domingo, 9 de abril de 2017

é desse jeito, meu chapa! (11)

O livro em que falo dos incêndios citados aqui

(...) Concordo da intolerância ao ambiente acadêmico. Todos querem convencer ao outro antes de convencer-se a si mesmo, além do que o prestígio é medido por artigos publicado e por citação dos colegas. E é preciso mendigar a comiseração dos colegas. Nessa medida o troca-troca de favores de um dizer do nada é inerente ao fazimento de se conquistar a medida de si pela medida do outro. Quem não aguenta se aposenta e vai escrever bobagens para melhor satisfazer o ego combalido de batalhas narcísicas. É certo que os professores têm um quê de guia turístico. A primeira vez que visitei Lisboa, fui apresentado ao Aqueduto das Águas Livres como uma construção romana que resistiu ao terremoto de 1755. Por certo os romanos fizeram seus aquedutos que não foram destruídos por terremotos, mas apenas corroídos pelo tempo. O das Águas Livres foi construído por engenheiros lusitanos – talvez com algum conhecimento mouro – cujos arcos evitaram as falhas geológicas, creio que acidentalmente. Tinha apenas sete anos quando resistiu bravamente ao terremoto de Lisboa. O interessante é que a causa da sua construção não era a falta d’água em Lisboa, mas os incêndios que até hoje ameaçam a cidade nos meses quentes de verão. Entretanto, o Marquês de Pombal deu permissão a si mesmo e aos afortunados que gozavam de sua amizade para desviarem águas que foram privatizadas – no primeiro caso que se tem notícia – no século XVIII. Nas Minas Gerais a Nestlé já secou o poço de água naturalmente gasosa de São Lourenço e ameaça avançar na privatização de nosso bem mais precioso. Os poços de petróleo serão uma lembrança amena quando privatizarem os poços d’água. Quando privatizarem os rios, então terão o controle de toda vida na terra. Se os pedágios melhoram as estradas, talvez a privatização dos rios possa livrá-los da morte de uma poluição absurda. Não estaremos no planeta para assistirmos a essa etapa de um capitalismo que parece não esgotar seu apetite destrutivo. Talvez consiga destruir o planeta no seu apetite incontido. Se não conseguimos encontrar culpados, talvez possamos responsabilizar esse apetite, embora o capitalismo ainda não fosse tão gordo assim, pelos incêndios na nossa aldeia. A capital do sertão se preparava para completar cem anos e ainda era uma cidade tosca com inúmeras casas de palha e pau-a-pique, numa construção mais afeita ao nosso gentio que aos conquistadores portugueses. Oeiras, a capital com nome lusitano, ainda está de pé com seu casario colonial e ruas de pedras feita por mãos escravas controladas pelos conquistadores e feitores da conquista. Mas a nova capital foi construída às pressas, entre dois rios, no meio do século XIX. Enquanto se construía o núcleo de uma cidade inventada as choupanas se multiplicavam em maior velocidade. Às vésperas de fazer cem anos a cidade envergonhava sua elite. Pois a periferia continuava feia, com as casas de palhas muito juntas e em desalinho, deformando o traçado xadrez da planta original da cidade projetada. O contraste era enorme: o núcleo da cidade em afastamento para norte e para sul deformava-se muito antes de atingir a Avenida do Contorno que deveria limitar o perímetro urbano. Até as casas de alvenaria tinham, na sua maioria, telhados de palha e foram construídas fora dos parâmetros definidos no Código de Postura Municipal. Passando a avenida que contornava o plano central, a miséria se estabelecia quase que por completo. Uma casa e outra de alvenaria ou adobe, certamente antiga sede de alguma fazenda. No geral, os bairros eram muito feios e pobres, numa invasão constante de migrantes que escapavam da seca do sertão para a periferia da cidade grande. Então começaram os incêndios de 1943. De forma intensa e violenta. Da Vermelha à Matinha. Da Piçarra ao Cajueiro. Do Porenquanto ao Mafuá. Os incêndios comiam as casas dos bairros da periferia, mas chegou muito próximo das construções modernas que começavam a aparecer.  Às poucas construções coloniais erguidas na lembrança do Conselheiro Saraiva, juntou-se um aglomerado de casebres e choupanas que envergonhavam a elite local nos tempos do Estado Novo de Getúlio. Aproveita-se da ditadura para queimar a feia deformação gentia, muito mais propensa aquele clima de calor absurdo, que foi trocada por palacetes neoclássicos completamente indispostos ao clima. Nos meses de agosto a novembro do ano do fogo de 1943 os incêndios se espalharam no Cajueiro, Vermelha, Piçarra, Matinha, Mafuá, Barrocão, em volta do núcleo central da cidade. Ao mesmo tempo muitos “filhos de ninguém” eram feitos prisioneiros e torturados barbaramente para confessarem o autor dos incêndios, que eram descaradamente criminosos. Até um aviso, em código, era distribuído à noite nas casas que seriam incendiadas ao meio-dia. Posteriores investigações do exército acharam artefatos químicos, que seriam jogados à noite nos telhados de palha para que o incêndio começasse quando o sol ficava mais forte. Geralmente os incêndios aconteciam entre dez e quinze horas. No alto das torres de todas as igrejas ficavam vigilantes de plantão para dar o alarme quando a fumaça se fazia no horizonte denunciando um incêndio criminoso. Tinha que se culpar alguém. Os de sempre. Interessante que uma investigação federal – que inevitavelmente foi feita para tentar apurar tão proposital destruição da pobreza – nomeou os apontados como culpados, pela polícia local, como “filhos de ninguém”. A crueldade não tem limites, meu chapa! As próprias vítimas dos incêndios eram culpadas do acontecimento. Até hoje romances e poesias choram aquela tragédia que nunca foi desvendada. Certamente os nossos pais sabiam de alguma coisa, mas nunca comentaram lá em casa. Comentaram contigo? Esse fogo destruiu a nossa alma mafrense. Matamos os índios, nossos irmãos, comemos nossas irmãs para miscigenados ficarmos e tocamos fogo no nosso passado para nos esquecermos quem éramos. Por isso somos assim atormentados (...)
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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)
             

Um comentário:

menezesymorais disse...

Brilhante. Vamos reunir tudo isso no futuro, num livro? Abraço, Menezes y Morais.