domingo, 28 de dezembro de 2014

RETROSPECTIVAS


(Edmar Oliveira)

Este foi um ano duro para as previsões. Mãe Dinah morreu e o ano enterrou na literatura Gabo, Suassuna, Ubaldo e Manoel de Barros numa tacada sem dó nem piedade. Nos rostos da tv se foram o vozeirão de Paulo Goulart, as caras de Wilker e Carvana, as vozes de Marlene e Simonal. Até o Chaves preferiu morrer do que perder a vida.

Um avião da Malásia desapareceu com mais de duzentas pessoas, sem deixar rastro num planeta completamente escaneado por GPS. Parece mistério da antiga série de tv “Acredite se quiser”, apresentada pelo cavernoso Jack Palance. Alguém lembra? (Acho até que ele apresenta este ano maluco). E outro avião do mesmo porte e da mesma companhia foi abatido por um desentendimento entre nações pertencentes à antiga União Soviética. Numa briga de comadres que erraram o alvo (seria o avião do Putin?). Para variar, Israel massacra a Palestina outra vez. Desta vez bombardeando crianças refugiadas numa desmoralizada ONU. Uns malucos querem refundar um califato e o Estado Islâmico nasce em território conflagrado sob a égide do terror e tentando voltar à escuridão da idade média em meio às conquistas da tecnologia.

Aqui na terra tivemos eleições. Um avião matou um candidato, sua substituta morreu na praia do primeiro turno. Num segundo turno ganhou uma candidata que ameaça governar com alguns projetos de quem perdeu. O candidato que perdeu, perdeu também a cabeça e se juntou à direita mais atrasada comandada pelo Lobão. Ratos roeram o barril de petróleo da Petrobrás e os donos das empreiteiras (que para  terem maiores lucros alimentavam os ratos comissionados e os políticos) passaram o natal na cadeia juntos com alguns ratos. Mudou o Natal ou mudou a justiça? A Petrobrás parece desacreditada, mas o Soros tá comprando as sua ações baratinhas.

Eike Batista ficou pobre. O Brasil perdeu a copa no Brasil numa goleada de sete a um para a Alemanha. O Vasco trocou de lugar com o Botafogo. O glorioso viu a glória ir para a segunda divisão pela segunda vez.


Mas ninguém foi capaz de prever a última surpresa deste ano louco, bem no finalzinho: Obama e Raul anunciaram libertação de prisioneiros e reatamento de relações quebradas desde 1961. Obama confessa que não deu resultado e pede ao congresso americano o fim do embargo econômico. Num mundo devassado e sem segredos, as negociações ocorreram em surdina, com a intermediação do Papa Francisco, sem que ninguém no planeta pudesse suspeitar. O velho ditador não falou nada (será que ainda pode falar?), mas o povo cubano já comemora nas ruas. 1961 foi o ano que Obama nasceu e não fazia sentido manter essa asfixia ao povo cubano. E o Obama ganhou um Nobel da paz, que talvez agora tenta merecer.     

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desenho: Luiz Villa

CONFISSÕES ETÍLICAS


Às vezes desejo o que não pode ser

Às vezes amo o que não é possível

Às vezes quero tudo o que não tenho


Gosto muito do que finda

Mas sempre quero um pouquinho mais

Deixo o céu para os astronautas

Deixo o mar para os marinheiros

Deixo o poder para os que não sonham

Fico com o que resta

Como, por exemplo, uma amizade

Ou com uma bela canção brasileira

E uma cerveja estupidamente gelada



(Climério Ferreira)

Resenha

OLIVEIRA, Edmar.Terra do fogo. 1.ed. Rio de Janeiro, Vieira & Lent, 2013. 176p.


Com a maior parte da ação ambientada em Teresina, Rio de Janeiro,  e, numa  “cidadezinha perdida no Maranhão”, a  obra compõe a narrativa   de uma família piauiense  inter-relacionada à ocorrências de incêndios criminosos  que devastam a capital do Estado.  O tempo da narrativa se estende dos anos de 1940 até  o final dos anos 1980. A paisagem histórica é a ditadura de Getúlio Vargas,  seus agentes locais, e suas torturas na cidade. O romance se organiza como decifração de eventos dispersos na memória do narrador de primeira pessoa que os recupera na duração de uma noite, e lhes dá um sentido.

Começa com o relato  da viagem “ àquela cidadela perdida no mapa” – escrita no gênero “road- movie”- mostrando  um narrador descontraído , íntimo da paisagem lírica da infância, na busca dos elos perdidos. E continua no ritmo da busca de compreensão do que está velado por baixo dos panos, dentro das gavetas, e das reminiscências que voltam no momento da escrita.  Sente o cheiro do “café no copo de vidro” (p. 11), “ o café, ralo, fraco adoçado com um açúcar cor de areia não refinado! (p. 12). Neste seu reencontro com a imaginação, cria uma realidade real, um reconhecimento proustiano  (“Um sala de jantar que fui buscar na minha memória” – p. 23).

O narrador incorpora,  na obra,  lendas, contos de fadas, loucura, memória  e  acontecimentos históricos – matéria-prima da ficção. Os espectros (fantasmas do passado)  surgem a partir da leitura do “manuscrito” do tio Alarico que ativa as lembranças.  Neste processo, as cenas recuperadas aparecem vivas, intensas, os personagens apresentam as suas fisionomias  nítidas, os seus momentos de juventude, beleza (tia Jacy) ,coragem,  angústia e loucura (tio Alarico), inferno do sofrimento (fase em que Jacy esteve casada com o coronel Belizário), crueldade e disfarce (o Alemão).Neste percurso, recupera sua experiência existencial com o tio Alarico, recorda os “satélites russos” cruzarem o espaço, a tia Jacy de trinta de trinta anos (“jurava que tinha saído de uma tela de cinema” – p. 27), a vesperal no cine São Luis, o noticiário da rádio  Central de Moscou.

Nesta narrativa de ficção,   a memória torna-se mais importante que a realidade, produzindo o entendimento e a clareza do segredo, e até mesmo dos delírios. O narrador procura compreender a complexidade de sua família, uma vez que nem tudo é claro para ele. É em cima destas zonas escuras que ele trabalha, ou seja, escreve.

A geografia de Teresina e os eventos históricos , principalmente dos primeiros anos da década de 1940 (polícia local, as torturas sofridas pelos encarcerados, a presença de agentes da ditadura de Getúlio Vargas, as intrigas políticas)   encontram-se presentes, e se misturam ao passado dos personagens: tio Alarico, a protagonista tia Jacy, o Alemão (um personagem que apresenta suas ambiguidades, mas isto fica para os leitores descobrirem).

O fogo não é apenas o incêndio real que fustigou Teresina, na década de 1940, mas também o drama que queima os corações e mentes dos personagens: “ O meu inferno começava  no portão da fazenda, e o fogo ardia de noite na cama com as pancadas que me educavam na compreensão do que queria meu senhor e dono” (p. 119), “ Era como, e de fato, tivesse entrado no inferno para não mais retomar ao mundo lá fora. No inferno que me sentia melhor junto à brasa do fogão” (p. 120). Inferno de Jacy, mulher jovem, submetida à crueldade do marido fazendeiro . O narrador aciona o maravilhoso,  deslocando-o para a imaginação da jovem, um modo de neutralizar as chamas   que se abatem sobre ela. Em alguns momentos do romance, as labaredas da angústia e da paixão associadas à tortura atingem também o tio Alarico.

Romance instigante, marcado pela busca das lembranças e  desvelamento  de seus sentidos. A escrita se desenvolve como revelações dos segredos. Nele,  o narrador mantém  o “suspense” até o final, na medida em que as decifrações vão se dando ao longo da narrativa. É mais uma contribuição importante para formação do cânone da ficção  histórica brasileira, e piauiense, e para o conhecimento da memória cultural e  do imaginário  do Piauí, especificamente de Teresina.  

Francisco Venceslau dos Santos (Prof. Adjunto de Teoria da Literatura,  Uerj, aposentado, e Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia).





Louco (Hora de Delírio)



Não, não é louco. O espírito somente 

É que quebrou-lhe um elo da matéria.
 

Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
 

Aproxima-se mais à essência etérea.



Achou pequeno o cérebro que o tinha:
 

Suas idéias não cabiam nele;
 

Seu corpo é que lutou contra sua alma,
 

E nessa luta foi vencido aquele,



Foi uma repulsão de dois contrários:
 

Foi um duelo, na verdade, insano:
 

Foi um choque de agentes poderosos:
 

Foi o divino a combater com o humano.



Agora está mais livre. Algum atilho
 

Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
 

Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
 

Entrou agora em sua própria essência.



Agora é mais espírito que corpo:
 

Agora é mais um ente lá de cima;
 

É mais, é mais que um homem vão de barro:
 

É um anjo de Deus, que Deus anima.



Agora, sim — o espírito mais livre
 

Pode subir às regiões supernas:
 

Pode, ao descer, anunciar aos homens
 

As palavras de Deus, também eternas.



E vós, almas terrenas, que a matéria
 

Os sufocou ou reduziu a pouco,
 

Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
 

E zombando o chamais, portanto: - um louco!



Não, não é louco. O espírito somente
 

É que quebrou-lhe um elo da matéria.
 

Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
 

Aproxima-se mais à essência etérea.



(Junqueira Freire)

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foto: João Freitas Filho

a foto e o poema foram garimpados por Cinéas Santos

Junqueira Freire (1832 - 1855) nasceu e faleceu em Salvador (BA). Monge beneditino, sacerdote e poeta, Freire é autor de uma série de poemas acerca dos sofrimentos da vida religiosa.

1000TON


Torquato



Amar-te

A morte

Morrer

                                                                                  Paulo José Cunha, professor e jornalista


Naquela tarde abafada de agosto de1971 no banco traseiro de um táxi pela Avenida Atlântica, ele anunciou a decisão de morrer. Com os olhos vermelhos e pálpebras semicerradas, olhava a luz da praia: “Um homem deve morrer quando conclui sua obra, não há razão para continuar vivo”. Ao lado dele, pensando que aquilo não passava de retórica ou filosofia de botequim, eu ponderava: “Mas como saber se a obra ficou pronta? Será que alguém sabe quando a obra fica pronta?” Torquato não respondia. Lembrava a trajetória de personagens que morreram muito jovens. “Veja Jesus Cristo, Jimi Hendrix, Rimbaud, Janis Joplin, esse povo. Viu? É isso: terminou o que tinha pra fazer, vai embora!” Aos 27 anos, menos de um antes de abrir o gás, Torquato Neto falava da morte com a naturalidade de quem diz onde vai passar as férias. Pelo retrovisor eu conferia o rosto sério do motorista, atento ao nosso papo. Devia achar que éramos dois hippies drogados, cabeludos de merda, filhos de pais endinheirados que bancavam nossa porralouquice. Torquato estava alegre, apesar da dramaticidade do monólogo (que eu burramente entendia como diálogo e a cujo conteúdo não dava a mínima importância). Estava leve e decidido, e apenas navegava a bordo de um táxi que rolava por dentro da tarde. A tranquilidade dele, sei agora, derivava do fato de que a morte havia deixado de ser uma possibilidade para se converter em assentada certeza. Diante do dilema hamletiano do “ser ou não ser”, o “não ser” se fixara como roteiro sem retorno. A morte já não era aterradora nem se apresentava como a “indesejada das gentes” de que falava Manuel Bandeira. A personalidade dele podia ser tormentosa e angustiada, mas pelo menos essa questão estava resolvida.

Somente a partir dos textos que Wally e a viúva Ana Araújo recolheram dos guardados de Torquato para a publicação de Os Últimos Dias de Paupéria, aquela conversa de 40 anos atrás dentro de um táxi no Rio de Janeiro fez sentido para mim. Não, ele não falava simplória, poética, hipotética ou literariamente sobre a morte: falava dela concretamente, como objetivo a ser atingido.  Mesmo considerando as drogas que àquela altura consumia em quantidades industriais, a decisão da partida era antiga. Estava escrita na palma da mão, como expressaria numa de suas últimas letras.Tudo assim, muito simples, fácil, direto e sem receios. Suspeito, aliás, que receios em relação à morte nunca existiram. A atração irresistível ao “não ser” havia se convertido numa decisão explicitada em Todo dia é dia D, canção cujo nascimento acompanhei, ao som do violão de Carlos Pinto, em torno da mesa do apartamento em que Torquato vivia com Ana e o filho Tiago na Tijuca. Até dei alguns palpites, quando me perguntou o que estava achando. Disse que não gostava do verso “meu coração na bacia”, que considerava de qualidade inferior ao conjunto, e com cuja retirada ele concordou na época. Não sei se consta de alguma gravação. Parece que não, eu pelo menos nunca o ouvi. Todo dia é dia D contém metáforas tragicamente belas, como: “Desde que saí de casa/trouxe a viagem da volta /gravada na minha mão, /enterrada no umbigo, /dentro e fora aqui comigo, /minha própria condução”. Nada mais claro. Nada mais claro hoje. Na época, li a letra, ouvi a música, gostei do resultado e o acompanhava cantando a música na rua (Torquato adorava repetir suas composições mais recentes, pra fixar a melodia). O que não percebi foi que aquilo não era apenas a letra de uma música triste, como tantas outras. Era uma declaração escrita e assinada, com firma reconhecida: era pra valer. O homem que conversava comigo naquele táxi tinha um propósito irredutível. E o executaria pouco tempo depois, da forma que lhe parecia mais agradável. (Agora entendo porque ele, na cozinha da casa da minha mãe, em Teresina, gostava de abrir rapidamente a válvula do fogão, aspirar o gás e comentar, em tom de  traquinagem: “O cheiro é legal, lembra amêndoas, prova”).
Não era o cheiro das amêndoas o que o atraía. 

Dentro do táxi eu o escutava e ria, mudando de assunto. Na verdade, recusava-me a admitir que ele falava a sério. Achava que metaforizava sobre a morte de brincadeira, como várias vezes o vira fazer sobre outros temas. Ou escrevendo pra relaxar. Tal como uma vez em que o vi rabiscar dezenas de vezes a palavra macaxeira, que achava muito engraçada, numas três ou quatro páginas de caderno, usando vários tipos de letras, só pra passar o tempo. Ou como naquele dia, na casa de tia Dulce, quando perguntei a que se referia quando escreveu o verso ‘braço de ouro vale dez milhões’ (de Mamãe Coragem). E ele, às gargalhadas, confessou: “Nada, são só umas palavras aí, pra provocar...”.

De volta ao nosso táxi: “Olha aquele cabeludo dançando sozinho ali na calçada, Torquato! O cara tá doidão, olha só!” E ele, entre solene e irônico, ajeitando o cabelão: “A maioria dos cabeludos não saca que deixar o cabelo crescer é um ato de afirmação política. Encaram a droga do mesmo jeito. Fumam e cheiram só pelo barato. Uns babacas. Otários. Babacas. Babacas”.

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Torquato não estabelecia diferença entre vida e estética. Provou isso com a morte, questão transversal em toda a sua obra. O suicídio foi um projeto em processo, e não um “momento de desequilíbrio”, como já ouvi falarem por aí. Nem o resultado do desespero em função do sufoco político causado pela ditadura militar, como também já ouvi ou li. Nada mais falso. A morte sempre esteve na raiz de tudo, anunciada, premeditada e consumada.

Estava na cara que ele iria se matar. Só eu e a torcida do Flamengo não percebíamos, obnubilados pela retórica caudalosa, e por causa daquele jeito meio blasé, aquela mania de falar propositalmente em código para gozar com a cara da “assistência”. O papo no táxi parecia coisa de doidão, como o motorista também deve ter sacado. Aquele motorista igualmente não levaria a sério – como eu não levei – as menções explícitas à morte no meio daquela conversa alucinada em que misturávamos no mesmo balaio Jesus, maconha, cocaína, Jimi Hendrix, Mário Faustino, cabelão, caretice e repressão. Os detalhes daquele papo doido há mais de 40 anos me parecem hoje tão nítidos porque o próprio tempo ajudou a torná-los claros.

Em sua obra, a morte só algumas vezes aparece sob disfarce. Quase sempre comparece de forma escancarada. Poucas vezes, com temor. No máximo, como situação a ser evitada não pelo dano pessoal, mas pelo efeito que causaria, por exemplo, na família. Como escreveu durante internação no sanatório do Engenho de Dentro,“a morte não é vingança”, tentativa explícita de autoconvencimento. Ou: “É preciso não morrer por enquanto”, outra referência ao fato de que a obra não “estava concluída”, madura. Que ainda não havia chegado “a hora”.

Mas eis que de repente a morte se revela mais presente e mais antiga do que se imaginava. No livro O Fato & a Coisa, primeiro livro escrito e organizado por um jovem poeta que nunca o publicaria; e nas Juvenílias, compilação dos escritos de adolescência/juventude - a pulsão original de autodestruição como projeto se revela em sua gênese. Os dois livros foram publicados em edições especiais pela PLUG Publicidade, de Teresina, Piauí, em 2012, com prefácios meus. 

As conjecturas sobre a razão de nunca haver publicado qualquer livro são irreprimíveis. Pode ter relutado por preguiça, por falta de condições financeiras ou talvez por não enxergar razão em fazê-lo no instante em que sua obra já havia tomado rumo próprio; ou mesmo por excesso de autoexigência. Se foi por esta última razão, Torquato está em boa companhia. Cecília Meireles publicou aos 18 anos um livrinho de versos neoparnasianos chamado Espectros, que repudiou a ponto de nunca reeditar nem permitir que fosse incluído em sua bibliografia. Guimarães Rosa venceu um concurso de poesias promovido pela Academia Brasileira de Letras em 1937. Somente em 1997, 30 anos após sua morte, os poemas do livro Magma – que alguns críticos dizem não ter brilho - vieram a lume. Vinícius de Moraes renegou O Caminho para a Distância, publicado quando tinha 20 anos, em que revela culpa diante do desejo, posição “bem diversa daquela que o poeta em breve iria abraçar”, como comenta o crítico e acadêmico Antonio Carlos Sechin. Mário de Andrade rejeitou Há uma Gota de Sangue em cada Poema, publicado sob o pseudônimo de Mário Sobral, quando tinha 24 anos. Logo ele, que recomendava que nenhum escritor publicasse nada antes dos 25 anos... Há vários exemplos de escritores que publicaram seus primeiros livros e os republicaram tão modificados que mal se parecem aos originais. Cassiano Ricardo e Mario Chamie são dois exemplos lembrados por Sechin, que ainda aponta, em artigo publicado no suplemento Eu &, do jornal Valor Econômico (de onde recolhi essas informações), o exemplo de Murilo Mendes, que renegou não o primeiro, mas o segundo livro, História do Brasil (1932). João Cabral deformaria a edição original de A Pedra do Sono a ponto de suprimir os títulos de quase todos os poemas e sumir com alguns deles na íntegra. Por arrependimento ou sabe-se lá por quê, alguns poemas do livro retornariam com título e tudo numa edição de 1968. O livro misteriosamente voltaria (agora na íntegra!) em 1994. Ferreira Gullar percorreu caminho idêntico: suprimiu Um pouco acima do chão (de 1949) de seu Toda Poesia (1980). Só em 2008 o texto voltaria à circulação, ainda assim na forma de apêndice à sua Poesia Completa, Teatro e Prosa.

Já com Torquato a maldição da estreia não ocorreu porque não houve estreia. Nunca publicou livro em vida. A edição de Os Últimos Dias de Paupéria, organizado por Wally Salomão, e os conteúdos dos dois volumes da Torquatália, organizados por Paulo Roberto Pires, são póstumos. Ele não os concebeu nem deixou qualquer indicação de organização. Embora tivesse um livro pronto, escrito aos 17 anos, com índice e tudo (O Fato & A Coisa). A esse propósito, Paulo Leminski lembra que, “Como Buda, Confúcio, Sócrates ou Jesus, Torquato não deixou livros”.

Seja para onde se aponte a mira – para os textos de jornal, para os poemas, para as letras ou para os filmes – e se encontra a morte, recorrente, obsessiva, determinando a dinâmica da obra. Aproveito este espaço para falar dela e de suas ressonâncias na produção do Anjo Torto. 


TODAS AS LETRAS DA MORTE

          Nos escritos mais antigos e nos mais novos Torquato deixou pistas sobre a obsessiva relação que mantinha com a morte. Nas Juvenílias (reunião póstuma de poemas da juventude), aos 17 anos, já escrevia:
“(...)tenho que continuar pensando e ir guardando tudo,
para esconder em mim o falar e o olhar
e mais: a morte”

          A despedida é a metáfora recorrente nas letras que produziu durante a Tropicália. Mamãe Coragem, de 1968, abre com versos devastadores: “Mamãe mamãe não chore/ A vida é assim mesmo/ Eu fui embora/ Mamãe mamãe não chore/Eu nunca mais vou voltar por aí (...)”

          Todo dia é dia D, de 1971, é repleta de toques como: “Escorpião encravado em sua própria ferida/ não escapa, só escapo, pela porta da saída” (...). Ou: “Todo dia é o mesmo dia/ de amar-te, a morte, morrer”. Três da Madrugada, do mesmo período (hospedado na época no apartamento de Torquato, também vi essa letra receber melodia de Luiz Carlos Pinto) é provavelmente a sua mais triste composição, e uma das mais melancólicas peças da música popular brasileira. A certa altura diz, de forma crua: “Minha alegria cansada/ E a mão fria mão gelada/ toca bem de leve em mim”. Pra dizer adeus, de 66, a exemplo de Mamãe Coragem, abre com a metáfora da despedida (que só depois do suicídio permitiu leitura literal de seus versos, como reconheceu Edu Lobo, seu próprio parceiro na composição): “Adeus/ Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho (...) Nem é bom pensar/ Que eu não volto mais/ Nesse meu caminho”).

          Em Marginália II, de 67, o poeta revela, com todas as letras, o destino que sabia traçado: “(...) Conheço bem minha história/ começa na lua cheia/e termina antes do fim”.  Na quase desconhecida Dente no dente, de 72 (parceria com Macalé), mais uma menção cifrada: “(...)Lentamente, é nessa hora a hora/ que eu desejo o fim do fim de tudo”. E pra fechar, o final desconcertante do poema Cogito, que alguns críticos incluem entre os principais textos poéticos da língua portuguesa: “(...) Eu sou como eu sou/ vidente/ e vivo tranquilamente/ todas as horas do fim”.


A GÊNESE

          Em O Fato & A Coisa, as referências iniciais ao tema estão salpicadas em todo o texto: “Como não morrer de medo/ se esta noite é fera”.  Nos primórdios do poeta, a morte ainda o assustava: “(...) e um súbito medo de morrer, amor à vida, tolo”.

Abre parêntese: a influência do conterrâneo Mário Faustino se apresenta a partir da própria métrica do verso: “Azulejos retorcidos pelo tempo/ Fazem paisagem agora no abandono/ A que eu mesmo releguei um mal distante”. O mesmo ocorre com a influência de Drummond, inteiramente exposta em versos como “Entre o bonde e o desespero, ninguém preferiu o suicídio,/ e eu também fiquei”. Fecha parêntese.

Em A apresentação da coisa, novamente a morte ocupa o centro da fala: “Tenho que pensar/ tenho que continuar pensando/ e ir guardando tudo,/ para esconder em mim o falar e o olhar/ e mais: a morte, que é o que bate”.

          Por último, um excerto do poema Exodus, onde a fuga (eterna e repetida metáfora para o encontro com a morte) é apresentada sem subterfúgios: “Existe a fuga e isto basta./ Existe a fuga movida/ por este conhecimento/ da podridão desta coisa/ que diz chamar-se vida.(...)/ Pois que é preciso esta fuga,/ esta procura,/ este encontro”.

          No dia 7 de outubro de 1971, véspera da autointernação no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, Torquato encontrou um recorte no bolso, “escrito ontem cedo, ainda em casa”. Dizia: “quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. É difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. É chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo”.   
          A viagem da volta estava gravada desde a origem na palma da mão. No retorno da reunião de aniversário, num bar perto de casa, na madrugada seguinte ao 9 de novembro de 1972, fechou cuidadosamente as frestas do banheiro e abriu o gás do aquecedor, enquanto escrevia versos erráticos num caderno espiral.

Com o gesto confirmou (“e vivo tranquilamente/todas as horas do fim”) o que vinha anunciando desde que saiu de casa, com a viagem da volta gravada na palma da mão.

A obra estava pronta. Tinha chegado a hora de pedir um táxi e voltar pra casa.






Lobão por Máximo


Invenção do Olhar

Invenção do Olhar
Rosa Alice Branco, poeta portuguesa
do livro Soletrar o Dia



Não digas que eu eu não estava à janela                
que não foi para ti o que não viste.                        
                   

                   Há tanta coisa que não sabes, não digas.                                  
Um dia ver-me-ás à janela do ontem                    
                                          com a roupa que hei de vestir amanhã.    

                                                    Até lá pensa que me sonhaste.

Nem eu mesma sei                               
           o que fiz nesse dia.

Mas a janela guarda os meus dedos
             como tu me guardas.

O tempo é uma invenção recente. 
      Era uma vez essa mulher que viste.

Retira o vidro,
   a moldura, e não te esqueças de abrir o horizonte.

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garimpado por Paulo José Cunha

Palmeira com brinco de lua de Alexander Galvão


DA COSTA E SILVA


Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 – 1950), nasceu na cidade de Amarante, no Piauí, às margens do Rio Parnaíba, rio que passou a ser conhecido como “Velho Monge” a partir dos versos do poeta. Foi menino de brincadeiras rurais e banhos de rio, onde conheceu a alma do velho monge que separa o Piauí do Maranhão. Desenhava e era habilidoso com madeira, chegando a ser “santeiro”, ainda muito jovem. Mas já gostava de escrever versos, desde que aprendeu as primeiras letras.

Foi para o Liceu da capital ainda muito jovem e de lá para o Recife, onde começa o curso de direito, que só vai terminar muito mais tarde. No Recife é contaminado pelo a efervescência literária da época. No entanto já era feito poeta em sua terra, influenciado por livros de Verlaine, Baudelaire, Francis James, Mallarmé, Poe, Quental, Cesário Verde e Cruz e Sousa. Mas seu primeiro livro só é publicado em 1908. Testemunhas contam que o poema SAUDADE (encontrado no fim dessa nota) foi ditado (costume de composição do poeta) à colega de pensão no Recife em 1907.

Interrompe o curso de Direito para assumir um cargo público no ministério da Fazenda e para seu exercício morou em São Paulo, Maranhão, Minas, Rio Grande, Rio de Janeiro. Foi um peregrino em vida, tendo na velhice ainda morado no Ceará. Esse era o seu “ganha pão” para a composição de seus livros (Sangue, 1908; Zodíaco, 1914; Pandora, 1919; Verônica, 1927; Alhambra, 1925 – 1933, escritos finais). Há uma edição de 200 volumes de uma obra completa, publicada no centenário do poeta, ed. Nova Fronteira, da qual sou o feliz proprietário do exemplar de número 198. Mais três na minha frente eu estaria fora. Louvo a sorte e o presente de Assaí Campelo.

Tentou entrar no Itamaraty algumas vezes, mais era impedido pelo próprio Barão do Rio Branco, chefe daquela casa. Numa versão, Da Costa teria tomado corarem de saber o motivo do veto, se sempre fora bem indicado. O Barão respondeu que o Itamaraty queria homens sábios e belos. Dizendo que Da Costa “tirasse o seu cavalo da chuva” pela feiura. Na versão familiar contada pelo próprio filho (Alberto da Costa e Silva) o Barão teria dito ao poeta: “você é um homem de talento, com dom das línguas e presença pessoal. Mas não serve para a diplomacia, porque é muito feio”. E teria arrematado com crueldade (nas palavras do filho): “Da Costa, você parece um macaco”.
O feio piauiense, traço comum nos machos do sertão entre os quais me incluo, escreveu os mais belos versos do nosso cancioneiro e ainda é o autor do hino do nosso estado.

Viu duas edições dos seus primeiros livros esgotarem-se em vida, o que muito satisfaz a quem escreve. Dizem que ele próprio não tinha um exemplar de Sangue para presentear a noiva, sua primeira mulher. Na morte dela escreve Verônica, uma homenagem à amada, mas também à vida. Sua primeira filha do segundo casamento tem o nome da primeiro mulher nunca esquecida, Alice. Creusa, a segunda esposa é a mãe do grande poeta, historiador, africanólogo, membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, que tem boas lembranças infantis apesar do pai já velho e entrando em estado demencial. A partir dos anos trinta não mais compõe. Em 25 de julho de 1950 tem um infarto e é atendido pelo filho Mário, que é médico. Quatro dias depois parece adormecer nos braços do filho Alberto e não mais acorda. Mas já estava ausente de si há muito tempo. Porém seus poemas permanecem vivos nas lembranças de seus conterrâneos pelo tempo que o velho monge deixe suas barbas escorrerem até o litoral... (Edmar Oliveira)
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SAUDADE

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio ...
Saudade! Amor da minha terra ... O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho ... O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando ...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...   
As mortalhas de névoa sobre a serra...
                  .
Saudade! O Parnaíba - velho monge
As barbas brancas alongando ... E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra ...


(Sangue, 1908)  

domingo, 14 de dezembro de 2014

Um conto de Natal

Edmar Oliveira

Era esmirradinho, tinha uns dezesseis que pareciam oito, se muito. Tinha mãe, na cadeia, mas tinha, e filho da puta és tu. Maria mãe devia estar passando necessidades no presídio. Ele, Jesus menino, não podia fazer seu presépio vivo, como o de outros natais nas ruas daquela grande cidade.

Era preto, um pequeno menino preto com um gorro de Papai Noel. Mancava. Mais parecia um saci com uma camisa do Flamengo. E tinha um cachimbo. Pererê, a mágica que o deixava numa nóia em nuvem de fumaça que embaçava aquele presente que não existia. E a fumaça do cachimbo lhe levava as luzes de uma árvore de natal que nunca teve. E aquele montão de luzes da sua imaginação fazia um natal de brilhos, cores e estilhaços de um futuro que poderia ser diferente. Mas muito rápido as luzes iam e a nóia vinha na certeza de que o mundo todo lhe queria mal. Tinha que buscar outra pedra.

Como um zumbi, o saci mancava de uma perna que teimara em não crescer como a outra. Uma pedra podia fazer o cachimbo pererê fazer a mágica de tirá-lo deste mundo noiado, pois toda gente tinha medo dele. E onde estava a pedra que posta em fogo no cachimbo faria um pererê com esse mundo cruel que não tinha lugar pra quem não encontrava um lugar?

O crack mágico da queima da pedra no cachimbo pererê improvisado numa lata de coca-cola vazia. E aquela fumaça puxada com força e ainda com gosto gasoso da coca da lata vermelha cortava sua garganta, mas dos pulmões ia ao cérebro e como um passe de mágica fazia o mundo iluminado ficar bom, as luzes da árvore de natal piscar de várias cores e a música de natal invadir seus ouvidos para trazer Maria mãe muito perto, tomando o pequeno corpo do saci no colo acolhedor das carícias infantis que nunca teve.

Acordou noiado, junto ao lixo. O mundo real sem a mágica da fumaça do seu cachimbo tinha jogado o saci no lixo. Não é que não tenha futuro. Isso não conta. Ele não tem é presente. E era natal.  

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publicado em 2011, mas ainda atual. O saci ficou mais velho, mas continua no lixo que é o lugar de quem não tem lugar...    

Bispo do Rosário por Antônio Máximo

Nas telas do cinema já pode ser visto o filme "O Senhor do labirinto", sobre a vida do grande artista. O filme foi baseado no livro de Luciana Hidalgo, "Arthur Bispo do Rosário - o senhor do labirinto", ed. Rocco, Rio, 2011, edição revista. Vale conferir.

Paranóia

(Edmar Oliveira)
Boçalnato por Máximo

Quase meio milhão de cariocas deu a maior votação a deputado federal para uma excrescência de nossa atual política, o representante da extrema direita nacional, o guardião dos ossos dos rebeldes que ousaram contestar o regime militar de triste memória. Essa quantidade de mentes cariocas possibilita a carreira política de um energúmeno inominável que só a raça humana é capaz de produzir. Um ser abjeto capaz de matar um semelhante para impor o terror do seu pensamento fascista. Não me alinho dentre os que acham que a democracia pode permitir a expressão de um pensamento que nega a sua existência. Entendo que a democracia tem o dever de proteger a sua existência, tão duramente conquistada com o sacrifício de muitas vidas. Sou de uma geração que viveu a sua juventude sem esperança, porquanto a ditadura militar parecia se fazer sem fim. Uma experiência que não desejo ser vivida nunca mais, nem tampouco por meus filhos, nem por meus netos.

Mas saímos de uma ditadura sem os traumas necessários que agora foram apontados pela Comissão da Verdade, quando elenca a lista de culpados a partir do primeiro ditador, passando por todos os mandantes e executores. Por termos nos conformados com uma anistia recíproca – o recíproco aí concedido em causa própria pelos donos do poder – não acertamos as contas de forma devida com o nosso passado e isso permite que meio milhão de cariocas possa eleger um representante que prometa à nação que os anos de chumbos eram dourados.

Achando-se dono dessa montanha de votos, o deputado se transforma num porco chauvinista raivoso, homofóbico e se dirigiu recentemente a uma deputada esquerdista (ex-ministra dos Direitos Humanos) confessando “que não a estrupa porque ela não merece”. Sem qualquer comentário a uma construção de sentença que nunca imaginei ser possível ao mais degradante dos seres humanos, me surpreendo com a placidez com que a Comissão de Ética da Câmara dos deputados tem com este ignóbil sujeito, e não propõe sua imediata cassação por quebra de decoro parlamentar. Sou do tempo em que um deputado foi cassado por quebra de decoro apenas por se deixar fotografar de cuecas. Se este imbecil não é cassado imediatamente, temos que considerar que estamos diante de uma câmara indecorosa e conivente com a ofensa inominável. O que é lamentável para a nossa jovem democracia.

Rolou um abaixo assinado para pressionar a Comissão de Ética, com mais de cem mil assinaturas, mas estamos ainda longe do meio milhão que aplaudem essa figura execrável. Mesmo que a sociedade organizada cale a boca pública desse indizível sujeito, temo pelo expressivo numero de meio milhão.


E ando desconfiado no Rio. O meu vizinho pode ser um deles. O cara do bar na mesa próxima pode fazer parte desse exército. Estou apreensivo e a minha paranoia tem meio milhão de cariocas me perseguindo... 






Antes dos nazistas, Ceará tinha campo de concentração para pobres do sertão



Wilson Ibiapina

No começo do século XX, o Ceará criou campos de concentração para segurar os flagelados da seca para que não invadissem Fortaleza. O jornalista polaco Eduardo Mamcasz, que ouvia o pai dele falar de Auschwitz-Birkenau, uma rede de campos de concentração no sul da Polonia,  anexado pela Alemanha nazista, tomou um susto quando leu na Folha de São Paulo. Foi ele quem me chamou a atenção.  Será que os nazistas se inspiraram no Ceará?    
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Quando a lama virou pedra
E Mandacaru secou
Quando a ribaçã de sede 
Bateu asa e voou...”
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Foi aí, nos anos 30,  que os cearenses  abandonaram suas casas rumo a Fortaleza. Levas e mais levas de sertanejos  perambulando pelas estradas rumo à capital. Uns pegavam o trem, mas a maioria seguia a pé. Todos, com fome, com sede. Os mais fracos ficavam pelo caminho. A Folha de São Paulo dedicou  duas páginas para contar como foi que o Ceará criou campos de concentração no começo dos anos 30 para segurar os retirantes. Os cercados para confinar milhares de cearenses  e outros sertanejos de estados vizinhos, famintos, ficavam em seis municípios: Crato Quixeramobim, Senador Pompeu, Carius, Ipu e Fortaleza.  Os foragidos da seca eram colocados em currais cercados com  varas e arame farpado, próximos à estrada de ferro. Ali ficavam homens, mulheres, velhos e crianças, todos de cabeça raspada para evitar piolho. Alguns vestidos em sacos de farinha, com buracos para enfiar a cabeça e os braços.  A historiadora Kênia Sousa Rios conta no livro “Campos de Concentração no Ceará” que os cercados da capital viraram atração turística: “os visitantes doavam uma certa quantia em dinheiro aos enjaulados e dali saíam com a sensação de dever cumprido”.
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Fomos pioneiros
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O primeiro campo de concentração nazista -Dachau- foi criado em março de 1933 pelo governo de Hitler. Ficava numa fábrica abandonada próxima à parte nordeste da cidade de Dachau, a 15 quilômetros de Munique, no sul da Alemanha. Em 1932, um ano antes, em pleno governo de Getúlio Vargas,o Ceará  criava seus campos de concentração.
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Naquela época, Fortaleza via inaugurar o hotel Excelsior, um prédio que até hoje é considerado o maior em alvenaria do Norte e Nordeste. A cidade vivia momentos de progresso. O risco de ter a cidade invadida por miseráveis famintos e doentes enchia a elite de  pavor. A historiadora Kênia Sousa, escreveu num artigo que “a situação trágica mereceu uma atenção especial da burguesia caridosa e civilizada” Lembrando da invasão ocorrida na seca de 1877, o governo redobrou esforços para que a invasão bárbara jamais se repetisse. 
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Os alemães é que não sabem que essa história de campo de concentração é antiga no Ceará. O médico e escritor José Maria Leitão lembra que os primeiros campos de  concentração, no Alagadiço, em Fortaleza, Ceará, datam do fim do século XIX, coincidente com a famosa seca de 77 (1877), repetindo-se ao longo dos anos seguintes do mesmo século e entrando no XX.
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Rodolfo Teófilo conta na “Seca de 1915” que o campo pioneiro do Alagadiço, serviria de  piloto para os campos de 1930: “Era  um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados sete mil retirantes”. A comida lá era rezes magras que morriam de fome ou de peste.
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Naquele inicio do século XX era praticamente proibido ser pobre no Ceará, principalmente em Fortaleza. O jornal católico O Nordeste anunciava o dia 17 de fevereiro de 1923 como o Dia das Extinção da Mendicância. A partir daquela data ser mendigo seria contra a lei. As ruas e praças da cidade não podiam ficar expostas a graves perigos de ordem moral. Os infratores seriam enviados ao Dispensário dos Pobres, sob a patrocínio da Liga das Senhoras Católicas Brasileiras.  Quem  lembra disso?


pássaros


FORA DE MIM
VOAM PÁSSAROS
EU COMTEMPLO
COM TERNURA
ATÉ ONDE
AVISTA ALCANÇA

(William Melo)

Presente de natal por Gervásio


maquina


Paulo Tabatinga

a criança
se esconde atrás do poeta
que se esconde atrás do filósofo
que se esconde atrás do fotógrafo
que se esconde atrás da máquina
que se esconde atrás do mundo

O ABSURDO DAS CONQUISTAS

A arte francesa da guerra
Alexis Jenni
trad. Eduardo Brandão
Companhia das Letras
540 págs.

Luíz Horácio-Porto Alegre

A arte francesa da guerra título do romance de estréia de Alexis Jenni traz consigo o teor da obra, a ambiguidade. Com  uma generosa dose de condescendência deste aprendiz.
Tudo começa com uma citação de Pascal Quignard: o que é um herói? Nem um vivo nem um morto, um […] que adentra o outro mundo e volta.
E se a citação deflagra a narrativa, é por meio dela que  investigaremos a personalidade do  capitão  Victorien Salagnon, e ambiguidade é o que não lhe falta. Ex paraquedista durante a “guerra de vinte anos”, desenvolve um diálogo com um desocupado que vive recluso num subúrbio de Lyon. Por vezes distribui panfletos publicitários, o que lhe permite uma vida de duras limitações. Gasta seu tempo bebendo, fazendo sexo e assistindo filmes de guerra.
A arte francesa da guerra é a história do encontro desses dois homens. O ex paraquedista ensinará o “entregador de panfletos publicitários” a pintar, e este escreverá sua história.
O ex combatente tem nome, seu aluno será simplesmente “o narrador.” Ele revelará  os pensamentos de Salagnon, os horrores vividos na guerra, as atrocidades cometidas. Ao leitor a permanente dúvida, até que ponto o narrador concorda, tem prazer com o que ouve de seu mestre.
A história percorrerá quase três décadas de colonização francesa, Indochina, Vietnam, Argélia. Jenni não faz apologia do heroísmo. Ao seu ver, as  guerras de colonização são guerras sujas.
E  por falar em Argélia, é exatamente esse país que leva a comparar Jenni com Camus pois o autor de A peste  não pensava a Argélia  não francesa.



Muito foi escrito, pelo menos na França, sobre as  guerras de colonização, várias  histórias foram contadas e muito sangue foi derramado.
Se anteriormente Salagnon manchou a história, o chão, a vida, com sangue; no presente pinta telas com tintas inocentes. Tanto sangue, tanta tinta, seja no papel, seja na tela, que acaba espirrando no General De Gaulle, também conhecido como “o romancista”, pois mente com a maestria dos romancistas.
De Gaulle mentiroso? De  onde isso? Antes de maio de 1968,  o general afirmou que pensar uma Argélia francesa não passava de utopia, mas Argel fervia e logo se percebeu a possibilidade de uma amizade franco-muçulmana, admitiu então que estava diante de algo bastante possível.
Mas voltemos a Victorien Salagnon, o professor de pintura, e ao narrador, seu aluno.
Eles representam a selvageria colonizadora, as diferenças, o nacionalismo, a raça, o fanatismo. Com o inimigo a gente não fala. A gente o combate; a gente o mata, ele nos mata. Não queremos conversa, queremos briga. No país da doçura de viver e da conversa como uma das belas-artes, não queremos mais viver juntos.
Como amenizar isso tudo? Amor, arte, luxúria, são algumas possibilidades capazes de desarmar o ódio.
A arte francesa da guerra é um livro extraordinário,colocá-lo ao lado de Os moedeiros falsos, de Gide; de Desonra, de Coeteze é o mínimo que este aprendiz pode fazer.  Calma, calma, as histórias têm algumas coisas em comum, eu escrevi al-gu-mas. O livro dentro do livro, Gide, colonizador/colonizado, Coetzee. Sigamos, pois. Ocorre que a obra de Jenni , mais volumosa, mais repleta de aventuras,tem também mais tempo para abordar exatamente o tempo.O tempo das várias histórias e as transformações daí advindas.
Em A narração e o discurso Gerard Genette afirma que  a narrativa é uma sequência duas vezes temporal, onde percebe-se  o tempo da coisa contada e o tempo da narrativa, desse modo faz a distinção  entre o tempo do significado e o tempo do significante.
Diz Genette que uma das funções do discurso narrativo é  inverter  esses dois tempos, imbricando-os.
O teórico mostra, entre as consequências dessas diferenças temporais, a exigência de leitura diacrônica, uma leitura  onde se perceba “pelo menos um olhar cujo percurso não é já comandado pela sucessão de imagens” (GENETTE, s.d., p. 32).
Vale lembrar  que o tempo utilizado para narrar uma história é diferente do tempo do acontecido. 
Desse modo,algo que durou muito tempo pode ser narrado em uma, duas linhas, por outro lado um acontecimento aparentemente insignificante pode consumir páginas e páginas da narrativa. Podemos dizer que se trata de uma estratégia do autor no sentido de chamar a atenção do leitor, dar ênfase a determinados pontos da narrativa.
Mas tudo é guerra, mesmo em tempos de paz. Nos bares, nas filas.
A violência ao alcance de todos, a tortura; “o francês é a língua internacional do interrogatório”
A violência perpassa a narrativa de Alexis Jenni. O narrador pergunta ao ex combatente se ele torturara alguém, e seu mestre confessa ter feito pior, esquecera a humanidade.
Mas atenção, sensível leitor, embora o título este não é mais um livro a relatar apenas as atrocidades da guerra, A arte francesa da guerra também aponta o dedo para a xenofobia francesa, para a rota de fuga assinalada pela arte, seja a pintura, seja a literatura. O que for...se depender do homem estará sujeito a  manipulação, ao cinismo, a toda ordem de deturpações. Nada a fazer....é a nossa natureza.




AUTOR

Alexis Jenni nasceu em 1963 em Lyon.Formado em Biologia, é  professor de Ciência numa escola em Lyon. "A arte francesa da Guerra" é o seu primeiro romance, com o qual ganhou o Prix Goncourt em 2011.




TRECHO

Victorien Salagnon possuía um dom que não havia desejado. Em outras circunstâncias não o teria percebido, mas a obrigação de ficar no quarto o havia deixado diante das suas mãos. Sua mão enxergava, como um olho; e seu olho podia tocar como uma mão. O que ele via, podia reproduzir a tinta, a pincel, a lápis, e reaparecia em preto numa folha branca. Sua mão seguia seu olhar como se um nervo houvesse unido os dois, como se um fio direto houvesse sido colocado por equívoco quando da sua concepção. Ele sabia desenhar o que via, e os que viam seus desenhos reconheciam o que haviam pressentido diante de uma paisagem, um rosto, sem no entanto terem conseguido captar o pressentido.


GENETTE, Gérard. A narrativa e o seu discurso. Lisboa: Vega, s.d.