domingo, 29 de janeiro de 2017

é desse jeito, meu chapa (7)

Pedro IV imponente num cartão postal antigo do Porto. No detalhe: Pedro I e Domitília

(...) Só não me fale de política, que é uma coisa que eu não tenho o menor interesse. O vate de Lisboa, aquele da estátua no Chiado, na pele de Álvaro de Campos já disse tudo o que eu desejava dizer. Ele disse ontem, mas serve pra hoje e amanhã. Lembras que recitávamos nas pessoas a pessoa do Fernando? Posso ativar tua memória recitando o que o nosso Baiano dizia com uma entonação dramática: “Fora tu, /  reles /  esnobe /  plebeu /  E fora tu, imperialista das sucatas /  Charlatão da sinceridade /  e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro // Ultimatum a todos eles / E a todos que sejam como eles /  Todos! // Monte de tijolos com pretensões a casa /  Inútil luxo, megalomania triunfante /  E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral /  Que nem te queria descobrir // Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular / Que confundis tudo /  Vós, anarquistas deveras sinceros /  Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores /  Para quererem deixar de trabalhar / Sim, todos vós que representais o mundo / Homens altos /  Passai por baixo do meu desprezo /  Passai aristocratas de tanga de ouro /  Passai Frouxos /  Passai radicais do pouco /  Quem acredita neles? / Mandem tudo isso para casa /  Descascar batatas simbólicas // Fechem-me tudo isso a chave /  E deitem a chave fora /  Sufoco de ter só isso a minha volta /  Deixem-me respirar /  Abram todas as janelas /  Abram mais janelas /  Do que todas as janelas que há no mundo //  Nenhuma ideia grande /  Nenhuma corrente política /  Que soe a uma ideia grão /  E o mundo quer a inteligência nova /  A sensibilidade nova / O mundo tem sede de que se crie /  Porque aí está apodrecer a vida /  Quando muito é estrume para o futuro /  O que aí está não pode durar /  Porque não é nada //  Eu da raça dos navegadores /  Afirmo que não pode durar /  Eu da raça dos descobridores / desprezo o que seja menos /  Que descobrir um novo mundo //  Proclamo isso bem alto /  Braços erguidos / Fitando o Atlântico // E saudando abstractamente o infinito”. N tomou fôlego após tomar emprestado a entonação de nosso falecido amigo – que até esqueceu o próprio nome para se chamar Baiano – e sorveu do vinho, molhando a boca para estalar a língua. É isso, meu chapa. Os mandarins do mundo se cagam todos diante desse poema. E nós somos apenas uma pilhéria do Cabral com os nossos trabalhadores que tomaram o poder para deixar de trabalhar. Só acho que o estrume para o futuro do poeta ainda não germinou nada. Continuamos sendo o estrume fétido esperando a vida brotar de uma merda que parece estéril. Nem pra isso serve a merda em que transformamos esse mundo, podemos proclamar de braços erguidos, fitando o Atlântico ali na foz e saudando esse infinito que talvez nunca saia da merda cantada pelo poeta. É que a herança dos navegantes fez a soberba dos portugueses que procurando o rabo do gato acharam o gato e ficaram sabendo que eles eram tão somente o rabo, compreendeste? Mas um rabo que impôs o equilíbrio no gato. E que puderam ser retirados para fazer o governo do império na colônia. Nosso Pedro I, que nos independeu da corte brigando com o pai, teve que vir aqui dar uns cascudos no seu irmão Miguel, entrando pelo Porto, aqui onde nos encontramos. Ficou conhecido como o príncipe soldado e de tanto guerrear pelas ideias liberais contra os absolutistas daqui e de Castela ficou tuberculoso e morreu jovem. O coração do Pedro IV, a ordem de sua numeração aqui, está guardado ali na igreja da Lapa, mesmo que seu corpo tenha sido devolvido ao Brasil em 1979. Os tripeiros têm boa lembrança dele e aqui ele não tem a fama de raparigueiro que ganhou entre nós por seus casos com as moças de vida nada fácil. E por falar nisso não chame ninguém aqui de moça que significa vagabunda. Pode chamar de rapariga que pra nós significa puta. Uma questão de troca entre os dois costumes: a moça deles é rapariga pra nós e a nossa rapariga é a moça deles. E não volte pra nossa aldeia chamando alguém de rapariga. Pois bem, o Pedro daqui já não era o menino raparigueiro que nós lembramos. O soldado guerreiro tem outra reputação em Portugal, no Porto, então, seu coração é guardado como o de um santo na igreja da Lapa. Nem parecem a mesma pessoa. Não teve Domitila aqui no Porto, pelo menos que os tripeiros lembrem. No Rossio ele está acima num pedestal imponente de quase trinta metros de altura. E os brasileiros se espantam com aquele quarto Pedro que foi antes o nosso primeiro, no meio da praça onde os pombos cagam branco no bronze tornado preto e cagam preto na parte embranquecida do pedestal. Mas antes ele foi homenageado aqui no Porto na praça da Liberdade, onde traz nas mãos a constituição portuguesa que ele outorgou e as rédeas do cavalo como garbosamente teria entrado no Porto, retratado numa plaquinha de bronze no pedestal. Noutra placa temos a entrega do coração do monarca liberal a esta cidade de tripeiros, onde fez das tripas coração para novamente unir o reino de Portugal. E lá no Brasil ele é mais lembrado pelo túnel que cavou da Igreja da Glória para a casa de Maria Benedita, Marquesa de Sorocaba e irmã de Domitila. Também pegava a Benedita escondido da Domitila e teve uma filha com ela, reconhecida em testamento. Comia a amante durante a missa escondido pela proteção divina. Enviuvado enjoou das amantes e aqui chegou com Amélia de Leuchtenberg e posa de monarca liberal, bom soldado, mas nós o bem sabemos ser bom moço no sentido que cá se usa. Se lá ele foi um dos que passaram por baixo do nosso desprezo – fazendo a poesia do vate valer para antes de composta – cá eles o tem como um altaneiro monarca esclarecido que doou seu coração a pátria amada, o mesmo coração que a Marquesa de Santos não conseguiu ter para si e que a mandou de volta a São Paulo após a morte de Maria Leopoldina que ficou esquecida apodrecendo frente ao canal do mangue. Talvez por isso São Paulo não goste do quadro de Pedro Américo e fuxiquem pelas esquinas do Bexiga que Pedro primeiro montava uma mula e se cagou nas margens do Ipiranga quando gritou a nossa independência com dor de barriga depois de ter comido um virado e tomado um fogo também paulista. Hoje o riacho Ipiranga atravessa o bairro do mesmo nome pra desaguar já cheio de merda no Tamanduateí, rio que vai inundar o Tietê com mais bosta. Mas os paulistas juram que quem primeiro cagou nos rios da cidade foi Pedro I. E cá o Douro com esse esverdeado encrespado cheio de douradas – que tu bem devias pedir uma assada na brasa para sentir o que é ter um rio há mais de dez séculos sem a poluição que nos é tão costumeira. Ainda dá pra sentir o Pedro IV desembarcando no cais da Ribeira para reivindicar o trono que o irmão Miguel tinha usurpado, mesmo tendo casado com a herdeira sobrinha filha do Pedro. Me intriga como a história aqui é séria e a nossa completamente debochada, até quando os personagens são os mesmos. Aqui dizem que a esperteza de João VI deixou os franceses a ver navios quando tomaram Portugal. Lá nós o achamos corno, engordando comendo frango e limpando as mãos na suja roupa, com a cabeça cheia de piolhos e Carlota Joaquina mandando e fodendo na corte. Dá pra acreditar? Não é o monarca esperto que fugiu pra governar de longe e não perder o trono. E ainda fez do filho Pedro monarca de dois reinos. Ou esses portugueses não têm senso de humor ou nós somos uns incorrigíveis deformadores dos fatos ou a história não tem seriedade abaixo da linha do Equador(...) 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

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