domingo, 13 de novembro de 2016

É desse jeito, meu chapa! (2)

desenho: Amaral


(...) Em Coimbra os estudantes com capas de Batman avoam entre as ladeiras misturados com as portuguesas de coxas firmes e velhos que carregam a asma do cansaço. Raparigas com capas de Batgirls vendem rifas e panfletos aos turistas e fuxicam os telemóveis denegrindo a imagem da capa do saber, que depois da revolução dos cravos foi abolida por parecer ao passado salazarista, apesar da Universidade ser do século III. Mas se as ladeiras são em terra firme dos morros que alcançam a Universidade do Saber, do outro lado do rio Mondego o convento de Santa Clara foi desenterrado da lama do rio. O convento de Santa Clara – a velha, foi escavado recentemente para descobrir o internato da rainha santa Isabel, avó de Pedro dos cânticos do homem chamado Luís. Foi no pátio daquele convento que Inês foi enterrada depois de morta no lugar que seria conhecido por Quinta das Lágrimas. Na Quinta, Pedro e Inês de Castro viviam uma paixão torrencial. Naqueles tempos os casamentos dos reis se faziam por negociações políticas. Pedro, herdeiro do trono, prometido a Constança, descendente dos reinos de Aragão, Castela e Leão. Pedro casou-se como o combinado político, mas apaixonou-se por Inês, aia de Constança. Imagina o rebuliço na corte. Mesmo com a morte de parto da Constança, Pedro não pode viver com Inês. Algumas encrencas políticas podiam advir dessa união. Enquanto Pedro caçava, seu pai mandou matar Inês como uma lebre indefesa. No lugar onde a mataram há um musgo vermelho na fonte que ali brota que na história se confundiu com lágrimas de sangue de Inês. Pedro aguentou o tranco enquanto era o herdeiro. Após a morte do pai mandou caçar e matar impiedosamente os assassinos de Inês e fez coroar rainha o cadáver da amada, forçando o reino a beijar a mão de Inês. A trágica história do reino quando ainda Coimbra era a capital deixou marcas indeléveis na história portuguesa e até no sertão ecoou a expressão “Inês é morta” para nomear o inevitável de retroceder. Juro por deus, meu chapa, que a Inês das histórias infantis que ouvi vinham da Trizidela, que significa o outro lado do rio, de qualquer rio de nossa infância. Uns dizem da parte menos importante da cidade, outros da margem esquerda, tem até uma cidade chamada Trizidela do Vale no Maranhão. Mas não achei o significado etimológico. Aqui em Porto a Vila Nova de Gaia é a Trizidela, correto? Como também era Trizidela a Quinta das Lágrimas no lado esquerdo do Mondego. E a ponde Dom Luiz liga a Ribeira ao porto de Gaia pela parte baixa e o Largo da Batalha ao Jardim do Morro pela parte alta, onde só o Metro circula junto aos pedestres. O trambolho metálico – que se parece uma torre Eiffel esparramada – foi construída por um sócio do Gustave e não por este como se espalha por cá e fala o nome de uma avenida perto da ponte. E, muito tempo antes, foi aqui da Ribeira que o Infante Dom Henrique, antes do nosso achamento, preparou uma frota de naus para conquistar Ceuta na África. Como já tinham feito na Guerra de Castela, os moradores do Porto doaram toda carne aos guerreiros navegantes e ficaram com só com as tripas para consumo próprio. Daí os nativos serem conhecidos como tripeiros. Uma tripa à moda do porto é muito boa, mas enquanto a saboreamos saiba que os tripeiros fizeram das tripas coração para lançar os portugueses ao mar e a construção do Império. Fizeram das tripas coração, mas também dos nossos corações as tripas de suas conquistas. Num belo mural de azulejos na Estação São Bento do Porto podemos ver a encenação artística da conquista de Ceuta, tendo o Infante Dom Henrique à frente. De mais a mais não teve retorno econômico o domínio de Ceuta, como era esperado. Talvez seu principal legado seja a vontade dos portugueses aventurar-se ao alto mar dobrando o cabo de Boa Esperança em África, chegando Vasco da Gama na Índia e fazendo Pedro Álvares Cabral achar terras habitadas pelo que julgavam ser indianos pelo outro lado do mundo, que sabiam ser redondo, mas imaginavam ter circunferência menor. Só Magalhães – o achador do estreito que leva seu nome – arrodeou a terra, mesmo tendo morrido antes da volta. Curioso é como a tripa a moda do Porto chegou no sertão. Na nossa aldeia a panelada é disputada como uma iguaria local sem sabermos de sua origem antes do nosso achamento pelos portugueses. Tudo que se come por lá dentro do sertão veio com os portugueses atravessando o atlântico que carregavam os mouros nas costas ou depois deles os árabes se embrenharam também em nossos costumes de uma forma tão definitiva que parece não ser.(...)

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

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