domingo, 11 de dezembro de 2016

é desse jeito, meu chapa! (4)




(...) É desse jeito, meu chapa!, retomou N, enquanto o tempo passava aqui em séculos, vivíamos apenas décadas de uma corrida desenfreada para chegar à velhice. E aí se não bebermos também os séculos morreremos vivenciando apenas os pouquíssimos anos da existência humana, que nada tem de interessante se não se misturar aos séculos que carregaram a humanidade. Não que tenhamos de deixar algo feito de importância. Isso é bobagem. Os séculos escolhem quem os representa, nós só temos a necessidade de testemunhar a história. Isso não é pouco. Repararas nos mancebos daqui ou dos pobres moços de lá que tiveram uma existência sem saber a que se destina. Nada de filosofia. Só o encantamento do viver pode ser gratificante, mesmo que nenhuma pergunta que fazemos possa ser respondida, concordas? Enquanto os séculos nos contemplam, voltemos às nossas décadas de mortais. Nossa aldeia que parecia grande era um conjunto de casas com quintais e cadeiras na calçada. Não tinha tv, poucos rádios com suas novelas de homens sem medo, de Jerônimo, Anita e Moleque Saci. O giradiscos, como se chama por aqui – até porque precisa girar para tocar – era um luxo de casas de ricos. E os discos que giravam quebravam facilmente no virar da faixa de quarenta e oito rotações feitos de cera de carnaúba. Mas eles nos traziam os sucessos que podiam ser ouvidos nas ondas curtas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro ou da Jornal do Comércio falando do Recife para o mundo. Do Recife nos chegavam Gordurinha, Jackson, Gonzaga. Do sul maravilha inimaginável ouvíamos Nelson, Ângela, Cauby, Emilinha e Marlene. Tudo muito distante ainda daquela aldeia onde existíamos. A vida era muito simples. Duas obrigações, a escola, todo dia, e as missas aos domingos. O resto eram travessuras nos campos de futebol, nos piques das praças, nos banhos de rio. E quase já tínhamos gastado dez anos de nossas vidas. Nos outros dez a ditadura nos pegou pelo meio. Vi 64 de longe, sem entender direito o que se passava. A morte de Edson Luiz de repente trouxe a ditadura para as nossas vidas. Mataram um estudante lá longe, mas tomávamos consciência que poderia ser um de nós. Não aconteceu contigo assim? Nem bem deu tempo da revolta natural em casa com os nossos pais, a realidade nos insultou para que nos revoltássemos contra o poder. Mas o poder era tudo que não fosse nós. Posso garantir-te que a cultura salvou a nossa revolta, melhor dizendo, a contracultura. Pois éramos contra tudo, até a cultura subserviente em voga e tão conservadora quanto mesquinha. Quando te conheci teu grupo já tinha feito cadernos de jornais, já tinha identidade num jornal mimeografado de quase um número só, já que o segundo provocou um racha dentro do grupo. Mas era por vitalidade que brigávamos naquela época, não te pareces? E foi em torno de um poeta que nos afirmamos na revolta. Afinal, o poeta triste que se mataria logo depois tinha escrito seu nome na diluição da cultura no movimento da tropicália. Ele só inaugurou e juntou a nossa revolta e logo se foi. Há um lado bom na sua partida para além de fixar uma vigorosa obra que foi a sua curta vida. Deixou-nos para que caminhássemos sozinhos juntos ou separados. Alguns antes de ti foram para o sul. Outros ensaiaram passos políticos que não deram em nada. Perdemos esse bonde por falta de convicção, coragem, ou na busca de ambas. Não deu tempo para uma geração que ficou entremeada às distâncias do sertão e a falta de ambiente na cidade grande. Me pareceram grupos que se encerravam em si mesmos, não te pareces? Não precisas concordar comigo ou deixar que eu fale sozinho do que acho, mas se me deixares falar a história fica por isso mesmo. Acho que novamente vou falar o mesmo axioma do Leminski. Vocês mais beberam do que entenderam o mundo, não por vício – decerto como diria o poeta – mas em legítima defesa. E enquanto fazíamos mais festa do que trabalho e pão o mundo ia se transformando num inexorável movimento da roda da história. Enquanto a ditadura ensandecida no Brasil nos calava e matava nossos heróis nos porões dos anos de chumbo, em sessenta e oito a França fazia de maio um marco histórico no século XX. Os jovens franceses foram mais longe do que queria o Partido Comunista e derrubaram De Gaulle um ano depois. Ficou a marca de que as revoltas podem mudar o mundo. Aqui em Portugal, em 1974, a Revolução dos Cravos pôs fim a ditadura salazarista que continuava desde antes da segunda guerra, mesmo depois da morte do velho ditador. No Brasil fomos esperar dez anos ainda para começar a findar a nossa. Aí já estávamos velhos desde que o Marcos Valle gritava há dez anos para não se confiar em ninguém com mais de trinta anos. E aí já tínhamos mais e caminhávamos para a desconfiança entre nós. Não aconteceu por eu ter ficado na aldeia e teres ido embora. Aconteceu porque acontece até entre nós mesmos, entre o que éramos antes e o que somos agora e talvez ainda briguemos com o que seremos depois se tivermos tempo nesta caminhada. Muito de nós já tombaram, não sei se acho bom ou ruim. Ruim por me fazerem falta é certo, mas como seriam eles agora? O poeta triste morreu antes dos trinta anos que o Marcos Valle falou, portanto confiável. Confiável? Vejo tantos dele no passado. Num ano conheci um, num outro, outro. Na juventude éramos parecidos? Na velhice ele ficou um homem com várias facetas, entendes? Tem um cara jovial, senhor do seu saber, colunistas de vários jornais – até no jornal de sports, aquele cor de rosa, lembra? – a opinar sobre tudo como um oráculo do destino de quem estava em volta. Na outra face, na mesma época, o poeta triste fala em cartas o desencanto com o mundo em volta, com a falta de perspectiva na vida, parecendo um velho falando a verdade que o matou jovem. Mas para muitos de nós ele não morreu. Continua vivo agarrado às nossas vidas. Para alguns, um velho melancólico que dialoga com a nossa velhice. Para outros, uma sombra que não pode morrer e tem que ser mantido como uma sombra, sob a ameaça deles mesmos morrerem. Você estava entre os que choraram no túmulo do poeta? Alguns choram até hoje e o mantém como um El Cid empalhado falando em nome da cultura da aldeia. Nada que não possa ser consertado, meu chapa! Tem muito talento lá. Mas esse atrelamento mascara até os que podiam caminhar noutra direção. O nosso problema lá é que o poeta era cosmopolita já, apesar das canções sobre sua aldeia. Alguns dos nossos talentos já partem de fora pra dentro da aldeia. Não sei se concordas, mas falo disso sem assombro. Sei que isso não é um problema, mas a consequência do que somos (...)


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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

2 comentários:

lcmbahiense disse...

Saga de uma geração, Edmar Oliveira. Sou um pouco anterior, suburbano no Mundo, mas em essência, dá no mesmo.

lcmbahiense disse...

Saga de uma geração, Edmar Oliveira. Sou um pouco anterior, suburbano no Mundo, mas em essência, dá no mesmo.