domingo, 14 de maio de 2017

Literatura húngara



(Geraldo Borges)


Há muitos anos atrás, no tempo eu que eu era devorador de estórias curtas, eu li e reli, não sei quantas vezes, um conto húngaro, de inefável beleza, intitulado o “Ferreiro da Catarata“ de Makszáth Cálmán que faz parte de uma  antologia,  de contos húngaros,  organizada e traduzida por Paulo Rónai, e  prefácio de Guimaraes Rosa, mesclado de bastante erudição, onde ele ministra uma aula sobre a  historia da formação cultural da Hungria.

O conto em questão trata de uma estória a respeito de um ferreiro, de mão pesada, que, por um estranho dom, sabia fazer operação de catarata. Que beleza. Fazia as criaturas de Deus voltar a enxergar. E nesses milagrosos momentos suas mãos ficavam leves como borboletas.

A sua fama correu a vizinhança da sua aldeia, chegou até a Universidade. O mundo acadêmico quis coloca-lo à prova. E arranjou um paciente para que ele o operasse dos dois olhos. Deram-lhe uma passagem de trem. Ele veio de pé. Um dos médicos reclamou por que ele tinha vindo de pé. Ele retrucou. Vou fazer a operação com as mãos. Então mãos a obra, disse o médico, tentando conter a sua curiosidade.

O ferreiro empunhou o seu canivete e começa a descascar um olho do paciente tão delicadamente como se tivesse descascando a pele de uma maçã. E os médicos olhando aparvalhados, perplexos. O caso era complicado. Mas o ferreiro saiu-se bem no primeiro olho que era até mais estragado do que o outro, mais comprometido.

Nisso, um dos médicos, querendo mostrar conhecimento cientifico, não aguentou e abriu o verbo falando sobre a organização do olho humano, a rede de seus nervos, a sua fragilidade, e o que uma operação efetuada por um leigo poderia ser uma temeridade. Esta advertência abalou o animo do ferreiro.

Mesmo assim o médico  permite que ele trabalhe no outro olho do paciente. Mas as mãos antes firmes e leves começam a tremer, como um leque travado. E o ferreiro deixa cair o seu canivete, e sentindo-se culpado desiste de continuar o seu serviço. Começa a transpirar frio com medo de encarar um órgão tão complexo.

O conto, na verdade, é escrito em forma de prefácio para a obra de um suposto autor E o narrador parece que está dizendo que a técnica não é tudo, que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia. E que não se aprende a escrever apenas com os instrumentos acadêmicos, e que o talento, o dom, e a graça não tem preço. E que é perigoso deixar de ser louvado. Hoje se promove oficinas literárias para que estudantes apreendam a escrever. Tudo bem. Não custa nada. Mas, é bom saber que os maiores escritores brasileiros foram autodidatas, e se guiaram mais pelo talento do que pela técnica.

Um comentário:

chico salles araujo disse...

Existe um ditado na área vida engenharia, que é uma carreira das ciências exatas, que diz:
"A teoria isolada vale 1 e a prática isolada vale 0. As duas juntas valem 10".