domingo, 12 de março de 2017

É desse jeito, meu chapa! (9)


Abraão e Padre Cícero. No desenho, Nasrudin ou Pedro Malasartes

Mas o que posso te afirmar é que esse vazio existencial talvez seja melhor do que entender o que estamos conversando aqui porque é um vazio também vazio de qualquer dilema. (...) Veja tua opção, se me entendes. Deixa eu olhar para os rastros que fizestes por essa vida. Como já disse, a opção da participação direta na política foi declinada pela militância na tua área. E ainda tivestes a sorte de conhecer a psiquiatra rebelde que pelo menor contato que seja pode interferir no modo de cada um de olhar o mundo. Coisas de gênios da raça que passam aqui na terra uma vez por outra feito um cometa. Construístes um trabalho razoável em tua passagem pelo mesmo hospital que internou o poeta triste. Escrevestes alguns apontamentos sobre a travessia, mas o que sobraram além dos teus escritos? Um retorno ao ranger da roda da história que a todos tritura no seu contínuo rodar feito uma espiral rumo ao futuro, indo sempre em frente, mas retornando às vezes para ganhar impulso. É da história. Estás em paz com tua consciência, penso eu, mesmo tendo que contar dinheiro para fazer essas viagens na geografia da terra e na reflexão junto ao espelho do mundo, porque sem ela a vida nos seria um inferno. Mas valeu a pena? Arisco afirmar que o que valeu a pena foi o inconformar de se mexer nessa vida para provar para si mesmo que não é um molusco na casca da concha. Mas se o molusco for feliz, devemos supor que os nossos colegas a quem criticamos assim ideologicamente devem ficar quietos nas suas opções para a felicidade. Gastam a vida em construir a pérola para adornar a existência dos seus descendentes e o que eles fazem com ela não é da nossa conta. Recuso-me a ser molusco, mas não devo incomodar a quem quer ser. A felicidade não se pode medir. Talvez a nossa felicidade seja medida em angústias. O que seria insuportável a eles, já pensastes nisso? Vamos pedir desculpas e aqui fazer um brinde aos felizes moluscos enclausurados na concha onde tecem a pérola de suas existências. Ficou bonito?, brindemos! É o cinismo quem nos salva das culpas cristãs arábicas, que para o sertão não foram judeus. Salvo os cristãos novos que aqui faziam linguiça de farinha pra disfarçar que não comiam porco e lá no sertão perderam a culinária e a fé misturadas a um cristianismo baseado no velho testamento e colocando os nomes dos profetas hebreus nos filhos que nasciam. Alguns praticantes sem medo fundaram uma sinagoga no Recife, durante a tolerância religiosa dos holandeses. Ali perto do Marco Zero do Recife pode ser visitada as ruínas de uma sinagoga que atesta a passagem da civilização judaica pelo Nordeste. Pena que a intolerância portuguesa tenha expulsado os judeus, depois que venceram os holandeses. E expulsos, esse punhado judaico numa nave qual argonautas deram os costados na ilha de Manhattan fundando New York. É desse jeito aqui abaixo do equador, meu chapa! Nova Iorque podia ser o Recife e os portugueses expulsaram os judeus que a criaram. Assim o sertão foi entregue aos árabes, desde aquele que enrolou o padre Cícero dizendo que vinha da terra de Nosso Senhor e virou secretário do milagreiro. Antes de revelar no celuloide o Lampião para o mundo, Benjamim Abraão foi secretário do padre Cícero e ganhou dinheiro vendendo santinhos do padre em vida, agendando milagres e depois do padre morto vendeu mechas do cabelo do defunto que dava pra compor mais dez cabeleiras de Rapunzel. Fez sucesso também no Nordeste, uma fotografia “aérea” – tirada da torre da igreja de Juazeiro – do imenso cotejo do enterro do padre, iniciando aí as romarias que até hoje chegam ao Juazeiro. A esperteza do árabe, talvez tenha transformado Narusdin em Pedro Malasartes, que já chegou da península ibérica com esse nome e Ariano Suassuna transformou no João Grilo do Auto da Compadecida. É esse ingênuo esperto que compõe a nossa alma nordestina, a nossa herança moura, protegida por Alá e São Cipriano, que mais fortes são os poderes de Deus quanto temo as artimanhas do maligno. Mas somos cínicos também, mesmo temendo os poderes de Satanás vendemos a nossa alma, na esperança de enrolar o tinhoso como o árabe enrolou o padre (...) 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

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