domingo, 12 de fevereiro de 2017

é desse jeito, meu chapa! (8)


desenho: Amaral


Ou esses portugueses não têm senso de humor ou nós somos uns incorrigíveis deformadores dos fatos ou a história não tem seriedade abaixo da linha do Equador (...) Se for como a água no ralo que cá se esvazia anti-horário e abaixo do equador no sentido dos ponteiros do relógio, trocamos os sinais abaixo do equador. Ou as fases da lua. Aqui o que vemos minguante é crescente e o crescente lá do sul mingua nas bandas de cá. Atravessando o equador o mundo vira de ponta cabeça. Não se pode levar a sério uma democracia recomeçar com uma eleição indireta no agrado dos militares, a esperança mesmo assim ser morta por uma diverticulite que encheu de merda infectada o esperançoso e se deixar assumir um vice que sempre foi a cara civil da ditadura. E não pode ser séria que na primeira eleição direta o eleito pela manipulação de uma mídia distorcida seja impedido pelas ruas que descobriram tarde que votaram errado. Não pode ser sério que um vice renegue a eleição que o levou ao poder e faça uma reforma econômica entre a volta do fusca e uma moça sem calcinha no sambódromo. Não tem qualquer seriedade a nossa socialdemocracia ser apenas a direita liberal disfarçada e a nossa esquerda dormir com o inimigo num governo de coalizão para ser derrubada pelos aliados que retornam o país para os tempos da ditadura militar. Parece que estamos como começamos e tudo que parecia termos andado retorna ao começo de sempre na desesperança de quando éramos jovens. É desse jeito, meu chapa! Repara que toda a nossa luta por uma reforma sanitária na saúde e a construção de um sistema único de saúde pública, alentadora porque efetiva – tosca pelos recursos sempre ineficientes, deu com os costados n’água quando caminhamos para a aposentadoria. É duro perder a luta de toda uma vida, não concordas? Porque cada um faz a política no campo em que escolhe dedicar a vida. Os que tem sorte de conjugar a sobrevivência com a militância política somos poucos. Lembra-te de nossos colegas da aldeia quando nos encontram perguntam se estamos bem de vida? Bem de vida lá no significado deles é dinheiro traduzido no significante bens de consumo para além do que podem consumir, não te parece? Carros dos últimos tipos, mansões de recantos desconhecidos, casas na praia, sítio no sertão, bois no pasto, conta bancária recheada para tornar os filhos herdeiros de uma geração imbecilizada que darão conta de destruir todo esse patrimônio amealhado. Meu compadre A morreu sem sair do país nem para uma ida com os filhos na Disneylândia, passar o ano novo na Argentina ou uma viagem à Terra Santa com aquele padre que corteja os ricos na terra prometendo o reino dos céus. Também não têm um livro na estante, não gostam de cinema ou teatro – essa coisa de viado, ou têm uma conversa edificante, afora saber da profissão todas as formas de multiplicar empregos para acumular os ofícios públicos em que não vão e a clínica privada em que devotam o seu saber a quem mais pode pagar, que essa é a única forma de edificar uma vida que conhecem. Escravizados a esse mal ofício, poucas folgas têm para encher o rabo de panelada e mão de vaca – aquele sabor da infância pobre que permanece nos novos ricos; beber cachaça que já matou os melhores inconformados com o que não sabem o quê; pegar as meninas pobres da periferia; ir ao Rio, São Paulo ou Brasília para fazer a mesma coisa, salve trocar a panelada e a mão de vaca por picanha e pizza – moda que já chegou aos restaurantes de lá e as meninas pobres pelas piranhas, quando não, travestis. Eu fiquei e não entrei nessa roda da fortuna pelos interesses que tu conheces, mas que para eles é apenas uma depravação de exercer minha liberdade sexual sem me importar com o que essa elite de nossa classe ache ou diga. Já afirmei, para o desespero de alguns, que tudo que falam de mim é verdade, meu chapa, assim eles quebram a cara e murcham a maldade com que queriam fazer fuxico com a vida dos outros. Mas o que posso te afirmar é que esse vazio existencial talvez seja melhor do que entender o que estamos conversando aqui porque é um vazio também vazio de qualquer dilema (...)
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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

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