domingo, 15 de janeiro de 2017

é desse jeito, meu chapa (6)




Mas vocês que foram para o Rio de Janeiro também não encontraram pote de ouro algum. Lá o arco-íris bebe água poluída na baia de Guanabara para cagar balas nas comunidades do subúrbio. Houve um tempo que o Rio parecia uma Paris sofisticada na rua do Ouvidor, no bulevar da Rio Branco imitando Haussmann que abriu grandes avenidas para higienizar as insalubres ruelas da Paris que trazia os miasmas da peste da idade média. Lima Barreto passeava às tardes nessa imitação parisiense até ficar bêbado e não conseguir voltar para Todos os Santos. Mas a embriaguez não lhe tirou a perspicácia de mostrar nos seus escritos a alma carioca que transitava nesse cenário de mentira. Houve uma época também em que a burguesia se enganou e procurou terrenos na linha do trem que desbravava o sertão carioca. Iam em busca de ar puro até a percepção de que o litoral era mais propício a forma carioca de viver adquirida na exploração do cabaré de madame Mère Louise em Copacabana no mesmo lugar que depois foi construído o Cassino Atlântico até ser fechado pela mulher do Dutra. Mas aí Copacabana já era a Princesinha do Mar e a burguesia já tomava banho na praia que ficou conhecida como a maior diversão do carioca em dia de sol. À noite o teatro de revista com suas vedetes e seus artistas evoluíam do Copacabana Palace ao Vogue, até a boate pegar fogo num incêndio no meio da tarde para uma crônica de Antônio Maria, habitué e hóspede do Barão von Stuckart. A Princesa Isabel ficou mais larga e Copacabana mais triste com o fim de uma era de glamour de verdadeiros ricos que não trabalhavam para apreciar o árduo trabalho dos profissionais notívagos do samba canção. Vozeirões que se perdem para pequenas vozes nos apartamentos e nos recitais da bossa nova. Mas aí já é outra história e esses anos dourados de um Rio de Janeiro em preto e branco vocês não viveram. No samba canção das boates, Jorginho Guinle calculou malgastar sua fortuna pelo tempo que viveu. Viveu mais do combinado com o destino e morreu pobre. Mas enquanto foi rico não precisou trabalhar para prometer as melhores noites ao Rio. Jango participou daquela esbórnia dourada carioca presenteando amantes com apartamentos e casas de espetáculos por um encontro às escuras num rendez-vous. Preferia comer as garotas do Carlos Machado do que apreciar a bela Teresa que o serviria de adorno no comício da Central passando a imagem de termos tido a mais bonita primeira dama de um sonho infantil do comunismo. Mas antes disso vivemos um tempo pensando que os anos dourados não acabariam. As revistas traziam propagandas coloridas de enceradeiras, liquidificadores, panelas de pressão, vitrolas de alta fidelidade e televisores que prometiam nos levar ao American Way of Life no Terceiro Mundo. O Gordini, a Rural, o Aero-Willys mudaram a paisagem das cidades concorrendo com os carros importados que a classe média não podia comprar. O pic-nic com toalha xadrez e cestinha de vime com sanduiche e refrigerante só era atrapalhado pelas saúvas e pouca saúde que os males do Brasil são – como gritava Macunaíma. Mas os anos dourados vividos pelos cariocas e vendidos como ilusão aos demais pontos do país acabaram com a inauguração de Brasília no sonho de Juscelino. Com o poder foi embora o dinheiro fácil que alimentava os ricos que sempre viveram na sombra do estado, que tem de ser mínimo para que só a eles comportem. Mas quando vocês chegaram ao sul maravilha, embora acreditassem, essa época era só de ouvir falar. O golpe que ajudou destruir tanto a esquerda – que apreciava, quanto a direita – que vivenciava tal tempo, já tinha endurecido e mandado os opositores para o porão. Talvez alguns de vocês estejam vivos por terem perdido o bonde que desejaram, entendes, meu chapa? Nós somos da geração que resistiu ao golpe e também não fizemos resistência consequente por um fosso espacial entre o sertão e a província, entre o norte e o sul, entre um chegar e um já morar no lugar. Porque o espaço aqui é tempo, concordas, meu chapa? O tempo que alarga a distância do conhecimento, da informação, da participação. Uma distância temporal que esmaece a fotografia de tentarmos pertencer a um lugar em que não estávamos. Como se o teletransportador de nossa Enterprise não funcionasse direito para que a nossa jornada nas estrelas não acontecesse. E é dessa distância entre o presente e o nosso passado que quero falar consigo hoje. Foi preciso que o acaso nos colocasse em outro continente para que a distância fosse entendida na sua dimensão. Um lugar muito longe, mas que contivesse o nosso passado ancestral, estás a entender? É cá do Porto, nesse céu cinzento da Ribeira, que se debruça ao Douro que quero te falar do que é tão longe que nem parece ter acontecido. A Torre Eiffel não me disse nada, mas ela aqui esparramada de um lado a outro do Douro, como uma passagem entre margens, ela me diz da nossa ponte metálica que se debruça sobre o Parnaíba numa tarde de sol. Mas não é só porque não queremos lembrar e nisso tens razão. Nós destruímos nosso passado e assim somos atingidos nas lembranças. Já vistes que fizeram uma ponte nova, cheia de estaias como asas ao céu e um miradouro para que observemos como nosso passado é pequeno, como nossa cidade foi reconstruída do outro lado do rio, os prédios brotam da terra para fazer a cidade velha ser pequena, insignificante, desbotada, como se não tivesse existido? A ponte metálica, colocada lá depois de mais de cinquenta anos que essa daqui, está desaparecendo, sem conservação, como se fosse desmoronar com o nosso passado. Essa aqui de tão viçosa parece mais nova e de uma função vital para a vida da cidade. Lá nós abandonamos a ponte e a vida da cidade para construirmos uma outra que não tem nenhuma relação com a cidade que conhecemos. Aqui no Porto dez séculos te contemplam carregados de toda a história de Portugal. Nossa aldeia nem bem fez um século e meio e já quase não há sombra de sua pouca história. Não é doloroso? Quando a nossa geração veio ao mundo a nossa aldeia tinha preparado a festa do seu primeiro centenário. Na pressa da modernidade tocou fogo nas velhas casas de palhas – herança do nosso gentio – para construir palacetes modernos de influência árabe. Se os minaretes não tinham a serventia da antiga função da torre, servia para aplainar o calor. E nos orgulhamos do Palácio de Karnak, do casario da Frei Serafim. E era assim quando vocês saíram de lá. Não quero contar a destruição dessas construções para escritórios modernos, quando não estacionamentos para que os habitantes da cidade nova viessem aos escritórios do poder público – só o que lá ficou – em seus carros com ar condicionado. A cidade mudou para o outro lado do rio nas assas da ponte estaiada. A cidade antiga foi abandonada e com o nosso passado se perde na indefinição de uma fotografia que se desbota quanto mais se olhar querendo fixar o que não se pode deter numa imagem que se apaga inexoravelmente. As portas se fecharam com medo de uma violência imaginária, quando nos roubamos a nós mesmos os encontros nas calçadas em cadeiras indolentes contando histórias de ontem quando a televisão ainda não tinha ascendido a luz mágica de um tubo de ilusões. Pela fresta da lembrança ainda é possível ver o que os olhos não podem mais dizer que existem essas lembranças de um dia que existiu. Talvez mais difuso seja enxergar uma cerca de paus entrançados que cerca um território de imagens que ainda pensamos existir dentro de nós. Talvez as águas de nosso rio, que nos banhou no tempo em que eram caudalosas e tínhamos medo da pororoca que podia nos tragar a vida, hoje não tenham lembrança de sua força que foi perdida nos assoreamentos de seu leito, que hoje tem preguiça em correr. Tinha vento em maio, lembras? O poeta até escreveu uma canção saudando a visita deste lindo ausente. Era o tempo que empinávamos papagaios e das cheganças do que vinha de muito longe para as notícias alvissareiras: “Desapeie dessa tristeza / Que eu lhe dou de garantia / A certeza mais segura / Que mais dia, / Menos dia / No peito de todo mundo / Vai bater a alegria”. Depois do maio éramos marginais, “eu brasileiro confesso minha culpa meu pecado, meu sonho desesperado, meu bem guardado segredo, minha aflição”. E todo mundo deu de sair da aldeia como se a fugir de um destino marcado, sem lembrar que ele vem é grudado no umbigo, tatuado na pele para que a nossa aldeia não saia de nós onde quer que nos escondamos. Nem aqui do outro lado do Atlântico escapamos de lembrar dela, a nossa mãe comum, a capital do sertão. E cada um de nós tem a sua particular de onde os caminhos ressecados do sertão ou os caminhos das águas do rios nos trouxeram num vapor que não navega mais no mar ou num Chevrolet cortado ao meio para fazer uma cabine maior de passageiros. Eu vejo um menino numa rede no convés do barco a vapor que apitava na curva do rio e deixava um rastro de fumaça da lenha queimada nas suas caldeiras de ferro fundido fabricado na Inglaterra e montado na foz do rio para galgar o sertão a dentro entre palmeiras e carnaubais ou buritizeiros das margens daquela estrada onde navegava a ilusão. Ou talvez veja o menino na carroceria do Chevrolet entre as bagagens de uma mudança brusca de uma família que cansada da seca jogou a mobília velha de qualquer jeito para que a sorte deixasse que ela de novo fosse tentada na capital pra onde o caminhão em disparada naquela estrada de terra fazia poeira e pulava na buraqueira tentando levar os náufragos da seca para a cidade das ilusões. Cada um de nós deixou seu passado mais perdido lá dentro no fundo do sertão para tentar a sorte na cidade grande em que a luz elétrica brilhava pra lá da estaca zero confundindo o destino que se queria tomar. O poeta de Angical já disse que “toda vereda de roça vai descambar na cidade”.  E eu acho que vejo um menino no roçado, ainda sem forças para o cabo da enxada, tentando espichar o olho de vontade de navegar no vapor que passava ao largo esfumaçando o céu ou subir na boleia daquele Chevrolet cortado no meio para levar passageiros buzinar na estrada de terra deixando um rabo de poeira levantada que custava assentar. Os sonhos são feitos de poeira ou se esfumaçam no céu azul, mas um dia a vontade foi maior que o sonho e o menino arribou para descambar na cidade da iluminação elétrica que apagava as estrelas do céu. Se fizer um dia de sol bonito aqui no Porto assunta que as nuvens de algodão sem gota d’água se parecem com o algodão do sertão que brota no céu, mas nunca se enche d’água pra chover. Aqui, na maioria das vezes, os algodões do céu enchem d’agua e se desmancham em chuva. Lá, quase nunca. Mas num momento hão de parecer iguais e é nesse instante que a nossa aldeia nos assalta o peito de saudade do que fomos. Porque só se tem saudade do que se viveu e nem me pergunta se é bom o ruim o vivido que isso não tem a menor importância. Como é que se pode ter saudade de uma terra que se esturrica, o verde fica cinza, o mandacaru e o xique-xique e a macambira e o velame e o veleiro e o facheiro e a coroa de frade, todos eles eriçados em duros e grandes espinhos fazem inóspita e colérica e insultuosa e adversa e hostil e crua e hostil terra em que nascemos? Mas se é esse o lugar que habitamos é dele que temos saudade, me entendes? Porque saudade é que nem cu, cada um tem o seu e a sua, compreendeu? Pode mandar abrir mais uma garrafa de vinho que aqui no Porto nenhum é marromeno como se diz no nosso dialeto de comer a metade das palavras, carregar nos erres e não usar do plural, que tudo pra nós é singular. 




______________________________


Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

Nenhum comentário: