domingo, 30 de outubro de 2016

É desse jeito, meu chapa!




É desse jeito, meu chapa!, me disse N, não sei porque fomos nos encontrar aqui sob esse céu cinzento do Porto. Fosse em Lisboa, a luminosidade do céu deixaria o que temos a dizer mais clarificado. Sinta o cheiro no ar. Não da cozinha dessas iguarias portuguesas, mas do rio. O Douro corre manso e emana um cheiro de passado, como se essas embarcações, que agora carregam turistas, ainda transportassem os velhos barris do bom vinho do Porto para a exportação lá na foz. Essa mistura do cheiro da uva, da embriaguez do que podemos beber aqui nesta mesa e o correr do rio manso, na sua passagem airosa nos transportam aos campos dos parreirais com as raparigas portuguesas na colheita para que os rapazes usassem os pés no amassar das uvas. Mesmo o Tejo não tem o cheiro da podridão dos rios da nossa aldeia. As raparigas de lá carregam o significado de putas que a pobreza trouxe às beiras dos rios. Das lavadeiras que contaminavam os peixes com a sujeira que os antigos senhores mandavam jogar no rio. Os nossos rios deste muito tempo são alimentados com a podridão do mundo. Por isso fedem. Com muito mais gente ao longo da história nas suas margens, o Douro não tem o cheiro da novíssima e já banguela – no dizer de Levi Strauss – Baía de Guanabara, nem do insuportável odor do Tietê ou do Pinheiros. Dá pra imaginar os canais de Amsterdam com o cheiro do Canal do Mangue?  Alguma coisa tá errada nos trópicos, disse N, e eu penso que é o aproximar-se do sol com seu calor exagerado. Tanto calor que nos deixa melancólicos. Mas só porque vestimos as roupas dos portugueses, meu chapa! O índio não tinha essa crosta de sujeira que o português adquiriu nos trópicos pelo calor excessivo nas suas roupas da corte e o hábito de não tomar banho. Foi o índio quem ensinou ao português que o mar servia para tomar banho, desde que eles tirassem a roupa. Foi a negra que deitou o português na rede da índia para que a nossa raça surgisse dessa cópula tropical. Mas além de comer a nossa índia e a negra que eles trouxeram de África para que nascêssemos, eles nos roubaram ainda meninos. Todo o ouro que eles tiraram dos nossos rios de nossas minas trouxeram para que Portugal pudesse viver do saque por todo o período colonial e nós, que tínhamos a riqueza, ficássemos cada dia mais pobres. Mas é curioso que quando Napoleão botou pra correr o D. João e sua corte, os brasis continuaram sendo roubados para sustentar o pedaço de Portugal que chegou. E eles fizeram a nossa independência, vieram embora e o nosso imperador segundo tentou fazer uma nação do que nos restava, mas foi golpeado por um exército que nada tinha de republicano. Engraçado, o nosso imperador era mais republicano do que Deodoro. Se Pedro II aboliu a escravidão a república continuou escravista e o Lima Barreto sofreu essa contradição na pele negra e mofou no hospício porque bebia. E só Leminski entendeu em Curitiba porque o Lima bebia: não era por vício, mas por legítima defesa. Assim como tenho feito durante toda a vida. São tantas as contradições que é insuportável viver sóbrio. Toda a sujeira do mundo foi jogada abaixo da linha do equador. E a gente que vem lá da aldeia filha do sol do equador? O preconceito dos nossos irmãos do Sul, onde você escolheu morar, com a nossa aldeia é de matar, tá sabendo, meu chapa? Dizem que somos o cu do mundo. Outro o dia um cronista da terra tomou os versos de Adélia Prado para concordar que cu é lindo. E se em sendo cu, somos a terra mais linda que existe. Não é bacana? Os cus do Judas que o português Lobo Antunes fala é Angola da guerra de libertação. Gosto do jeito que ele escreve. Nas “Naus” ele mistura a ida dos portugueses aos “achamentos” – palavra que revela mais a realidade do que o descobrimento do nada que nos ensinaram na escola – com a volta dos derrotados de Angola, como se esses fossem os mesmos de ida, num belo final dos versos de “um homem chamado Luís a quem faltava a vista esquerda” com os famélicos da guerra esperando um Dom Sebastião sair do Tejo num cavalo improvável. Mas a nossa improvável beleza de cu do mundo fez o Dom Sebastião ressuscitar em Canudos e Conselheiro ter absorvido o sebastianismo português no Monte Santo, que só o Euclides soube desbravar corajosamente mostrando a derrota de um Moreira César epiléptico sendo vencido pelas visões místicas que Conselheiro lhe fez ver nas crises contorcionistas de babas contagiosas. Mas cá no Porto, como eles dizem, a nossa terra teve uma independência precoce por ter Dom João fugido de Napoleão com o reino e seu filho Pedro I, o quarto aqui, ficado em terras fazendo merda. Dom João ainda quis recuperar a independência do Brasil fazendo uma guerra no sertão conhecida como Batalha do Jenipapo, que dá a adesão de nossa gente à independência do sul. Mesmo perdendo, ganhamos. Participando de uma batalha que era a disputa do pai contra o filho sob os carnaubais do Campo Maior. Os portugueses se queixam que nós vimos cá como turistas, enquanto os pretos das colônias africanas chegam aqui refugiados, ameaçando seus antigos patrões. Vi uma portuguesa, com cara de nojo, enxotar um negro de África de uma mesa de restaurante. É desse jeito, meu chapa, a arrogância portuguesa nos tem como irmão menores – ou adotados, porque ganhamos lutando ao lado do filho contra o pai – mas os de África continuam negrinhos que não podem sair da cozinha. Estou surpreso do meu “achamento” de Portugal como eles fizeram conosco em mil e quinhentos. Os índios nus que eles encontraram por lá chegam aqui nas bermudas e camisetas nos dias de calor em contraste com o vestir-se todo de mangas de camisas do português. Quando estive em Lisboa, dum belo por de sol no Miradouro de Santa Catarina, das tascas do Bairro Alto, das ruas estreitas e curvas dos fados e vinhos, ia no elétrico 28 às ladeiras de Alfama comer um bacalhau à lagareira, ou aos sábados na feira da Ladra no pátio da Glória. O infame nome da Ladra foi apenas uma homenagem árabe à virgem da Glória portuguesa. A origem da feira remonta aos árabes que ficaram depois da reconquista dos reis católicos a começar na retomada de Afonso Henriques. Os árabes chamavam a feira de “feira da virgem” pela localização no pátio da igreja da santa católica. Acontece que “Al Hadra” significa “a virgem” em árabe. Daí o aportuguesamento de ladra, já que os patrícios são literais e achavam que a muçulmana roubava na feira. Na minha passagem, um árabe de joelho declamava o cântico de mesquita em troca de algumas moedas, já que agora em seu regresso vende até a fé na feira. Mas não tive encantamento com os pastéis de Belém nem com os pastéis de bacalhau – os bolinhos que os portugueses levaram ao Brasil. O pastel de nata parece ter um empapado de maisena adocicada sem muito gosto. O de bacalhau – que nem gosto – cismei com uma inscrição do Lobo Antunes – o mesmo dos cus – falando nas paredes da casa portuguesa dos pastéis de bacalhau da Augusta – que fazer pastéis de bacalhau era tão necessário como ler os Lusíadas. Nos cus que é. Só que português gosta de pastel de nata ou de bacalhau como gostamos de bolo frito ou de tapioca pra quem não sabe o que é bolo frito, feito com a mesma massa e tostado na gordura quente. Alguém convencer a outrem que massa de mandioca, água e sal tostada em frigideira quente tem gosto bom é difícil. Por isso os falsos apreciadores do exótico fazem recheio de tudo que é jeito até não se sentir o gosto da tapioca. Quero ver apreciá-la sequinha com umas gotas de azeite de coco e café preto. O gosto é de infância, de costume, de saudade. É isso que faz o sabor (...)

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

PESCARIA



     
      
A última vez que pesquei no rio Poty eu morava no Conjunto Primavera II. Era só atravessar a Avenida Duque de Caxias e o Parque da Cidade, antigo bosque da Fazenda do prefeito José Olímpio de Melo, alcançava-se à beira do rio.

Começamos a pescar à boca da noite. Havia lua cheia e estava tudo claro, o leito do rio fluía e ainda não estava coberto de aguapés. Levávamos engodo feito de tapioca, grude, para servir de isca para as piabas. O plano era pegarmos piabas para fazer isca para pegar piranhas. Os pescadores, eram eu, meu filho, e alguns vizinhos da idade de meu filho, residentes da favela ao lado do conjunto.

E por falar em meu filho, de repente me vi menino, aí pelo começo da década de 50, tomando banho, nesse rio que não é mais o mesmo. Atravessamos para o outro lado onde ficam os terrenos da Universidade do Piauí, e colhíamos cajus maduros, bicados de passarinhos: eram mais saborosos. Inclusive a parte do lado da castanha.

O silencio era grande, envolvente, ouvia-se apenas o ruído de insetos e o mergulho do anzol dentro d’água, até que começamos a falar. E aí me lembrei do tempo de minha infância quando pescava no riacho da fazenda do meu pai, e cheguei uma vez a pescar um cágado.

De repente meti essa recordação na conversa, e disse: eu pego até cágado. 

Quando fechei a boca senti a fisgada no anzol embaixo d’água. Puxei-o. Veio um cágado. A surpresa foi grande. Os colegas de pescaria ficaram perplexos. Parece até historia de pescador. Mas aconteceu de verdade.   Comprovando o que eu disse. Tirei o bicho do anzol com bastante cuidado, e devolvi ao rio para a sua família de quelônio, debaixo dos olhares curiosos dos meninos.



Os meninos da favela amigos de meu filho não compreenderam o meu gesto. Bem que aquele cágado dava um caldo. Olharam para mim de través, ressentidos. Terminada a pesca, voltamos para casa com uma história inacreditável para conta

(Geraldo Borges)

Tabatinga