domingo, 25 de dezembro de 2016

é desse jeito, meu chapa (5)


Sei que é Natal, mas esse ano vou deixar por conta do Geraldo Borges as festas, o vinho, a ceia. Não tenho como parar. Não é contra ninguém, falo comigo mesmo. Vou continuar minha cantilena do é desse jeito, meu chapa! (já estamos na quinta parte)


(...) O complexo de vira-lata do Brasil na aldeia é potencializado. O nosso cachorro é pulguento, sardento, cheio de carrapato, ferida na orelha, remela nos olhos murchos e pidão, rabo fino e acocorado. Ainda corre atrás de boi pelas quebradas, acoita tatu no buraco, busca nambu abatida. O problema é na presença de outros cães. A matilha paraibana não é assim não. Que nos sirva de comparação. Junta os cachorros e latem grosso com o orgulho da cultura da terra. Até o bumba-meu-boi do Maranhão – que vieram buscar nos nossos currais – faz bonito e vai se empinar feito escola de samba lá nos Parintins. E a nossa aldeia com a espinhela caída não tá direito. Acho que os meninos de hoje não cometeram os nossos pecados. Tá bom, éramos os primeiros a se aventurar ao oceano, como os portugueses saíram a conquistar Ceuta que de nada serviu em si. Como a nossa geração também foi assim. Aportamos num destino onde não tinha nada. Mas declaro aqui calorosamente que o nosso maior feito foi a viagem. Nos lançamos ao mar em busca de alguma coisa que não achamos, mas a viagem inspirou os meninos para que chegassem a algum lugar, estás me entendendo? Alguns de nós saíram da aldeia e foram fazer rastro no planalto central. Aquele lugar no meio do nada onde Juscelino cismou de plantar uma capital no coração do cerrado. Os cinquenta anos em cinco ali foram em menos tempo construído por um formigueiro humano que dos quatro cantos do país foram na aventura de achar uma cidade enterrada num barro vermelho, que quando não chove vira o próprio ar que se respira. Niemeyer e Lucio Costa ficaram encarregados de traçar um delírio de JK no cerrado goiano. E quem não gostava de viajar de avião imaginou um aeroplano plantando no cerrado. Foi preciso ainda construir um lago artificial para tentar diminuir a insuportável secura do ar, que faz sangue escorrer das narinas. O sangue dos candangos está espalhado na planície sem fim e seus ossos debaixo dos alicerces dos espigões de concreto que substituíram as raras árvores e também em raridade pela vastidão do nada. Fizeram um traçado para os carros que devem dobrar à direita – nem que tenham de ir à esquerda – sem as esquinas que existem nas cidades. Porque de pronta Brasília não é uma cidade, mas um monumento a céu aberto num descampado a perder de vista. Um lugar pra ser observado, em dimensão maior que os monumentos de Inhotim. Oscar e Lúcio fizeram uma poesia concreta na intenção de ser maior que o barroco do Aleijadinho em Congonhas. E negaram até a morte um massacre de farrapos humanos para evitar um movimento que pudesse acordar o Juscelino do seu sonho. O povo podia acordar e evitar o sonho. Sempre que chego a Brasília penso que cheguei a uma cidade desabitada. Tenho medo de seus cadáveres despertarem numa tarde mormacenta. Não há pessoas nas ruas. Os carros corem como se não tivessem motoristas. O canto da cigarra é muito mais alto do que a buzina dos carros. E quando mais ando em Brasília acho que fui para o mesmo lugar. Há uma decoração diferente, mas o espaço parece o mesmo. Nos bares há sempre que se subir uma escada para ir ao banheiro. A vida pulsa nas cidades satélites para onde foram expulsos os construtores de Brasília. Aos arredores tudo é Ceilândia. CEI significava Campanha de Erradicação das Invasões que cercavam Brasília. Brasília chamou suas favelas de invasão e as removeu. Resolveu o problema resolvendo uma questão semântica. Removeu para uma terra destinada à erradicação da invasão: a Ceilândia. Porque os militares tomaram a cidade fantasma e a fizeram um Brasil de brincadeira. Brincadeira de caserna. Uma cidade de setores: setor militar, de hospitais, de hotéis, de políticos, de funcionários públicos, quadras comercias. Sem mendigos, sem crianças de rua. Os invasores foram retirados pelo CEI. Muito dos nossos foram se refugiar na Universidade de Brasília, a UnB da resistência de 68. Num departamento de cinema e das artes que podem contar a nossa história. Lembras deles? Cantaram a nossa aldeia sem dó da dor de saudade. Numa cidade fantasma que se agita à noite, onde os pardos são gatos da banda de rock que invadiu o país. Onde um açougue vende poesia para contar na carne a cutelo. Onde os nossos poetas versejam pelas quebradas como se fosse Da Costa e Silvas: “Salve a terra que aos céus arrebatas / Nossas almas nos dons que possuis / A esperança nos verdes das matas / A saudade das serras azuis”. Já esquecestes do nosso hino? O rio abaixo do nosso cais não conhecíamos. O rio arriba era “o vapor de Parnarama chegando de Palmeirais”. Ou em balsas de talos de buriti que envergonhariam os desbravadores portugueses dessa terra. Coisa mais afeita à navegação dos índios, recheadas de suas cerâmicas em potes de barro cru ou nas farinhas de mandioca de goma para fazer beiju. Mas isso era só saudade no planalto central do país. A brisa que abufela a vontade, a “cruviana” que lá não tinha, o frio de engelhar, a necessidade de um gibão de couro – não pra pegar boi na caatinga, mas pra aquentar o frio do cerrado na claridade de um infinito que parece não ter noite. Os que foram no rumo do planalto central se acostumaram. Até hoje sinto arrepio no gelar da noite quando é quente o dia. Mas ela está lá, a Brasília. Faz rock e mata índio de noite. Resseca as narinas e escorre o sangue dos seus construtores que morreram numa noite escura de uma segunda feira de carnaval, apenas por que reclamaram de baratas no rango do barracão de obra que construía o palácio do Planalto. E governantes habitaram aquela casa inspirada nas arcadas rústicas do mercado dos tropeiros de Diamantina sem saber dessa história nem da história do Brasil. O Brasil ficou sem capital desde que as repartições públicas mudaram do Rio para o cerrado. Ficaram perdidas numa cidade inexistente e não pertencem mais ao país. A capital do condado Portucalense era aqui perto do Porto, Guimarães – onde nasceu Afonso Henrique que vai fazer nascer a nação portuguesa. O Afonso Henrique nasce aqui perto do Porto e leva a capital para Coimbra – cidade tomada dos árabes e dali começa a se formar a nação portuguesa. A nação portuguesa começa entre o Douro e o Mondego. Lisboa vem depois com a transferência de Afonso III (avô do Afonso pai de Pedro da Inês é morta) transfere a corte para Lisboa. Contam nos interstícios da histórica portuguesa que não houve uma transferência em “papel passado”. Mas Lisboa só deixou de ser capital com a invasão de Napoleão e o reino de Portugal teve como capital (até a volta de D. João) o Rio de Janeiro. Essa fuga garantiu a identidade de nação a Portugal. Mesmo o Rio de Janeiro era mais perto de Portugal do que Brasília parece ser do Brasil. A capital do Brasil parece perdida num cerrado em que monumentos brotaram do chão barrento – alimentado do sangue dos candangos – para fazer uma cidade longe de tudo e perto do nada. A equidistância buscada por Juscelino ficou tão longe dos brasís que existiam que ela mesma deixou de existir. Ouve-se falar de uma cidade que houvera de se encontrar num planalto central que não se sabe onde fica. Talvez os nossos árabes tenham tomado Brasília e precisamos de um Afonso Henriques para retomar a capital de nosso país. Dizem que houve um tempo que o presidente era um mouro sanguinário que depôs uma rainha isolada no seu castelo e nós não ficamos sabendo de nada. Faz muito tempo e a história já não é mais lembrada. Quando Getúlio Vargas se suicidou no Catete foi uma comoção dos diabos. Ele estava perto do país que existe. Jango fugiu do isolamento em Brasília para o Rio Grande e foi criar gado no Uruguai. Os militares tomaram o Rio, Minas e São Paulo e depois foram governar Brasília. De lá saíram quando quiseram numa distensão permitida e deram posse a um presidente morto eleito indiretamente, que foi substituído por um vice do agrado dos militares e continuou – depois da ditatura – fudendo com a vida de todo mundo. Numa cidade que chamam Brasília tudo pode acontecer. Melhor esquecê-la (...) 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

Um comentário:

Anônimo disse...

Tenho acompanhado,aprendido e me encantado com todo esse material que você tem compartilhado com a gente. Agora você chegou a Brasília e tenho uma história afetiva com essa cidade desde 1959,um ano antes da sua inauguração,quando cheguei lá, nos tempos e nas asas da Panair. Voltando anos depois, já sob a ditadura,e hoje em Sampa, mas enfim...fiz um poema, que já não sei onde foi parar, mas termina desse jeito: "Brasília me acompanha nesse voo sem fim/ Tem um por do sol dentro de mim..."
Lelê