domingo, 9 de abril de 2017

Charada literária

(Geraldo Borges)


Estou aqui me recordando do começo de romances, ou, melhor dizendo, do início de seu primeiro parágrafo. Porque, na verdade, só o leitor atento sabe quando o romance começa, quando o conflito acelera o enredo.  E me proponho a montar uma crônica com citações desses começos. Vamos lá. Para aguçar a curiosidade do leitor, esse bicho que está num processo de extinção, colocarei os nomes dos autores dos livros citados, somente no final dessa leitura. Vamos a primeira citação. Começamos com um escritor russo, de antes da revolução bolchevique. Não digo mais nada. Paciência. Ele diz. Abrindo o seu monumental romance.
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada qual a sua maneira. ”
Vê se que o enredo do romance é um conflito familiar.

Aqui eu salto para o novo mundo, para o Brasil, o autor é carioca e bastante conhecido. Acredito que qualquer leitor universitário que goste de literatura sabe o seu nome. E só prestar atenção em seu estilo, solene, e, ao mesmo tempo, simples.
“Rubião fitava a enseada, - eram cinco horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa do Botafogo cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, na verdade, vos digo que pensava em outra causa. Cotejava o passado com o presente. Que era há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Tunis que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde a chinela até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade...”
Resolvi estender um pouco mais o parágrafo para dar mais oportunidade ao leitor. Mais uma dica. A maioria dos personagens desse autor subiam a serra.

Mas, voltemos ao velho mundo, com um dos pilares do romance moderno.
”Num lugar de La Manha de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor. ”
Não é possível que o leitor nunca tenha lido esse romance mesmo resumido e adaptado, com belas ilustrações de Gustave Doré. Seu personagem principal faz uma viagem através da imaginação. E um livro que tanto agrada aos adultos como as crianças. Com certeza o leitor já disse bingo.

Mas retornemos ao novo mundo. E citemos uma mulher, grande romancista brasileira, que veio de um mundo antigo, cheio e magia e tem um estilo bastante original.
“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou”.
Os leitores dessa escritora jamais a esquecerão. Vou dar uma dica. Ela é uma estrela.

De novo no velho mundo. Cito autores europeus porque eles nos deram o legado de sua cultura. O autor citado é um dos grandes romancistas do império britânico, considerado o Balzac da língua Inglesa. Nossos grandes autores se alimentaram da literatura francesa, inglesa e russa.
”Se fui o herói de minha própria história ou se a outros deve caber este título, eis o que mostrarão estas páginas. Para começar pelo inicio de minha vida, direi que nasci (pelo menos assim me informaram e eu acredito) numa sexta-feira à meia noite. Digno de nota foi o fato de o relógio principiar a bater e eu começar a gritar exatamente no mesmo momento”.

Material para levar esta crônica em frente é o que não falta. Mas, para terminar, vamos voltar para o novo mundo. Desta vez os EUA, grande celeiro de magníficos escritores que tão bem sabem retratar na ficção, a realidade, os conflitos da sociedade americana. Vejamos um exemplo:
”Em meus anos mais juvenis e vulneráveis meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
- Sempre que você  tiver vontade de criticar alguém – disse me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens que você desfrutou.”

Só lendo o romance para compreender a profundidade desse conceito. Quantos aos colaboradores dessa crônica assinam Leon Tolstoi, Machado de Assis, Cervantes, Clarice Lispector, Charles Dickens,  F.  Scott Fitzgerald.

Parece que me esqueci   de citar um autor Francês. Citarei um dos meus prediletos.
“Durante meio século os burgueses de Pont L’EVÊQUE invejaram a sra. Aubain por sua criada Felicidade”. 

O texto trata   da abertura do conto - Um Coração Simples, de Gustave Flaubert que traduzido para a língua portuguesa de Portugal tomou o nome de – Um Coração Singelo. Para finalizar vai aqui o nome das romances de onde foram tiradas as respectivas aberturas: Ana Karenina, Quincas Borba, Dom Quixote, A hora da Estrela, David Copperfield, O Grande Gatsby. Aos leitores que acertaram pelo menos uma questão meus parabéns, aos que não acertaram nada, obrigado pela leitura do nosso texto. Pois o melhor da memória é ter a capacidade de esquecer.







Nenhum comentário: