domingo, 20 de setembro de 2015

TRISTERESINA de novo:


O belo Passeio hoje



“TERESINA APAGOU-SE NA DISTÂNCIA”
(verso de Lucídio Freitas)

Edmar Oliveira

Já está até ficando chato eu falar aqui da saudade de uma cidade que não mais existe. Papo de velho saudosista. Mas vamos lá:

O tal do Conselheiro Saraiva encontrou um lugar para fazer uma nova capital do Piauí entre dois rios. Saraiva era um jovem baiano de 27 anos nesta época e ali começava sua carreira política no Império, chegando a primeiro-ministro, com quase 60 anos, no mesmo dia em que Deodoro aplicou o golpe no Imperador Pedro II. Foi, sem nunca ter sido.

Mas estamos aqui falando do jovem Saraiva que fundou uma capital de província entre dois rios, sonhando com sua Mesopotâmia. O ato de fundação foi no Largo do Amparo, às margens do Rio Parnaíba, que separa a cidade do Maranhão. Ali apareceram os primeiros prédios públicos: a sede do governo, hoje Casa Anísio Brito; a igreja do Amparo, que só ganharia as altas torres bem mais tarde; o Mercado São José, junto ao cais e ao movimento dos barcos. Seu plano urbano é um tabuleiro de xadrez, circundado pela Avenida Circular, hoje Miguel Rosa. No tabuleiro, espaços públicos das praças Landri Sales, João Luís, Rio Branco, Pedro Segundo, da Liberdade, Saraiva, a do Conselheiro e onde fica a Igreja de Nossa Senhora do Amparo. E por trás da Igreja de São Benedito, lá no alto do Jurubeba – depois da Chácara de Karnak – a  avenida Frei Serafim, que a gente chamava simplesmente de Avenida. Ela separava a zona norte da zona sul e ia até o Rio Poty. A nossa Avenida era única e quando falávamos avenida era ela a quem estávamos nos referindo. Entrou até para o cancioneiro popular a nossa Avenida. Larga, arborizada, tem um passeio central de muita sombra que nos protege do calar escaldante. São oitizeiros, na maioria, frondosos e refrescantes. Sempre que vou à terra passeio no seu passeio e retorno à minha mocidade.
 
Avenida quando inaugurada
Depois que a cidade se mudou para o outro lado do Poty, tão lamentado nesse espaço, a cidade ficou sitiada – como fala o poeta Paulo Tabatinga – e foi sendo destruída nas nossas lembranças. Os casarios, muitos de influência árabe, foram postos abaixo e viraram estacionamento. Ali só funcionam os órgãos públicos e um comércio decadente. Os endinheirados foram morar do outro lado do rio. As praças vazias e abandonadas. Só a Pedro Segundo ainda vive na força de uns últimos resistentes. Quando aquela gente a deixar, ela morre. O Mercado São José – que nós chamamos de Mercado Velho – foi abandonado e vinha sendo degradado. Fui informado que estão fazendo uma reforma modernizadora não respeitando as características arquitetônicas daquele prédio publico.

Agora o Durvalino Couto grita que vão destruir o passeio da Avenida para alargar as pistas de rolamento. Querem entrar mais depressa na cidade velha e lá demorarem o mínimo tempo possível. Nos carros com ar condicionado. Nas imitações – sem noção – dos BRTs do sul maravilha. Para isso as maquetes anunciam o corte das centenárias árvores, que – naturalmente – refrescam a cidade do seu calor intenso. Mais um símbolo da antiga cidade será demolido. E na insaciável “derribada” do verde, cortam sem pena esses “pés de pau réi” para a “mudernagem” especulativa da força da grana “que ergue e destrói coisas belas”. Na velha cidade mais que destrói, corrijo o poeta. 



A minha Avenida está ameaçada de só existir na memória da minha geração. E morrer como vai morrer a nossa memória. Às vezes me perguntam quando vou voltar para Teresina. Não se pode voltar para uma cidade que não mais existe!  



Maquete com a destruição do Passeio


O Mercado Velho original

Esdra do Nascimento

(Geraldo Borges)


Mais um contemporâneo e conterrâneo que viaja para o nunca mais. Era um erudito que saiu muito cedo do Piauí, conheceu a Europa onde estudou. E a sua literatura não tem muito a ver com o nosso estado, apenas o vinculo da língua portuguesa, é claro. Chegou a escrever uma tese de doutorado em forma de romance dispensando rodapés e bibliografia.E foi aceito pela comunidade acadêmica.

 Procurei o seu nome nos manuais da Literatura Piauiense e não encontrei nem uma noticia sobre ele. Pouco sei a seu respeito. Só que é um grande escritor muito pouco lido no Piauí. Eu li alguns livros dele, como, por exemplo, Solidão em Família. Por aí pelas minhas andanças encontrei alguns de seus livros nos Sebos. Com o tempo o seu estilo ficou muito sofisticado para o meu gosto. Uma das últimas vezes que ouvi falar em seu nome foi pela boca do poeta e cronista Rogério Newton, por sinal, fazendo-lhe um grande elogio.

 Mas a morte do Esdra me liga a certas recordações da Rua Campos Sales. Não é que ele tinha um irmão que morava defronte lá de casa.

 Uma vez ele entrou na quitanda de meu pai e me viu lendo  o romance  Solidão em Família, e me declarou que o  autor era seu irmão. Foi uma surpresa. Meu espírito provinciano chegou a duvidar dessa coincidência. Mas os sobrenomes coincidiam. E se eu não conhecia o famoso escritor, sua presença em carne e ossos, pelo menos conhecia o seu irmão, que para mim ficou mais famoso que o próprio romancista. O seu irmão chamava-se Ezio Beleza do Nascimento, também já morreu.


Os meus conhecidos da minha geração estão morrendo. E muitos já estão mortos e não sabem. A morte é seria. É por isso que ela requer ritual e solenidade. Mesmo para o poeta que diz: quando eu morrer batam em latas. Bom. Esdra do Nascimento era um escritor discreto, um caracol dentro de sua concha. Agora vai ficar mais discreto ainda. Embora lembrado pelos seus milheiros de leitores que nunca conheceram o seu irmão. Ezio Beleza.

Tá difícil! por GERVÁSIO



















a cidade sitiada

(Edmar Oliveira)

Uma geração vem perdendo Teresina. Cidade nova, nascida no largo do Amparo, nas margens do Parnaíba, cresceu entre dois rios, dividida pela Igreja de São Benedito, que se debruçava do Alto do Jurubeba sobre a rua Bela: ao sul, suas ruas corriam até a Tabuleta, bairro onde a placa de entrada dizia que a cidade tinha começado. Ao norte era limitada pelo encontro dos rios. O oeste já era Flores, no Maranhão. Ao leste, as coroas do rio Poty. O centro urbano era pequeno, contido pela Avenida Circular – hoje Miguel Rosa – em ruas retas, num desenho quadriculado, cada quarteirão com exatos cem metros. E havia praças e espaços de congraçamentos urbanos. Lembro-me de quando minha mãe teve que se desfazer de nossa casa na Campos Sales e fomos morar tão perto, mas depois da Miguel Rosa, ela reclamou: “Saímos do centro para o subúrbio”.

Para o sul a cidade cresceu. Quando morei no Parque Piauí, minha mãe dizia que eu me mudara para Barro Duro – a atual cidade de Demerval Lobão. Tinha uma tia que morava depois da Vermelha, que minha mãe, com sua implicância, dizia já ser em Nazária. Também cresceu para o lado do Maranhão, inchando a cidade de Timon – a antiga Flores. Mas para o leste, depois do Poty, tinha apenas as chácaras de alguns ricaços para passar fim de semana. O urbano e chic era contido pela Miguel Rosa. E a minha geração cresceu entre as Praças Rio Branco, Pedro II, da Liberdade, do Liceu, do Amparo – no  Mercado Velho. No Clube dos Diários, nos cinemas, na Prainha, nas coroas do Rio Parnaíba, na Ponte Metálica, nos cabarés da Paissandu – antiga Rua dos Pequizeiros, na Palha de Arroz, na Baixa da Égua, na Estação. Ou na Maria Tijubina, no Mafuá.

Depois que vim embora, a cidade, como se por encanto, saltou para o outro lado do Poty – na zona Leste. Fizeram até uma nova ponte, toda iluminada, com suas estaias feito uma grande asa que te leva a um mirante, para saudar e sacramentar a mudança.

Sei, as cidades crescem, muda-se o centro de vida que existem nelas, mas Teresina abandonou a cidade inaugural. Cada vez que volto descubro que a minha geração vem perdendo a Teresina que nos criou. Parece uma cidade fantasma, em que velhas construções – que nos serviam de guias – foram postas abaixo para virar estacionamento. À noite a cidade morre. Qualquer sinal de vida só depois da ponte nova.

E quem mais me chamou a atenção para essa mudança assustadora, foi o poeta Paulo Tabatinga. Acompanhava sua poesia em versos e fotografias que testemunhavam a fagocitose da cidade velha pelos altos edifícios da nova cidade. Atavicamente ligado aos fantasmas da cidade velha, o poeta percebe que “a cidade prostituída / devora os cabarés antigos”.

Pois esses versos, ilustrados por uma fotografia que também é poesia, nos chegam neste “A Cidade Sitiada”. Paulo se recusa a sair dos escombros na tentativa de reconstituir o passado: “A casa da minha vó / já teve muita vida / hoje meu olhar / percorre corredores sem fim”.  Ou enxerga no som de antigos discos de vinil, que teimam em tocar na velha cidade, um som que traduz o que sente seu coração: O vinil é a volta / da rotação sincera”.
O poeta empreende um luta, armado como um cavaleiro medieval, contra as facilidades do progresso tecnológico para a preservação da memória: “Usurpam-nos o espaço real / e nos vendem a prisão virtual / dentro de um cartão de memória”. Sua luta é para a reconstrução do espaço em que foi gestada a nossa memória. Ele sabe bem que uma cidade sem passado não tem futuro. E ainda nos ameaça com a doença da modernidade, que os médicos sabem tão bem ser uma consequência da perda dos afetos também: “A família que não recorda / se encontra no Alzheimer”.

Enfim, encontro na poesia de Paulo um libelo contra a destruição da memória de uma geração. Ele fotograva e escreve para que Teresina não desapareça na lembrança, quanto temia o Lucídio Freitas quando veio embora e não pôde voltar:

Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
(LF)


Diferente de Lucídio, mas com a mesma sensação poética do antigo conterrâneo, Paulo vê a Teresina sumir da nossa memória, quando ainda vivemos nela. Ela se apaga no mesmo tempo em que vivemos e isso, talvez, seja mais doloroso do que a lembrança de quem não pôde mais voltar, sabendo que morria e a cidade ficava. Paulo nos mostra que Teresina morre ao mesmo tempo em que morremos. E isso ameaça a nossa existência na lembrança dos novos habitantes da cidade. Ela e nós seremos apenas uma fotografia que pode até ter existido, mas ninguém lembra: “Como dói uma fotografia / na distância amarelada do tempo”. A esta cidade sitiada, nossa memória está prisioneira. 



Jota A













Visita ao Seborges


(Geraldo Borges)

Muitas pessoas, amantes da leitura, já visitaram o meu sebo, o Seborges, que fica na Rua Rio de Janeiro, 2387.A primeira delas foi o Kenard Kruel. Mostrei-lhe dezenas de livros, brochuras, encadernações, de preferência biografia, que é o seu ramo. Ele verificou os preços no canto da página, e achou-os caro. E ainda por cima, disse que eu botei o sebo e vendo livro pelo olho da cara, caríssimo, por que, na verdade, não quero me desfazer deles. Pode até ser.

Mas aos poucos, estou vendendo meus livros usados. Os fregueses estão aumentando. Teresina não tem sebos significativos; o que significa, de duas uma, ou as pessoas leem muito e são ciosas com seus livros. Não querem revender ou fazer trocas. Ou leem pouco, e nem notam os livros que tem em casa. Acredito na segunda suposição.

Mas  vamos voltar  as pessoas que  já visitaram o meu sebo A  minha amiga T T Aguiar  também me ajudou a propagandear o meu Seborges . Registro aqui a presença do Igor, filho do Marcos Igreja, que me comprou  O Velho  e o Mar, Vidas Secas, e Decameron.

Também passou  pelo Sebo o meu amigo querido  Edmar Oliveira, que   teve o privilegio de ganhar de presente pela mão da Fátima, minha mulher, duas obras prima da literatura inglesa – O Quarto de Jacob de Virginia Woolf  e os Papeis de Aspern  de Henry James. O poeta e cronista  Rogério Newton também, já apareceu e como tem bom faro para livros me comprou A Noite de Núpcias do  poeta indiano Tagore, tradução de Cecília Meireles  e  Cemitério de Elefantes de Dalton Trevisan. E Glenda Borges, minha sobrinha, que marcou presença aqui  me comprou E para nascer, nasci, crônicas de Pablo Neruda. E trouxe  um colega que me comprou Província Submersa de Geraldo Borges e Mano Ladino do escritor piauiense Anfrísio  Lobão. Minha irmã Lourdes me fez uma visita e aproveitou para me comprar  Poesias Escolhidas  de Drummond de Andrade, as Poesias Completas de Manuel Bandeira, e Líricas de Camões ; outra irmã, Anaci, me comprou Os lusíadas,  edição especial,.com uma boa introdução.

O poeta Paulo Machado já me deu o prazer e a honra  de sua visita,  como também, Robervan Du Nascimento.

Paulo Tabatinga vem aqui uma vez por outra, e descobriu Grande Sertão Veredas no fundo de uma estante. Mandou que eu reservasse  o livro para ele. Botei- o em cima do balcão e coloquei  um marcador dentro,com um aviso:  vendido Não digo o preço para não espantar o leitor. Vale. E além do mais tem algumas páginas sublinhadas. Não me esqueci da presença do professor Mac Dowell  que apareceu  na companhia do `Paulo. Olhou os meus livros e do alto do seu conhecimento de literatura   elogiou o meu acervo. Apareceu  também o David  outro amigo do Paulo e comprou – me alguns livros, entre eles me lembro bem de  Decadência do Ocidente.de Osvald Spengler e dos Ensaios de Montaigne. 

Convido o leitor a dar um passeio pelo  espaço de meu sebo. Não é obrigado a comprar nada. A gente pode conversar no meio dos livros e arrotar erudição, ou ler, sossegadamente, uma orelha, ou admirar o desenho das  capas.. Às vezes se compra livro pela impressão que a capa sugere ou  pela magia do titulo.

 Esse  inicio de mês arranjei uma nova freguesa a quem dedico essa parágrafo. A historiadora e poeta Olivia Candeia que veio  me procurar para me fazer uma entrevista     sobre a resistência estudantil à Ditadura e a minha participação política  durante a década de 60 como militante da AP. Conversamos bastante. Ela gravou tudo. Pois está pesquisando para a sua tese de doutorado. Trouxe para mim a sua tese de mestrado, e duas coletâneas de poesias. E comprou alguns livros, inclusive Província Submersa. Pode acreditar leitor. Foram baratos.


Izânio








A MORTE DO GAROTO

HOJE SOU EU QUE ESTOU EM CRISE
Hoje tive uma manhã tranquila na Clínica da Família. Só dois chamados para matriciamento em Saúde Mental. Os pacientes que sempre me procuram a toda hora não estavam hoje. Achei que, como estou me despedindo, os pacientes já estão se acostumando com a minha ausência. Estranho. Sai para o almoço até mais cedo do que de costume.
Não consegui voltar. Não tinha percebido que desde a manhã algo estava no ar prenunciando uma invasão à favela. Já tinha percebido esse estranhamento em situações anteriores. Dessa vez não. Voltei do almoço ouvindo uma música clássica não percebendo o que já se anunciava desde cedo. Na Avenida dos Democráticos, quase em frente à Cidade da Polícia, alguns policiais apontavam armas para uma viela da comunidade conhecida como Conjunto Habitacional Provisório II. Num átimo fiquei pensado nos nomes como sempre faço: democráticos, assim ao poder de pistolas e fuzis? Provisório que já dura uma eternidade e vai até mudar de nome pela Clínica para que o provisório se perpetue. Eu, que conheço bem a geografia daquele lugar, sempre soube que um tiro contra a comunidade no meio e no fim da viela não é bala perdida. Ela vai achar alguém. Ouvi alguns estampidos. Os policiais atiraram. Parecia que não só eles. Sai de um estado de torpor quando carros à minha frente começaram a dar meia volta. Automaticamente fiz o retorno, inclusive já orientado por policiais.
Tentei contornar pela Avenida Leopoldo Bulhões que fica em frente a Escola de Saúde Pública da FIOCRUZ, mas compreendi porque ela é também conhecida como Faixa de Gaza. Senti que tinha entrado numa zona de confronto aberto. Outra vez fiz um retorno na contramão em companhia de ônibus, caminhões de entrega e muitos carros que deixaram a via engarrafada. Mas tínhamos que sair de onde vinha uma fumaça. Se protesto ou confronto era uma confusão que não dava para querer saber.
Recebo mensagens de amigos, pelo celular, para não voltar para a Clínica. Segundo informaram a UPP mandou fechar a Clínica. Como fazem os traficantes, mandam fechar o comércio e as instituições públicas para que haja o confronto. Estou em casa, seguro, escrevendo essa nota.
Soube da morte de um menino de treze anos perto do campo de futebol. Ele não pode recuar como fiz. Ele mora onde morreu, na porta de casa. Tive acesso a um vídeo que mostra a população revoltada com a polícia e no final o corpo do menino. Vejo o vídeo várias vezes, pois inúmeras vezes andei naquele espaço conversando com senhoras na porta de casa, homens alegres na birosca, meninos soltando pipas.
Reconheço alguns barracos onde já entrei para atender meus pacientes em visita domiciliar. Reconheci a varanda onde atendi alguém há poucos dias. Não sei se já entrei na casa do menino. Mas descubro horrorizado que logo verei outra mãe em situação de desespero. Desespero por uma situação sem saída e humilhante. Situação de impotência frente a políticas de estado que abalam a saúde mental de uma população marginalizada. Algo deve ser feito, pois está tudo errado. A situação de “enxugar o gelo” de uma dor sem fim não é sustentável.
É preciso que as ações de saúde sejam muito além do saber médico. É necessário que enfrentemos a dor da humilhação, que as situações sem saídas possam falar do sentimento que é ser morador de favela, é preciso parar com essa situação idiota da guerra às drogas, é necessário fazer destas pessoas cidadãos dessa cidade, é preciso fazer os direitos humanos universais valerem também na favela.
Só assim começaremos a restabelecer a saúde mental destas pessoas sofridas. É inócuo receitar antidepressivos!

(EDMAR OLIVEIRA, postado no facebook no dia do acontecimento, 8 de setembro). O vídeo abaixo suscitou o desabafo: 



video

https://fbcdn-video-o-a.akamaihd.net/hvideo-ak-xfl1/v/t42.1790-2/11960838_606733736131478_38861969_n.mp4?efg=eyJybHIiOjE2ODMsInJsYSI6NzAwLCJ2ZW5jb2RlX3RhZyI6InJlc180MjZfY3JmXzIzX21haW5fMy4wX3NkIn0%3D&rl=1683&vabr=935&oh=de2884189012883ad0b22566c9563825&oe=55F1A2EA&__gda__=1441898850_6ba44eca623127310da641190b7abcb0

Paulo Tabatinga












Um protesto do HOMEM DA MÁSCARA DE FERRO contra os burocratas da cultura de Teresina:

O descaso da Lei A Tito Filho


(por Bernardo Aurélio)

Há muito tempo hesitei em escrever sobre isso. Não escrevi. Quis dar tempo ao tempo. Enquanto uma porrada de conhecidos diziam: “Esquece isso! É dinheiro perdido”, eu continuava acreditando que uma hora daria certo, que o bom senso venceria e que a migalha prometida para projetos culturais seria entregue aos proponentes selecionados.

Mas vamos do princípio: tenho dois projetos aprovados na Lei A Tito Filho, um de 2009, intitulado “Quadrinhos Pós-68”, de R$17.107,00 e outro de 2012, chamado “Reanimando Arnaldo Albuquerque”, de R$ 22.573,00. São quase R$40mil. Parece muito? Não é! No edital de 2012 foram prometidos R$1milhão de reais, divididos para 35 projetos.

A informação que eu tenho é de que nenhum desses 35 projetos foram pagos, que, sequer, foram feitos os contratos entre os proponentes e a Fundação Monsenhor Chaves (FMC). Não estou afirmando isso de forma alheia. Lembro que fui, no começo de 2013, até à FMC perguntar sobre o porquê de eu ainda não ter sido chamado para assinar um contrato com eles sobre um dos projetos aprovados em 2012. A resposta que tive de alguém do setor jurídico foi: “porque ainda estamos devendo editais anteriores e não vamos fazer isso”. Ou seja, a FMC já estava devendo vários pagamentos de editais anteriores e não pretendia comprometer-se em mais R$1milhão com novos projetos. A questão é que o edital foi lançado em 2012 e 35 novos proponentes foram contemplados. É muita hipocrisia lançar um edital e depois dizer que “não podemos assinar com vocês o que prometemos”. Estavam lhes resguardando esse direito de não se auto incriminarem legalmente, afinal, sem um contrato assinado, pouco podemos fazer.

Mas a lista dos projetos aprovados em 2012 continua disponível no site oficinal da FMC.  



Entretanto, ter um contrato assinado com a FMC não parece significar muita coisa, já que aquele órgão encarrega-se de perdê-los ou ignorá-los. Sim! A FMC perdeu meu contrato de 2009, perdeu o processo duas vezes, inclusive a prestação de contas que tinha feito da primeira parcela, recebida com quase 3 anos de atraso. Menos mal! Recebi uma parcela, prestei contas, mas não tenho mais expectativas em receber a 2ª e 3ª parcela, indispensável para a concretização do projeto (vale ressaltar que dividir os projetos em 3 parcelas já é ridículo por si só! Com o dinheiro previsto para minha 2ª parcela eu não poderia fazer nada, a não ser esperar o dinheiro da 3ª parcela para puder pagar o custo de impressão do meu livro, objeto do projeto).

Há algumas semanas fui ao escritório do presidente da FMC, o sr. Lázaro do Piauí, falar sobre isso. O projeto “Reanimando Arnaldo Albuquerque” está acontecendo por conta do esforço de pessoas como Neila Rocha e Maiça Chaves, ambas do Projeto de Ilustração e Animação – PIA – UFPI.  Elas estão arcando com todos os custos porque possuem todo o interesse pela arte do Piauí, cuidado esse que a FMC e a própria Prefeitura de Teresina não demonstram. Fui até lá explicar ao Lázaro que o produto do projeto Reanimando Arnaldo iria sair, inevitavelmente, mas que seria muito bom se a FMC fizesse valer o edital de 2012 e disponibilizasse os recursos previstos para que houvesse uma parceria entre todos nós que financiasse esse projeto e pudesse pagar toda a mão de obra envolvida. Acontece que o sr. Lázaro não é o responsável por desses editais, mas representa a instituição que os acometeu. Então, ainda espero que algo possa acontecer. Perdoem minha inocência.

Estive receoso de falar sobre isso desde o começo do ano porque em janeiro passado faleceu o Arnaldo Albuquerque, primeiro quadrinista a publicar no Piauí, e meus dois projetos aprovados na Lei A Tito Filho envolviam a arte dele.  Não quis parecer um oportunista utilizando a morte de Arnaldo como bandeira, mas quando penso que se os editais da FMC fossem levados a sério pelos gestores públicos, eu poderia ter homenageado este homem com dois produtos culturais sobre sua arte ainda em vida, e a indignação me sobressalta.

Por toda a arte que deixou de ser exposta ou produzida através da Lei A Tito Filho, por esses míseros R$1milhão de reais que parecem tão impossíveis para a cultura do município de Teresina, que desde 2012 parece ficar cada vez mais longe, espero que todos sintam vergonha. Todos! Inclusive eu.



Se você é um autor de projeto que esteja em situação parecida com a minha, proponho criarmos uma carta aberta e procurarmos algum tipo de processo coletivo, seja através do Ministério Público, seja por algum caminho que alguém conheça melhor que eu. Coloque nos comentários abaixo, seu nome, o nome e o ano do projeto que a Lei A Tito Filho está em débito com você.







domingo, 6 de setembro de 2015

نهاية

أحلام الغرقى




(Edmar Oliveira)

Em maio último escrevi aqui sobre os náufragos árabes que queriam entrar na Europa, fugindo da guerra civil em sua terra, patrocinada sempre por esses europeus que os rejeitam. Os interesses econômicos saltam fronteiras e circulam livremente. Gente não. Os civilizados podem bombardear as terras alheias, mas não aceitam quem foge da guerra. A Europa agora desenvolve um pensamento paranoico para justificar sua xenofobia: pode haver terroristas muçulmanos extremistas entre os invasores. O medo agora justifica a expulsão.

O que se pensava em maio, sobre uma maior tolerância dos europeus (por conta do protesto global), não aconteceu e a situação piorou: as estações de trem são fechadas para que os migrantes não possam circular, as fronteiras são reforçadas com arame farpado. Melhor que não desembarquem e o mar que coma seus corpos. Um caminhão frigorífico, com a inocente estampa de uma galinha, foi abandonado por traficantes de pessoas com setenta e um corpos em estado de decomposição. Nas estradas do leste europeu mais caminhões são barrados com suspeita de tráfico de pessoas. Uma foto patética mostrou um migrante espremido ao motor de um automóvel quando o capô foi levantado. A Alemanha propõe uma equidade na distribuição dos invasores pela UE. Alguns países, entre eles o Reino Unido, negam-se a receberem sua cota. A Europa vive um pesadelo. O medo se alastra. Os árabes são perigosos invasores, como nos tempos medievais.

Nesta semana uma foto simbolizou a tragédia: o corpo do pequeno Aylan, de três anos, devolvido pelo mar a uma praia turca surpreendeu o mundo nesses tempos de virulização de imagens pela internet. Aylan nasceu na Síria em guerra. Morreu, junto com o irmão mais velho e a mãe, numa tentativa heroica de chegar junto a parentes no Canadá para fugir da guerra.


Ali na praia deserta, banhado por espumas do mar, jazia o pequeno Aylan, devolvido a Turquia por uma Europa xenófoba. E aquela pequenina criança representava o árabe muçulmano radical que a civilização europeia tanto teme. O pequeno Aylan cresceu entre bombardeios de uma guerra que não chegou a entender. Também não teve tempo de entender porque o mundo civilizado não quis que ele brincasse sem medo de bombas. Nem soube que a velha Europa preferiu que ele morresse afogado, antes de crescer e cometer um atentado terrorista. Nem entendeu porque Alá não teve piedade de sua alma.    








Don Pepe Mujica por Antônio Máximo


DE PAIS E DE NOMES

(Edmar Oliveira)
desenho: Antônio Amaral

Tive um colega chamado Alan Kardec que jamais seguiu a doutrina do pai. Acho que por birra, o meu Alan Kardec se tornou protestante como a avó. Ia à Igreja Batista e queria que seu nome fosse João. Perdi contato com ele e não sei como resolveu a sua encrenca religiosa com o pai. Outro colega se chamava Thomas Jefferson e tinha orgulho do nome, sabia tudo sobre o homenageado do pai e queria, invejosamente, ser americano. Também não acompanhei o seu crescimento para saber o que aconteceu com tal idolatria.

Não conheci um menino chamado Lenine, mas o cantor e compositor conhecido destrambelhou das ideações paternas e ao invés de um político de esquerda foi brilhar na musica popular brasileira, com muito mais benefício para a humanidade do que se tivesse seguido a sina do nome desejada pelo pai.

Um Adolf Hitler de esquerda é quase um desafio freudiano à ordem paterna. Como tem um político chamado Freud que se tornou famoso por ser um dos aloprados nomeados por seu mentor político. Freud se remexeu na tumba.

Os vários Luíses Carlos que eu conheço, na faixa dos sessenta anos, parecem ser uma homenagem de seus pais ao Cavaleiro da Esperança. Conheci um Juarez que nunca soube quem era o Távora.

Atendi recentemente um Roberto Carlos, tão rei dentro da sua própria loucura, que criou um palco na comunidade para se apresentar na sua insensatez espontânea. Se seu pai queria um rei, ele se fez louco para mostrar que o pai estava nu no seu desejo. Lá em casa quem se parece com meu pai é um outro irmão, não aquele que carrega o seu nome.

E os filhos do meu avô protestante tinham todos os nomes de judeus do antigo testamento, mas se pareciam a árabes esmirrados da palestina. Nacif é um amigo carcamano (como os piauienses chamam os árabes) que se parece um gordo coronel nordestino criador de gado, descendente de portugueses.

O argentino Jorge Mário adotou o nome de Francisco, quando se tornou Papa, e de fato incorporou o espírito do despojado amigo dos pássaros, surpreendendo com o comportamento do santo, que os católicos admiram, mas não querem ser. Um amigo meu, quando adolescente, jogou fora sua carteira e documentos para seguir o exemplo de São Francisco e levou uma sova do pai. Ainda bem que não o levaram a um psiquiatra, pois acabou virando um. E não se tornou um religioso por absoluta falta de fé do seu pai.


Não tenho a menor ideia de como meus pais pensaram meu nome. Nunca perguntei e me acostumei com ele naturalmente. O Google diz que vem do germânico. Certamente meu pai não sabia disso lá nos interiores de Palmeirais. Mas cada irmão meu que nascia recebia um nome começado pela letra E. Quando não sabia mais chamou o mais novo com o nome dele e a mais nova com os nomes das avós. Pior que eu repeti nos meus filhos a mesma letra dos costumes nordestinos. Praga da sina.  



Salgado Maranhão

25)
Gosto quando em mim te alças(futurista e ancestral)
com tua aerodinâmica ostensiva, feito um guepardo
na caça. E se revisto a tua ostra secreta, é para 
arrancar teu coração do freezer. Busco em ti essa
lenda que aquieta os brutos. Busco a mim que me
deserdo em teus istmos, encerrado à escritura de
Eros. Ó selo de minha semente em brasa! Ó céu
desgarrado! Se em ti me acendo é para expandir
teus anéis(num ritual tão gentil quanto severo, em
que me ames pelo que te lacero).

SALGADO MARANHÃO
(Do livro Avessos Avulsos).

Augusto e Campos por 1000TON


Joca Oeiras por Gervásio em foto de Paulo Barros


Rua Rio de Janeiro


(Geraldo Borges)

               Eu moro na Rua Rio de Janeiro que nasce na Avenida  Duque de Caxias, e depois de uma subida não tão íngreme desce e morre na Rua  Magalhães Filho Faz parte de um conjunto de ruas que têm nome de estados, está paralela a  antiga Rua Bahia, que, hoje atende pelo nome de Petrônio Portela. Não sei se vão também batizar a Rua Rio e Janeiro com o nome de algum político da moda. Às vezes pega, nem sempre. Os correios cuidam disso, juntamente com seus antigos moradores. A Rua Rio de Janeiro tem a sua história, fica no bairro  Aeroporto, ou Primavera, algumas correspondências chegam com o carimbo da Primavera outras do Aeroporto.

 Em tempos bem antigos não passava de uma viela mal iluminada, cheia de terrenos baldios e algumas quintas, e que aos pouco foram invadidos e depois regularizados pela prefeitura.

Aos poucos  os novos proprietários construíram novas casas sob a orientação de arquitetos, engenheiros, mestres de obras, e do operário que mete a mão na massa. A rua ficou completamente habitada. Certo que ainda existem pequenas casas atarracadas, com apenas uma porta e janela, fundo de quintal, sem garagem, calçadas desnivelada, com buracos. Mas, a maioria, são modernas, habitadas pela classe media, com jardins, garagem, cachorros, cercas elétricas, vigias, que fazem ronda e apitam. Antes das cercas elétricas usavam-se cacos de vidro nos muros, e assim, o medo, refletia, e reflete na arquitetura da cidade.

Pervagando a minha rua em direção ao rio Poty, vou redescobrindo o seu mapa.
Do lado direito há um conjunto de casas do IPASE, toda mais ou menos iguais. Do lado esquerdo, existem mansões bem construídas, de mais de um andar, de portões fechados, campainhas, que também podem ser chamadas de cigarras, interfone, empregadas domesticas, jardineiros, piscinas, e quem sabe até mordomos. Nesse mesmo quarteirão encontra-se também uma butique onde a especialidade é vestido de noiva.

 Logo mais no outro quarteirão, do lado direito ergue-se um condomínio, depois vem um  bar, que fica numa esquina.

 Continuando a minha caminhada chego à casa de dona Princesa. Trata-se de uma pessoa que deveria ser homenageada, pois foi uma das pioneiras da venda de livro em Teresina. Se hoje existem várias livrarias na capital do Piauí foi graças a ela, seus filhos e o velho Nilo, seu marido. Foi na sua livraria que comprei os meus primeiros romances que me fizeram descobrir um novo mundo. Defronte da casa de dona Princesa existe uma distribuidora de bebidas vizinha à casa do meu amigo Santana, professor universitário. E que cuida e uns pés de planta na frente de sua casa.

  A rua está repleta de carros correndo. Atravesso uma rua e pego outro quarteirão  onde fica a Academia Paraguaçu, lugar onde as pessoas  vão curtir o corpo.

 Do outro lado esta a casa de seu Venceslau, com a sua oficina de sapateiro restaurador. Às vezes vou conversar com ele e vejo que a sua freguesia é grande.  Não é careiro. E agora com a crise continua mantendo o preço de seus serviços.

Defronte de minha casa existe uma fabrica de confecção. De tarde as operarias jogam retalhos dentro de sacos de plástico no lixo. Algumas mulheres habilidosas pegam os retalhos, que são de muitas cores, levam para casa, e fazem um trabalho de economia domestica com eles, transformam-nos em lenços, toalhas, guardanapos, toalhas de mesa.


Da minha casa para o fim da rua falta apenas um quarteirão, e é descida. Nele existe uma quitanda modesta, com a porta gradeada por causa de ladrões, e um salão de beleza. Parece que é mais ou menos isso. Abro o portão e entro. Bom.  Esqueci-me de dizer que tenho um sebo com livros novos e usados, e algumas obras raras.



Teresina por Izânio


VIOLAS NORDESTINAS

Madureira, Ivanildo e Cássio no Violas Nordestinas. Um pernambucano do Rio Grande do Norte; o outro, paraibano de pernambuco; e o terceiro, um baiano do Maranhão.

O SESC está promovendo já a 18ª edição do evento SONATA BRASIL. Dentro deste o importante VIOLAS BRASILEIRAS, no seguimento VIOLAS NORDESTINAS, que este ano percorre o sudeste e sul do país e no ano vindouro acontecerá no nordeste, centro-oeste e norte. Portanto chamamos a atenção para quem ainda pode contemplar o recital gratuito.

Na apresentação no Rio brilharam a viola caipira de Antônio Madureira, a viola Machete de Cássio Nobre e a viola de cantoria de Ivanildo Vilanova.

Madureira é um potiguar radicado em Pernambuco, tendo participado do Movimento Armorial de Ariano Suassuna. Violeiro, violinista e compositor, estudioso da viola, liderou o Quinteto Armorial. Cássio é um jovem maranhense radicado no recôncavo baiano, onde estuda a viola machete, instrumento português incorporado pelos descendentes africanos do recôncavo baiano, presente no samba de viola e no samba chula, variantes entre outras do samba de roda baiano. Ivanildo, pernambucano radicado na Paraíba, é cantador de viola, onde o instrumento marca o ritmo da modalidade declamada de improviso e na sua repetitividade acentuada permite o improvisador pensar nos versos num breve instante antes da declamação.

Três estilos diferentes, mas que se completam numa informação harmoniosa do recital primoroso. Esse eu vi. Confira a programação na página do SESC:

http://www.sesc.com.br/portal/site/sonorabrasil/2015/#firstPage

Por dentro da máscara de ferro


Da última vez que estive na terra, trouxe na bagagem algumas revistas de quadrinhos de Bernardo Aurélio, repetidas para dar de presente. Conheci o garoto em Oeiras quando ele me pediu pra trocar um exemplar do meu Ouvindo Vozes com uma revista dele sobre a Gerra do Jenipapo. Essa ainda conservo comigo porque ganhei na troca. Mas como comprei as revistas do Homem da Máscara de Ferro presenteei vários amigos que gostam de quadrinhos e devem apreciar essa obra prima. Não tenho mais a minha. Quem vier de lá que me traga outra. O Homem da Máscara de Ferro, um lanterneiro, que colocando a máscara de soldador se transforma num super-herói atrapalhado tem suas aventuras na cidade de Teresina. E quando ele está sem a máscara o quadrinho vira texto, porque o autor não pode conhecer a face do herói. Sacaram? Sensacional a criação de Bernado Aurélio. Quem é da terra e não conhece não sabe o que está perdendo!