domingo, 12 de março de 2017

O homem de lama


 Resultado de imagem para o homem de lama


(Geraldo Borges)

Começou comendo o cheiro da chuva. Choveu muito. Depois que a chuva parou, sua casa caiu, feita um velho barco entornado Ele olhou a paisagem diluviana e viu apenas desolação. Antigamente chovia uma chuva parideira e remoçava a aterra virgem e se comia frutas, cereais e legumes. Agora só se come o seu cheiro indigesto. E, às vezes, o arco íris desbotado. O homem começou então a comer barro molhado e exatamente o de sua casa, o casco de seu navio, que havia naufragado desmoronado na encosta do morro.

Começou a gostar do sal da terra, e do sol que foi aparecendo para dar um pouco de consistência ao barro. Facilitava o seu almoço. Era só o que estava comendo. Comeu. Devorou o resto de sua casa, seus pequenos despojos: as paredes, o teto, as telhas, que pareciam grandes biscoitos. Depois passou para as casas arruinadas dos vizinhos, que tinha ido para os abrigos do governo, e entravam em fila para receber uma ração de sobrevivência A terra enlameada era a sua salvação. Tinha impressão que no seu estomago iam brotar vegetais e clorofila, e ele ia ter uma linda roça para cultivar. Estava ficando famoso pela sua fome de terra. E como era grande o entulho da cidade proveniente das chuvas ele foi eleito para substituir um velho guindaste que tirava terra do pé das encostas onde as casas empenadas haviam desmoronado. Com suas fileiras de dentes afiados e sua língua de lixa ele deixou tudo limpo para futuras novas edificações.

Depois deram-lhe uma aposentadoria precoce. Não demorou muito ele morreu enferrujado, com gosto de azinhavre na boca, sonhando com o cheiro do barro molhado, com um vulcão de minerais fervendo em seu estômago.

Um dia um prefeito resolveu homenagear as vitimas das enchentes. E se lembrou desta história. E então mandou erguer para o personagem uma estátua de barro que se dissolveu no primeiro e rigoroso inverno que caiu sobre a cidade.

Nenhum comentário: