do rombo do desvio de recursos roubados pela quadrilha instalada no poder, nem perto das perdas que os trabalhadores terão nas reformas em pauta no congresso nacional. Quem são os vândalos?

No meio da tarde da grande marcha à Brasília, com a multidão já dispersa por uma violenta intervenção policial, um ex-comunista trapalhão ocupando o cargo de Ministro de Defesa de um governo que já acabou, anuncia que o cadáver do presidente insepulto – a pedido de um menino com problemas que preside a Câmara – assinou um decreto convocando as Forças Armadas “para a garantia da Lei e da Ordem no Distrito Federal” por uma semana.

Os personagens burlescos continuaram representando os atos da ópera bufa. As Forças Armadas, mesmo convocadas, declinaram do convite para ocupar o vazio, embora colocassem soldadinhos para garantir a segurança de uma praça de guerra já vazia. O menino mimado, apertado pela oposição, chorava que não pedira as Forças Armadas, mas a Força Nacional – expondo a descoordenação atrapalhada. Os ânimos se exaltaram no congresso mostrando a debilidade de liderança do menino chorão na Câmara e de um presidente do Senado que ameaçava encerrar a seção – único argumento que encontrava na mediocridade de quem passará em branco nos livros de história. Na turbulência por que passava o país naquele dia, eles insistiam em manter a pauta, como se nada estivesse acontecendo.

Comportamento dos que não sabem entender o movimento da história e pedem brioches na falta do pão. Enquanto a oposição se retirava em protesto na Câmara sob vaia dos que queriam seguir com a farsa, o menino irritado continuava a votar a pauta. O deputado Molon alertou: “da última vez que a oposição se retirou em protesto, quem estava sentado nesta cadeira foi deposto e preso” – tentou profetizar se referindo a Cunha, que ocupara antes a cadeira do menino Maia.

E no dia seguinte, o ex-comunista trapalhão, seguido do mudo generalzinho da véspera, anunciava, com voz solene e grave sem reconhecer o erro, a anulação do decreto, mas – incrivelmente – anunciando incorrer no mesmo erro e trapalhada se houvesse ameaças à lei e a ordem. A caneta da mãozinha trêmula do cadáver insepulto ainda ameaçava nova presepada.

O problema é que o cadáver precisa ser sepultado. Há os que desejam que ele seja empalhado no cargo para que as reformas, que tiram os direitos dos trabalhadores, sejam aprovadas. Não se sustenta o nosso El Cid burlesco. Se enterrado, teremos eleições indiretas. Se cremado, eleições diretas sem possibilidade de ressureição das trapalhadas de um governo ilegítimo. Para que se encerre de vez a ópera bufa que nos obrigaram a assistir no “intermezzo” de uma peça que tentava reconstruir a nossa democracia.

Longo intermezzo. Esperemos que não tome o lugar da democracia que queremos construir. Diretas já.
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desenho: Dino Alves

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