domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vovô viu a uva


(Edmar Oliveira)
Gervásio
Não tinha a menor noção do que seria ser vovô. Sempre foi uma coisa muito longe para ter que imaginar. Lembrava da minha experiência de neto. Meu avô Pedro Solano me acordava de manhã cedinho, cuidando para que minha mãe e minha avó não notassem, e me levava para assistir a matança de um bode, com o que eu já passara a noite sonhando. Ele era açougueiro em Palmeirais e vendia bode no Mercado. Eu passei muitos dias implorando para assistir a primeira matança do bode. Depois da primeira vez, muitas vezes fui com ele nessa aventura. Primeiro passava um café forte sem coar e com muita borra, adoçado com rapadura. Eu fazia cara feia, mas tomava o café de macho, como ele dizia. Depois ele dependurava o bode berrando de cabeça pra baixo numa forquilha e me repetia sempre: “daqui vem aquela frase ‘o bom cabrito não berra’, porque se fosse carneiro não tinha esses gritos”. Com um cacete certeiro botava o bode pra dormir e parar de gritar. Depois sangrava, tirava o couro, que espichava com talos de coco babaçu. O cabrito desnudo era esquartejado e ele me ensinava que o osso da parte traseira tem mais tutano que o dianteiro. Separava os cortes grandes que eram mais divididos no mercado.

Tá bom, sei que vocês estão escandalizados com a minha história. Os tempos são outros e nessa era do politicamente correto e impensável um avô fazer um convite desses ao neto. Mas declaro, defendendo as boas intenções do meu avô, que ele só queria passar seus conhecimentos de forma irresponsável para o neto, sem a preocupação de educar, que é uma tarefa responsável dos pais. Ainda tenho a declarar que assistir àquelas cenas de outros tempos não me tornou um serial killer, apesar de presenciar a matanças de bodes por um bom tempo e em série. Não me marcou, como o personagem do Silêncio dos Inocentes foi marcado pelo tio matador de carneiros. Nem me tornou uma pessoa insensível, perversa. Pelo contrário, acho que sou muito sensível aos dramas humanos, tanto quanto fui insensível com a matança do bode, que, aprendi cedo com aquele velho, era apenas o ganha-pão daquela família, além de se prestar a mais nobres das funções humanas, a alimentação. Tenho essas lembranças como dóceis e carinhosas, mesmo que vocês não acreditem. Ainda agora vejo o sorriso matreiro do Pedro Solano, com a barba por fazer, chiando e tossindo sem reclamar do enfisema que o matou. Sua arte era matar o bode, espichar bem o couro usando varas verdes que só depois endureciam, e dividir o bicho em cortes da perna traseira, dianteira, costelinhas, espinhaço, vazios, partes que aprendi a identificar ainda naquele tempo. E aprecio o cabrito como uma das melhores carnes, sem traumas e sem culpas.

A aflição que tive em ver meus filhos pequenos, que já choravam por uma responsabilidade minha ao nascer (pensava eu), não tive ao olhar ternamente meus netos, mesmo que esperneassem. Como disse um amigo meu, também vovô, com os netos é que a gente vai aprender que não vale o esforço e aflição dos pais preocupados com a responsabilidade. Se os filhos chegaram aonde chegaram, os netos podem ir muito mais longe. Pais são marinheiros de primeira viagem. Avôs já sabem até onde essa viagem pode ir. Antes do fim aporta na felicidade. Talvez se meu pai fosse o matador de bodes eu ficasse escandalizado. Mas como era meu avô, eu tinha certeza que aquele bom velhinho fazia a coisa certa. E fazia.

Agora eu entendo o “Vovô viu a uva” das cartilhas de alfabetização. Tudo é doce, uma verdadeira uva, na visão dos avós.
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E não se preocupem que eu não vou ensinar aos meus netos a matar bode. Mas apenas contar pra eles que carne não nasce no supermercado e que a culinária é arte que desenvolvemos para esquecermos que somos um animal predador.


Autorretrato




passei a infância
correndo atrás do sol,
pés descalços pelos matagais
por entre cascavéis e beija-flores....
cedo aprendi o milagre
das sementes: minha mãe
abria a terra
e eu semeava os milharais,
os campos de arroz e as colheitas.

- vim crescendo com a sarça hostil
sob a memória de crânios
sem nome.

quanto à poesia,
foi se alojando aos poucos
nos latifúndios do coração,
e se tenho as mãos
especializadas na confeitaria
das palavras,
vem da herança natural do ofício
de criar e engravidar as plantas.

José Salgado Maranhão 



 Do livro: A Cor da Palavra
Prêmio da Academia Brasileira de Letras – 2011

Narrativa em combustão

(Léo Almeida)

Acabo de ler, de uma levada, Terra do fogo (Vieira & Lent Casa Editorial, 2014), de Edmar Oliveira, e devo confessar que escrevo ainda no calor da leitura, portanto, relevem qualquer falha da minha reles análise da obra. Narrativa ágil, clara, instigante, o romance é uma prova de que, para se fazer boa literatura, não é necessário abrir mão de se contar uma boa história. Experimentalismo e vanguardismos a parte, a terra do fogo de Edmar Oliveira é o terreno de uma história bem contada, narrativa bem construída. Sua substância é a memória e sabemos que a memória é um bicho escorregadio e, no mais das vezes, não confiável. Quem empreende uma busca por fatos vividos há tempos, sabe muito bem o desafio que cenas e versões de eventos se lhes apresentam. Na verdade, e já me pego em paradoxo, não há fatos, mas versões dos fatos, como não há verdades, mas muitas delas, cada uma se clamando mais verdadeira. O narrador, diante dessa batalha ingrata, sabe que as coisas que lhe vêm à memória, não são mais as coisas brutas como devem ter se dado, mas passagens filtradas pelo tempo e pela re-visão do adulto. É sempre uma Viagem, com maiúscula mesmo, o processo de narrar o que a memória se nos oferece. Uma descrição magistral da dificuldade do memorialista encontramos no capítulo inicial de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. “Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Os outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de realidade” é o que nos diz um Graciliano memorialista e bem podia estar na pena do narrador de Terra do fogo. 

Edmar Oliveira sabe – ou pelo menos lhe é muito familiar - os segredos dessas ligações sinápticas da memória, mas mais ainda, pressente o turvo tubo televisivo em que os eventos se apresentam. Com a mão parcimoniosa do bom escritor, ele vai construindo o mistério que prende o leitor desde a primeira frase. Quem é Jaci? Quem é Alarico? Onde e o porquê dos incêndios? Esse triângulo de objetos dramáticos explode em histórias paralelas e personagens com registros históricos na vida piauiense de meados do século passado.

O livro quer tratar de um fato real acontecido na década de 1940, em Teresina. Habitações da periferia, em sua esmagadora maioria de madeira e palha, sofreram sucessivos incêndios. Além da perda de algumas vidas, a eliminação de um modo de viver. A partir desse drama social, Edmar resolve investigar os tais incêndios, tendo como pano de fundo as implicações políticas do Estado Novo nas vidas de seus personagens. A meu ver, os incêndios não passam de uma alegoria de um país em chamas. Apesar de nunca totalmente solucionado o problema, ou seja, seus causadores encontraram o descanso eterno sem que lhes houvessem identificado e aprisionado, sabe-se certamente quem são, quem foram e porque fizeram tal barbaridade. Um processo de limpeza social, de especulação imobiliária, de maquiagem de classe, se deu naqueles eventos. A combustão dessa tragédia é, pois, mera projeção dos incêndios provocados pelo estado opressor de Getúlio Vargas na vida social do país. As torturas, o exílio, as prisões sem justificativa, a prepotência do estado e a arrogância de seus “chicoteadores”. Ao tentar impor a força um país novo, moderno, Getúlio haveria de, necessariamente, acabar com o cenário existente. Se em Teresina, a decisão foi incendiar as choupanas caboclas; no Brasil foi eliminar, por prisões e tortura, qualquer maneira de pensar diferente. Lá, as habitações feias e maltrapilhas a sujar a paisagem da cidade que se queria moderna, linda como o Rio de Janeiro e Paris, como destaca um dos personagens, por sinal um braço direito do Estado Novo, não por acaso batizado de Alemão; no âmbito nacional a ameaça comunista, integralista ou qualquer “ista” que significasse não compactuar com o ideal de nação moderna de Vargas. A terra do fogo é o Brasil pós 1937, quando Getúlio elimina de uma tacada toda e qualquer pretensão de democracia e instaura o que seria chamado Estado Novo. 

As semelhanças históricas e ficcionais são evidentes e tratadas com a dose certa de drama e seriedade. As prisões e tortura de Alarico, do Enfermeiro e Cobra d’água, vêm bem ao encontro da prisão de inimigos do regime de Getúlio e nos remete, especialmente, à prisão de Graciliano Ramos que, cativo em Recife, foi enviado a Ilha Grande no Rio de Janeiro, em 1936, sem acusação formal, sem processo, sem culpa destacada. Assim como Graciliano, Alarico padecerá nas masmorras de Evilásio, a mando do Alemão, e será resgatado pela bela Jaci. O velho Graça terá na figura de Heloísa, seu anjo protetor em terras cariocas. Ambos, Alarico e Graciliano, intelectuais pequeno-burgueses alinhados ao comunismo, padecerão os carinhos da polícia política de Vargas.
A contaminação do real pela ficção, em Terra do fogo, é um ingrediente narrativo muito interessante. Promover a junção de personagens reais e fictícios não é novidade, mas é sempre algo muito agradável de se ler, quando bem construído. É esse o caso, a boa construção narrativa de Edmar Oliveira coloca o leitor em contato, guardadas as devidas particularidades narrativas, com uma espécie de “Forrest Gump” tupiniquim. Curiosa e patética a passagem em que Alarico tenta resolver seu drama com a intervenção do coronel Torquato Araújo, personagem histórico, chefe de gabinete do governador do Piauí (na verdade, o interventor do Piauí, homem de Vargas). Depois de longa espera em seu gabinete, a cruel fatalidade de que o coronel Torquato não poderia atendê-lo, pois sua filha Salomé acabara de parir Toquato Neto, ícone da cultura do Piauí e da Tropicália. O autor promove a frustração de seu personagem, justamente lembrando o nascimento do grande nome da poesia piauiense dos anos 1970.

Perdoem-me a sibilância da frase, mas a história de Jaci, por si só, já seria um romance inteiro. Ao optar pela construção do triângulo amoroso Jaci, Alarico e Alemão, e a presença de personagens orbitando o mundo desses três, entre eles os próprios incêndios - personagens mudos, porém eloquentes, o autor viu-se impelido a ser econômico. Refiro-me particularmente a possibilidade perdida de mergulhar na alma de cada uma dessas personagens, mas aí, seria outro o romance e não o belo Terra do fogo.

Crônica ficção e profecia



(Geraldo Borges)


               “ Um estrondo abala a terra
               A última bomba?
               Ainda não
               A explosão  demográfica ”           
   Cora Coralina,.

Não sou nenhum arauto ou pitonisa. Porém, o que me levou a escrever esta crônica, foi uma profecia. Ainda bem, que, toda profecia que se preza, termina não acontecendo. Por exemplo, o Apocalipse; até agora nada. Essa, a da minha crônica, será se vai acontecer? Ou ficará tudo no plano da ficção, como motivo para um grande romance histórico, uma nova epopeia. Uma grande jornada imigratória, demográfica...  Mas vamos ao fato.
Acreditem quem quiser, ou verifique. Está boiando na internet uma ambígua profecia. Mais ou menos nesses termos: se os donatários do mundo não conseguirem organizar o caos, colocar cosmético no coração dos seus semelhantes, inaugurar a paz, desarmarem as bombas, os mísseis, acabar com o conflito entre Oriente e Ocidente, vai acontecer uma Terceira Guerra de conseqüências nunca imaginadas, por exemplo, “trágicos resultados para as zonas costeiras, devido à elevação dos mares; e,nesse caso, as cinzas vulcânicas associadas as irradiações solares nefastas acabariam por tornar totalmente inabitável todo o Hemisfério Norte de nosso globo terrestre. Algumas pistas desses fenômenos já estão se desenvolvendo.Ou é apenas um prefácio de um romance de época?
E o que vai acontecer? Uma imigração em massa, de muitos povos. Isso já aconteceu na história. Não propriamente uma imigração. Mas, uma invasão a “mano militare.” A ONU acabaria por decidir a invasão das nações do Hemisfério Sul, incluindo aí obviamente o Brasil e o restante da América do Sul, a Austrália e o Sul da África a fim de que essas nações fossem ocupadas militarmente e divididas entre os sobreviventes do holocausto  do Hemisfério Norte.”
No que se refere ao Brasil o texto da profecia diz, entre outras coisas, que, “somente uma quarta parte de nosso território permanecerá conosco, soberano, apenas os Estados do Sudeste somados a Goiás e ao Distrito Federal.”
Tomara que tudo isso seja apenas ficção. Mas, pelo andar da carruagem, faz sentido. O diabo é que a ficção é irmã siamesa da história, toda mundo sabe que a lenda vira história e a história vira lenda. E Moisés saiu do Egito para a Terra Prometida, pelo menos está na lenda e na história. E o Ocidente acredita. Ou faz de conta que acredita?

Bom. O que terminei de escrever é uma crônica de ficção baseada em um texto profético psicografado pelo médium Chico Xavier. Um mineiro, tão enigmático, como uma esfinge. Vejamos o que ele diz através do  espírito de  Emmanuel. (...) “as profecias são reveladas aos homens para não serem compridas. São, na realidade, um grande aviso espiritual para que nos melhoremos e afastemos de nós a hipótese  do pior caminho.” Assim seja. E paz na terra aos homens de boa vontade.
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desenho: Gabriel Archanjo

1 verso


O VERSO ATEU

Um verso sobrevoa catedrais
Ultrapassa púlpitos e altares
Pousa em naus, quebra vitrais
Se esparrama pelos patamares 

Um verso assim tão religioso
Que almeja o céu por salvação
É falso contrito e fervoroso
Sendo um verso ateu finge que não
(Climério Ferreira)

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foto de Paulo Tabatinga

ALEGORIA...


Lázaro José de Paula

ALEGORIA DA  INFINITUDE 
SEU  VOO É  GENEROSO  E  HUMANISTA
PRA  TRATAR  DE UM  CÃO  COMO  EU
COM  A  ENGENHARIA  DOS  SONHOS  E  DAS  LAGOAS
COMO   LANÇAMENTO  DA SUTILEZA 
DE  UMA  BOLA  ALONGADA  
POR  ISSO  MEU  CORAÇÃO  SENTE  TUA  AUSENCIA
O  ULTIMO  ATO  SERÁ  TAMBEM  O  ULTIMO   ARROUBO
O  TEU  PERCURSO 
INCONFUNDIVEL  DE ESTRELA   CADENTE
TERA  EU  COM  A  FACA  ENTRE  OS  DENTES     
PARA ALEM  DO  HORIZONTE

Rua Paissandu



A zona da Paissandu dorme

Durante o dia


Após a madrugada

As damas mal amadas

Descansam dos acoites

Dos carinhos da noite


Estanha profissão

De quem entrega o corpo

Mas não dá o coração.

(Geraldo Borges)

A ANATOMIA DA INFLUÊNCIA


(Luíz Horácio)

A Anatomia da Influência: Literatura como Modo de Vida pode ser lido como a biografia intelectual de Harold Bloom. A infância pobre  nos tempos da Grande Depressão, a vida acadêmica onde se notabilizou devido asou grande conhecimento acerca da poesia romântica inglesa. Mas foi na Universidade de Yale que começou a desenvolver seus estudos sobre a influência. A influência como fio condutor da história da literatura. Pelo menos no quesito poesia. O recente trabalho de Bloom é também a materialização de sua  obsessão sobre a criação literária. Os primeiros sintomas apareceram com  A angústia da influência, nos anos 1970, quatro décadas e tanto se passaram e Bloom volta ao tema que o consagrou como um dos grandes críticos da  literatura.  Tenho lá minhas restrições, embora as saiba irrelevantes diante desse oceano de súditos.

A anatomia da influência traz um Bloom que não cansa de olhar para trás, a se procurar, a se repetir, vira e mexe retoma o conceito de "Angústia da influência", que, grosso modo diz o seguinte: as grandes obras da literatura não resultam de uma ideia original, de um impulso criativo. Segundo o autor, as grandes obras são os frutos (sobreviventes?) da competição com aquelas que as precederam. Aqui o grande detalhe, frutos da competição, o que é muito diferente de repetição. E o que vemos costumeiramente? A repetição justificada como  influência. Um vexame.

Como toda teoria esta também tem seus admiradores e seus detratores. Convenhamos, a obviedade perpassa a maioria das grandes teorias literárias que nos assolam. Grande parte desse status devemos creditar aos nossos “brilhantes” professores universitários. Raros conseguem contestar essas teorias, basta que tenha grife. Aproveito para uma breve digressão, paciente leitor, experimente ler uma revista literária, americana, inglesa, francesa, tanto faz. Caso encontre resenha sobre livro brasileiro pago o ingresso para você ver um jogo do Flamengo no Maracanã. Livros argentinos você encontrará.

Reflexo do nosso atraso, de nossa obediência, e desse bando de escritores sem rosto egressos das nefastas oficinas literárias. Mas fulano e sicrano fizeram oficina, você dirá. E eu respondo que seriam escritores sem as oficinas. Fim da digressão. Voltemos a Harold e seu ninho de repetições.

 Agora ele  discorre sobre vários escritores, Milton, Joyce, Dante, Shelley, Leopardi, Epicuro, Lucrécio, Whitman, Lawrence, Wordsworth, Crane, Stevens, Yeats, Blake, Cervantes, Proust, Emerson, Browning. Deixa transparecer que cita essa seleção apenas para destacar o melhor; Shakespeare, a grande influência.

Shakespeare que não mereceu sua atenção em Angústia da influência por considerá-lo acima do bem e do mal, mas em edições vindouras se corrigiria, afinal de contas existiu Marlowe.


Em noventa por cento do livro o leitor perceberá Harold Bloom num tom professoral, didático e tedioso, numa tentativa de voltar ao passado e uma ode a concorrência criativa (literária, bien sûr), todo esse esforço de modo a permitir uma “correta” degustação do produto, a literatura.

Como um dos grandes criadores e defensores do estabelecimento de cânones, Bloom não nos deixaria sem essa, e vai de indagações acerca do significado de poemas  e sua importância, até os fatores que o conduzem ou o afastam do cânone literário. Cansativo e extremamente pessoal. A chave do enigma? A competição. Tal poema é melhor, venceu seus oponentes?  Simples não concorda, cordato leitor? Simples demais. Uma teoria. Uma teoria a ser contestada. Mais uma. Estamos diante da teoria de Bloom, o que não implica servir a todos em todas as épocas e todos lugares. Precisamos ser mais exigentes. É função da grife estimular o consumo. A grife HB é auto referente.

Por falar em competição, a teoria de Harold Bloom sobre a influência  tem, no entender deste aprendiz, dívida a não prescrever com Walter Jackson Bate que publicou The Burden of the Past and the English Poet em 1970. A angústia da influência foi publicada em 1973. Quem venceu? Para quem não conhece Walter Bate....

“A anatomia da influência" , 460 páginas plenas de repetição e didatismos que conduz o leitor a um exercício de extrema paciência, embora tal comportamento não o prive do cansaço, do tédio. A angústia da influência traz o melhor de Harold Bloom, sucinto, curioso, mesmo assim não significa que seja intocável. A obviedade é uma luz opaca que nem mesmo a  minha miopia de cinco graus se deixa engambelar. Não se deixa seduzir tão facilmente, pois em meio a tanta teoria onde fica o leitor?  Harold Bloom parece conduzir o leitor, seria o procedimento correto? Antoine Compagnon nos oferece algumas indagações.

Muitas questões são levantadas a respeito da leitura, mas todas elas remetem ao problema crucial do jogo da liberdade e da imposição. Que faz do texto o leitor quando lê? E o que é que o texto lhe faz? A leitura é ativa ou passiva? Mais ativa que passiva? Ou mais passiva que ativa? Ela se desenvolve como uma conversa em que os interlocutores teriam a possibilidade de corrigir o tiro? O modelo habitual da dialética é satisfatório? O leitor deve ser concebido como um conjunto de reações individuais ou, ao contrário, como a atualização de uma competência coletiva? A imagem de um leitor em liberdade vigiada, controlado pelo texto, seria a melhor?

Roland Barthes também confere importância ao leitor.

Ao afirmar que “o texto é um tecido de citações”(Barthes:1988) que podem ter origem em outros textos, Roland Barthes desmistifica o autor como criador do texto. Ao retirar essa carga de importância do autor, Barthes elege o leitor como aquele que seria o encarregado de dar sentido ao texto no momento da leitura: “O leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino”.

Caro leitor, sei que você não gostou daquele trecho onde falo do óbvio, eu entendo sua desaprovação. Mas e agora, após Compagnon e Barthes, o sentimento permanece?

 A anatomia da influência é o retrato do egocentrismo repetitivo de Harold Bloom e ao mesmo tempo um exercício de resignação a cruel passagem do tempo. Uma abordagem  nada sutil do tempo que levou alguns de seus contemporâneos, amigos e escritores notáveis. Um lugar, um espaço, onde Cronos- o tempo objetivo, concede a Kairós – o tempo subjetivo, a honra de dirigir algumas cenas. Kairós é o tempo dos afetos, pelo visto reside aí ponto G do cânone de Bloom. Enfim, curioso mas nada ingênuo leitor, a leitura de A angústia da influência já está de bom tamanho. A anatomia será sempre excesso.





TRECHO

Esquecemos nosso próprio poder imaginativo ao nos defrontarmos com o de Shakespeare e nos tornarmos seu monumento de mármore. Talvez seja impossível decidir quem encontrou a melhor maneira de enfrentar Shakespeare: Joyce ou Milton. O grande poeta e prosista irlandês e o maior dos poetas ingleses depois de Chaucer e Shakespeare nunca diferem tanto quanto em suas lutas com Shakespeare. O agon de Milton é mais misterioso do que o de Joyce, no mínimo porque somos levados a enxergá-lo através das lentes dos poetas românticos, cujas dívidas para com Shakespeare e Milton eram praticamente iguais. O Satã de Paraíso perdido não é um mero herói-vilão jacobino; ele é um ator, e poderia ter sido interpretado tanto pela estrela da companhia de Shakespeare, Richard Burbage, quanto por Edward Alleyn, tão eminente quanto ele, pertencente à companhia de Marlowe. Joyce escreveu uma peça ibseniana, Exilados, e era ele próprio ator e cantor amador de certo talento. Mas mesmo que Adam Unparadised (Adão expulso do paraíso) tivesse sido concluída ou que a irrepresentável Sansão agonista tivesse sido de fato encenada, teríamos ficado perplexos se Milton tivesse atuado em qualquer uma das duas. É, afinal de contas, uma questão de personalidade. Joyce podia ser tímido, mas se deleitava com a companhia dos amigos. Milton, política e pessoalmente, foi ofuscado pela Restauração. Shakespeare, um ator profissional que se enquadraria no que chamamos hoje de “ator de tipos”, lamenta em um soneto ter feito papel de bufão, e evidentemente desistiu de atuar enquanto preparava a produção de Otelo e Medida por medida.






AUTOR

Nascido em Nova York, em 11 de julho de 1930, Harold Bloom é professor titular de Ciências Humanas na Universidade de Yale, e já ocupou cátedra na Universidade de Harvard. Escreveu mais de 25 livros, entre os quais Hamlet: poema ilimitadoGênioComo e por que lerShakespeare: a invenção do humanoO cânone ocidental, publicados pela Objetiva, além de O livro de J e A angústia da influência. Ganhou o prêmio McArthur, da Academia Norte-Americana de Letras e Artes, e recebeu inúmeras distinções e diplomas honorários, inclusive a Medalha de Ouro de Crítica e Belles Lettres, conferida pela mesma academia, o Prêmio Internacional da Catalunha e o Prêmio Alfonso Reyes, do México.

Ecos da Chapada

É coisa de Teresina:
a declaração de amor
grafitada numa esquina.


(Cinéas Santos)


O Último Ponto

Lançado sexta feira, 14 de fevereiro, o livro "O Último Ponto" do piauiense Edson Monteiro. Já pode ser encontrado nas livrarias:


RELEASE distribuído pelo Autor:

O último ponto é o título bem pensado para o livro do piauiense Edson Monteiro. Logo na introdução, o personagem (ainda não apresentado ao leitor), em seu último suspiro de vida, deixa evidente suas intenções, ao refletir que “o importante da vida é ter a real noção da própria existência. Viva à vontade cada dia da vida”.

O livro conta a história do brasileiro Juan Carlo e do argentino Jean Lucka, que se conhecem em Buenos Aires e passam a dividir um apartamento. Com pouca grana e uma bagagem cheia de sonhos, eles vivem, de fato, cada dia como se fosse o mais importante. E, tendo como pano de fundo todo o romantismo dos cassinos e da boemia da capital portenha, os bailes, danças e jogos acabam sendo o passatempo desses estudantes.

Até então, parece que o destino está bem ao lado deles, ainda mais depois que ganham uma bolada em um cassino e partem para uma viagem em um transatlântico, rumo a Barcelona. Contudo, a maior competição ainda está por vir, quando, durante esta surpreendente jornada, os dois acabam se apaixonando pela mesma mulher.

Desse momento em diante, o leitor será envolvido em uma disputa inteligente, que vai além de cartas de baralho: diálogos bem elaborados em tom de competição e ironia passam a evidenciar em meio ao triângulo amoroso, sem deixar de lado, é claro, as indagações sobre a vida, o amor e o verdadeiro sentido de existir. E, em paralelo, acompanham-se as diversas aventuras proporcionadas por uma viagem inesquecível, até o último porto, ou, ponto final.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

DISCO RÍGIDO


(Edmar Oliveira) 

Esses cientistas maravilhosos e suas teorias voadoras! Leio nas folhas, aquela notícia fria que é publicada quando falta assunto, que cientistas revisaram a teoria sobre o esquecimento nos idosos. A gente foi convencido que a cada dia perdíamos neurônios e com isso a nossa capacidade de lembrar e associar fica mais lenta na proporção direta do envelhecimento.

Pois bem, agora cai essa tese. Novos testes dizem que a dificuldade de lembrar e associar é proporcional à quantidade de informação adquirida e, portanto, não são os neurônios que morrem os responsáveis, mas é a quantidade de informação que faz o pensamento ficar lento. E explicam a nova teoria com um modelo computadorizado: é como se o disco rígido dos mais vividos (não mais dos mais velhos, reparem na sutileza) ocupasse a memória disponível fazendo o computador de cada um rodar mais lento.

Invalidaram até os testes do século passado, como se eles não correspondessem à complexidade da informação atual. Na nova bateria de testes inventada, são os menos vividos que têm a dificuldade de associar e lembrar de fatos não vividos, mas só conhecidos pela leitura e estudo. A resposta dos mais vividos e que detêm mais informação são lentas, mas muito mais complexas e explicativas, nos novos testes, do que a resposta dos jovens que têm uma memória rápida, estupenda, mas vazia. Como um computador novo, que rapidamente abre os programas, mas não tem conteúdo para ser trabalhado.

Portanto, meus senhores e colegas de vivência, nós teríamos uma grande vantagem em relação aos nossos filhos e netos.

Mas ainda assim fiquei meio encucado: e essa quantidade de informação não tem perigo de travar, como acontece aos computadores? E a gente pode formatar algumas histórias mal contadas? Posso limpar a lixeira de lembranças que já deletei, para ter mais espaço? Assim como os arquivos temporários que ficaram aqui e que não quero mais? E quando vão inventar um antivírus para a demência ou o Alzheimer?

Por outro lado, agora quando esqueço onde coloquei uma chave, não lembro de um compromisso, passo batido numa data importante, posso explicar pela quantidade de informação que obtive na minha vida e não fico mais com medo de que o alemão estava me perseguindo. Até quando não lembro mais o nome dele.

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Para conhecer o assunto:
 
 

 

Já sou avô, em dose dupla. E beleza que ainda me lembro dos nomes deles: Lady Laura e Rei Arthur. Em charge magistral de GERVÁSIO, me preparo enquanto sou:

 



 

Vale a pena ler


Há muitas maneiras de contar uma história. Edmar Oliveira escolheu, em Terra do Fogo, a mais eficaz: aquela capaz seduzir e prender o leitor. A pretexto de narrar a história de um amor improvável entre Alarico e Jaci, o autor, na verdade, mostra-nos um dos momentos mais tenebrosos da história de Teresina: o início da década de 1940 quando a cidade ardeu em chamas. Sob as barbas de Leônidas Melo, interventor nomeado por Getúlio Vargas, perpetrou-se um crime hediondo contra a população pobre da capital do Piauí. Um pesadelo nunca visto antes nem depois. Curiosamente, até hoje a tragédia permanece mergulhada na penumbra. Com extraordinária competência, Edmar vai-nos revelando fatos, personagens e coisas que se perderam no tempo. Terra do Fogo, que já pode ser encontrado em Teresina, incorpora-se definitivamente ao rol da obras essenciais para a compreensão da vida dessa brava gente.

(Cinéas Santos)

ALQUIMIA

 
Para T.T.

Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei...
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.

(Salgado Maranhão)
______________________
 
desenho: Gabriel Archanjo

terra do fogo - UMA HISTÓRIA DE AMOR, DESENCONTRO E ESPERANÇA




Com a editora Cilene Vieira e o poeta Salgado Maranhão
Por Menezes y Morais *

Edmar Oliveira, médico piauiense, escritor, blogueiro e militante do movimento da Reforma da Psiquiatria, incursiona agora pela areia movediça da ficção: publicou Terra de Fogo, romance, com relançamento anunciado para 2 de fevereiro, às 14h30, no Bar Botero, Mercadinho de Laranjeiras, Rio de Janeiro.

“Em breve estarei em Teresina para um lançamento oficial”, informa o autor. No programa carioca de fevereiro, Terra do Fogo deve circular de mão em mão ao som das canções de Chico Salles & Chabocão e Convidados, além da falação e recital poético, comuns nesse tipo de evento cultural.

ATREVIMENTO FICCIONAL

Terra do Fogo é o terceiro livro de Edmar Oliveira. Os dois primeiros são os ensaios que tratam da prática de saúde mental: Ouvindo Vozes (Vieira Lent, RJ, 2009), e von Meduna (Oficina da Palavra, PI, 2011). Escrevemos uma resenha dessas obras em 2013, que podem ser lidas aqui nesta página. É só ir descendo o cursor.

Edmar confessa que Terra do Fogo é o seu primeiro “Atrevimento ficcional num romance-histórico regional”. Eu diria que é também depositário autobiográfico, pelas conexões de vivência do autor, com o cruzamento das pistas ficcionais.
Vejamos alguns indícios: Edmar nasceu no Piauí e vive no Rio de Janeiro, o narrador de Terra do Fogo também. Edmar passou parte da infância na cidadezinha Dezessete, interior do Maranhão. O protagonista de Terra do Fogo idem.

MAIS COINCIDÊNCIAS

Conforme Edmar, Terra do Fogo “carrega lembranças da memória e do afeto, com personagens reais e fictícios”. É dedicado “à memória da minha tia Jacira, uma mulher bem à frente do seu tempo”.

A personagem principal de Terra do Fogo é Jaci, tia-madrinha do narrador. Jaci, como Jacira, é à frente do seu tempo: a personagem ficcional, no afã de encontrar a felicidade, desafiou convenções sociais estabelecidas no ventre de uma sociedade ossificada pelo conservadorismo.

Edmar revela que empreendeu “... uma viagem sentimental por onde andou naquele chão (maranhense). Terra do Fogo resulta de um trabalho de pesquisa, de memórias marcadas pelo afeto, e da imaginação que aqui ganhou asas”.
Não é preciso dizer mais nada. Terra do Fogo é um romance com alta dosagem autobiográfica. Fato que não agrega nem desagrega valor estético. Não destrata nem trata o romance. Fim de papo.

CONFLITOS DE UMA ÉPOCA

Voltando ao “romance histórico regional”, o poeta e letrista maranhense Salgado Maranhão, que amadurecera estética e politicamente em Teresina (PI), afirma na orelha do livro:

“Em Terra do Fogo o leitor encontrará os ingredientes de uma trama romanesca instigante, onde os conflitos de uma época se misturam a dramas familiares que envolvem amor, lealdade e traição, repaginados pelo olhar de alguém que se redescobre nas pegadas da sua infância”.

Esse “Alguém” é o protagonista-narrador de Terra do Fogo. O leitor não sabe o seu nome, nem o que faz. Mora no Rio de Janeiro e vai a Dezessete (MA), onde viveu quatro anos da sua infância.

A tarefa do personagem-narrador em Dezessete é entregar ao professor Alarico um dossiê que copiara dos anais do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Para isso vai a sua casa, onde o dono do dossiê vivera feliz ao lado da sua Jaci.

NÚCLEO TEMÁTICO

O leitor toma conhecimento dessa felicidade pelo narrador de Terra do Fogo, que convivera com eles durante quatro anos da sua infância. O núcleo temático central ganha corpo na família Alarico/Jaci.

O narrador reencontra Alarico viúvo de Jaci há quase 20 anos. Alarico é um verdadeiro herói aos olhos da infância do agora adulto narrador. Jaci é o “anjo” de Alarico, professor de história e militante comunista.

Estéril, ao lado do amor da sua vida, que tivera três filhos de relacionamentos anteriores, Alarico dedica o afeto paterno irrealizável ao sobrinho da amada.

A semente de ternura que Alarico plantara no coração do sobrinho da amada frutifica. Incluindo o ideário ideológico, a mitificação da URSS-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

EM BUSCA DA FELICIDADE

A admiração que a personagem-narrador externa por Alarico, também se revela sobre outro prisma à tia-madrinha Jaci, personagem no mínimo memorável. Ela buscou a felicidade diuturnamente.

Nessa odisseia a procura de si mesma, Jaci pariu três filhos. Duas mulheres que ganharam vida própria, citadas de passagem na trama. E um homem, filho do nazista Alemão, persona de destaque na tragédia que nomina o romance.

Alemão é agente secreto da ditadura getulista, vai para Teresina com a missão de desbaratar os incêndios criminosos que ocorrem nos casebres de palha do povo, tema de destaque na historiografia e na literatura piauienses.

Os incêndios criminosos são históricos, ocorreram também no Rio de Janeiro, no Brasil monárquico, com o mesmo objetivo: expulsar os pobres para mais longe das zonas urbanas.

Com esses ingredientes – “Alguém” com suas lembranças, o dossiê, Alarico comunista, o “anjo” Jaci, incêndios criminosos em casas de palhas em Teresina, a ditadura do Estado Novo (1937-45), a mitificação da URSS, a guerra fria – Edmar tece a teia ficcional de Terra do Fogo.

TEMPO FICCIONAL

Não há diálogos na narrativa, feita na primeira pessoa. Toda a trama do romance escorre pelas lembranças do narrador, no espaço temporal de uma noite, onde mais de meio século de dados históricos são desfiados entre uma ação memorial e outra, canalizando as atenções do leitor.

Um detalhe gera curiosidade no narrador. Por que Alarico demonstra indiferença diante o dossiê? Por que pedira ao sobrinho-afilhado de Jaci que pedisse cópias ao Arquivo Nacional? O que continha àquela papelada?

O documento é um capítulo da história da prisão e tortura que Alarico fora vítima do Estado policial instalado no Brasil, corporificado em cada interventor estadual, para sustentação da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Alarico fora preso e torturado por agente de Getúlio, depois liberado da prisão graças à intervenção de Jaci, amante desse agente do Estado policial. Daí Alarico chamar Jaci de “o anjo que me tirou do inferno”.

Em liberdade, o professor do Liceu Piauiense se une a Jaci e migram de Teresina para a cidadezinha do interior do Maranhão. Quando conheceu Alarico Jaci tinha três filhos. Duas mulheres vivendo no Maranhão.

ÍCONES LITERÁRIOS

O filho homem morrera, quando “aparece” em cena pela primeira vez, na lembrança do narrador, está vivo e parece pular de dentro das páginas do romance. Trata-se do fantástico Afonso Henrique, que “desde cedo enlouquecera” e a diabetes o tornara cego. Convenhamos, é demais para um ser humano.

Terra do Fogo me remeteu a três ícones literários: Marcel Proust (1871-1922), Édouard Dujardin (1861-1949) e James Joyce (1882-1941). Em Proust, o aroma das flores de limoeiro, misturado à doçura do bolinho, desencadeia as memórias da infância.

O olfato faz jorrar a experiência sensorial que o leva a escrever a série de romances denominada Em busca do tempo perdido, com a qual, conforme alguns estudiosos, Proust inaugura o romance moderno.

Em Terra do Fogo, a paisagem da cidadezinha do interior, a casa da saudosa tia, a conversa com Alarico, a leitura do dossiê, deflagram um fluxo de memória do narrador. “... tinha voltado um pedaço de minhas memórias que eu não sabia que estavam comigo ainda”, diz ele, em solilóquio (pág. 11).

Com a leitura do dossiê o narrador monta o quebra-cabeça familiar Jaci/Alarico, a vida sentimental dela, a militância política dele, as injustiças sofridas etc.

Em Édouard Dujardin, o tempo ficcional na novela A canção dos loureiros (1888) acontece em um dia. O tempo ficcional de Terra do Fogo é mais minimalista: uma noite.

Joyce, no também mítico romance Ulysses (1922), o tempo ficcional se esgota em 24 horas, no qual desfilam temas como judaísmo, comunismo, paródias, pastiches. Terra do Fogo também fala de comunistas, judeus etc.

Joyce bebeu na fonte de Dujardin: A canção dos loureiros inaugura “o monólogo interior” na literatura. Joyce confessou a influência, no gesto de honestidade intelectual, ao poeta, crítico, escritor e tradutor Valéry Larbaud, autor da versão de Ulysses para a língua francesa.

O que demonstra: Edmar Oliveira tem um arquétipo literário exemplar. O minimalismo do tempo ficcional, a memória puxando a trama, a humanidade que imprime aos seus personagens, tudo é promissor num autor que nasceu em 1951.

MEIO SÉCULO DE HISTÓRIA

Terra do Fogo concentra em seu bojo mais de meio século de história do século XX. Fala em 1940 e 2001. Tempo que abarca ascensão e queda das ditaduras do proletariado (1917-91), do nazifascismo – Itália, Benito Mussolini (1883-1945), Alemanha – Adolfo Hitler (1889-1945).

No Brasil, o tempo histórico que imprime carnadura ficcional a Terra do Fogo se reporta às ditaduras de Getúlio Vargas no Estado Novo e do militares golpistas (1964-85).

O golpe militar teve apoio de alguns civis. Inclusive dos governadores do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, do Piauí, Petrônio Portela, do Maranhão, José Sarney, de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Depois Lacerda rompeu e foi cassado. Petrônio chegou a ser ministro da Justiça da ditadura. E Sarney, no Congresso Nacional, presidio o PDS, partido da ditadura.

LIXÃO DA HISTÓRIA

O nazifascismo foi pro lixão da história. No monturo histórico também estão as ditaduras estado novista e dos militares golpistas. E o comunismo que o professor Alarico apologizou ao narrador quando criança, também deu com os burros n’água.

A tentativa de mudar a desumanidade perversa e excludente do capitalismo via classe operária – ou concretamente pela sua vanguarda – redundou na maior falácia histórica do século XX.

A ditadura do proletariado desmoronou no mar de lama da tirania, dos campos de concentração, da corrupção, do atraso econômico, cultural e espiritual em 1989-91. O que existe neste surpreendente século XXI como o protótipo do comunismo são a Coreia do Norte, Cuba e China.

Cuba está mudando a passos de tartaruga, alterando o seu ainda incipiente capitalismo de Estado. A China é ditadura política e capitalismo de Estado, com a contradição e a perversidade excludente da mais valia. Por exemplo, as famílias chinesas que têm filhos dissidentes do partido comunista são fuzilados e recebem do Estado policial a fatura das balas.

Mas, as ditaduras não são eternas. “Nós que amávamos tanto a revolução” (Dany Cohn-Bendit), movidos pelo sentimento humanitário para pôr fim ao analfabetismo, à fome, à opressão, enfim, toda forma de miséria, de “exploração do homem pelo homem”, não sabíamos que a barbárie acontecia por traz da “cortina de ferro”.

REPRESSÃO MORTAL

Quando as denúncias vazavam da cortina de fumaça do “socialismo real” os dirigentes brasileiros, por exemplo, diziam que era “mentira da imprensa burguesa”. Mas a era tudo verdade. A repressão mortal e a mentira eram uma arma política do estado policial socialista.

Dirigentes-candidatos a tiranos como Luiz Carlos Prestes, não sentia escrúpulos em chamar o ditador Joseph Stálin de “paizinho”, “guia genial da humanidade” etc. Stálin fez de tudo. Até o ano de sua morte mandou fuzilar 20 milhões de opositores. Ultrapassou os colegas tiranos Benito Mussolini e Adolfo Hitler.

Hitler matou mais de seis milhões de pessoas nos campos de concentração, incluindo judeus (a esmagadora maioria), comunistas, pederastas, ciganos.

Mas, como dizia Oswald de Andrade (1890-1954), “o ponteiro do relógio da história gira pra frente”. Oswald ainda flertou com o Partido Comunista, na lua de mel com Pagu, pseudônimo da escritora Patrícia Galvão (1910-1962), autora do romance Parque Industrial.

ALERTA VERMELHO

Quem primeiro, até onde eu sei, fez o alerta histórico contra a tirania comunista foi Milovan Djilas. O dirigente comunista iugoslavo mostrou as entranhas do monstro por dentro em A nova classe (escrito entre 1954-7, publicado no Brasil em 1971).

Milovan Djilas foi preso e condenado a três anos de trabalho forçado porque criticou o comunismo. Escreveu A nova classe na prisão, de onde os originais saíram clandestinamente. Descoberto, foi condenado a mais sete anos.

No Brasil, o jornalista, escritor e dirigente comunista baiano Osvaldo Peralva (1918-1992) lança o clássico O Retrato (1962), hoje esquecido. Peralva foi repórter internacional, esteve na URSS no final dos anos 1950. Falava russo corretamente, viu as entranhas e os horrores da ditadura stalinista.

Conhecemo-nos em junho de 1988 numa feira do livro no Clube da Imprensa, quando Peralva me autografou um exemplar de O Retrato, onde entre outras coisas narra os porões da KGB, a polícia política da ditadura soviética.

“Não exagero, não invento, não pilherio. Aconteceu assim”, diz Peralva (página 103). O Retrato está fora de catálogo, mas pode ser encontrado nos sebos, inclusive virtuais. Quem quiser ler, ou imprimir, por favor, vai o link:
www.bvce.org/DownloadArquivo.asp?Arquivo=PERALVA_Osvaldo...

GULAG E A COZINHEIRA

O livro que faz mais repercutiu mostrando o leviatã sanguinário da URSS é o de Alexandre Soljenítsin, Arquipélago Gulag, publicado pela primeira vez em Paris, em 1973. A primeira edição brasileira é de 1976.

A obra documenta a barbárie dos campos de trabalho forçado da União Soviética, por onde sofreram na via crucies cerca de 66 milhões de pessoas, conforme Soljenítsin.

Quem também se debruçou sobre a (pré-histórica) repressão política do comunismo foi o filósofo francês André Glucksmann, em A Cozinheira e o Canibal, publicado na França em 1975 e no Brasil em 78.

“Os campos nazistas são sempre identificados. O câncer é facilmente localizado. E os campos russos? São russos e também marxistas?”, pergunta Glucksmann.

Lembro-me ainda dos artigos de Charles Bettelheim, publicados no Brasil nos Ensaios de Opinião em 1975, entre outros.

RÁDIO MOSCOU

Esse temário (comunismo e guerra fria) circula com desenvoltura no romance de Edmar Oliveira. O narrador de Terra do Fogo cresce deslumbrado com a apologia comunista que ouvira quando criança do professor Alarico:

“Lembro-me dele com quarenta e poucos anos me convidando para ouvir baixinho no seu potente rádio de ondas curtas, a rádio Central de Moscou. Um programa de catequese do país comunista feito especialmente para o Brasil, em português. (...) Sabia que era algo proibido, mas Alarico me convencia de que era algo bom e que iria mudar o mundo”, (página 19).

Mas, vinte anos depois, na noite insone na casa do querido viúvo, o narrador lembra que o “velho Alarico” constatara:

“Os regimes que se implantam pela força só se sustentam na repressão da sociedade civil, mas mais
cedo ou mais tarde agonizam, e as pessoas sentem alivio de terem vivido sob o terror...” (Página 158).

Enfim, o romance memorialista de Edmar Oliveira “é uma história de fogo e paixão”, diz o seu narrador.

Terra do Fogo é também uma história de amor e desencontros, de denúncia social e de esperança, de humanidade e de desumanidade, na qual Jaci divide com Alarico o protagonismo da certeza e da incerteza.

É semelhante à vida real.
Com Menezes e Marcos Freitas
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 *Menezes y Morais
Jornalista, professor, escritor e historiador.

SERVIÇO
Terra do Fogo (romance), Vieira & Lent Casa Editorial, 2014.
Capa: Alcides Amorim, sobre foto de Paulo Tabatinga.
Preço não revelado. 175 páginas.
VIEIRA & LENT Casa Editorial.
Local: Botero bar do Mercadinho de Laranjeiras.
Show: Chico Sales & Chabocão.

No Rio de Janeiro, Terra do Fogo pode ser encontrado no Empório das Letras - hall do Cine São Luiz, Largo do Machado; Blooks Livraria - hall do Espaço Itaú de Cinema, Botafogo (antigo Arteplex); Livraria Argumento da Rua Dias Ferreira, Leblon. Livraria NOBEL - Shopping Downtown, Avenida das Américas, 500. Livraria GNOSIS - Shopping Grande Rio, Baixada Fluminense. E nos sites:
www.vieiralent.com.br
www.livrariacultura.com.br
www.travessa.com.br
www.livrariasaraiva.com.br
Em Teresina (PI), na Toccata, e na Livraria Universitária do Riverside Shopping.

MUTANTIS MUTANDIS


SEREI  SEMPRE  A SELVAGEM   SERPENTE  SAGRADA
VORAZ  VENENO
SEREI  SEMPRE  O SEMPITERNO  SERENO
AMIUDE  AGUA  POUCA
SEREI  SEMPRE A  SEDE   DA  SÊDE
 
(Lázaro José de Paula)

Um assento no ônibus


(Geraldo Borges)
              

O dia estava nublado. Bonito para chover. Resolvi sair de casa e dar umas voltas pelas ruas da  cidade velha de Teresina. Eram mais ou menos oito horas da manhã. Peguei um ônibus lotado. Quando cheguei  no centro, as pessoas, ainda, estavam abrindo  as portas dos estabelecimentos. Foi até à beira do rio perto do Troca- Troca, e depois resolvi voltar para  casa.
No terminal de ônibus do  Mercado Velho, perguntei a uma moça, que  me chamou a atenção,  qual era o coletivo que passava em frente do hospital da Primavera.um ponto de referencia para o meu bairro. Ela falou que,  quando o ônibus chegasse,  me apontaria.
 Logo que acabou de falar o coletivo apontou. Ela disse, é aquele acolá. E saiu correndo, acenando-me para que a acompanhasse. Era uma moça  de cor preta, cabelos curtos, ombros redondos, pescoço alongado, cintura fornida. O rosto  zangado.Os olhos pareciam dois punhais.
                Quando o ônibus parou e o motorista abriu a porta, ela deixou que eu entrasse em sua frente. O ônibus estava praticamente vazio. Pois estava indo para os bairros da periferia. Já era mais de  dez  horas da manhã, E as pessoa que teriam de vir bater o ponto no comercio e nas repartições  já tinha vindo, como também  os estudante.
 Passei a catraca e me sentei; o lado do meu banco ficou vazio.  Havia muitos assentos vazios. Fiquei imaginando que a moça  viesse assentar-se ao meu lado Talvez eu estivesse carente. Não custaria nada iniciarmos uma conversa. Talvez ela desabrochasse um sorriso. Mas, a moça passou pelo corredor do ônibus, ao meu lado, indiferente. Ainda pensei em me levantar e procurá-la. Caso o seu assento ao seu lado estivesse vago. Eu a abordaria e me sentaria perto dela. Desisti.
O ônibus rodava   Eu observava as paradas. Gente saindo, entrando. Teria ela saído. E eu não dei fé? Acredito que não; ainda estamos  na zona metropolitana. Com certeza  ela é uma moça suburbana. Não me parece que mora no centro. A não ser que seja uma  empregada domestica e esteja se dirigindo à casa da patroa. Mas, nesse caso, está atrasada. Pois já são mais de dez horas. Pode ser também, uma moça de programa, que passa a noite fora de casa, e só volta no outro dia, ressabiada de homens. Pode ser. Mas está vestida, tão simplesmente, calça Jeans. Nada chamativo. O rosto sem pintura. O sorriso ausente. O que mais pensar? Eu pensava que bem que ela poderia estar aqui ao meu lado.
O ônibus corria. O barulho  da catraca em meus ouvidos, o  guizo da sineta pedindo parada. De  súbito me veio a mente o ônibus cheio. As pessoas se atropelando  na porta para entrar. Algum malandro se aproveitando do  excesso de  lotação para cometer saliências com mulheres. Isto me fez lembrar um caso, contado por uma amiga minha. Ela pegara  um ônibus muito cheio. Um cara, atrás dela,   logo se aproveitou da situação para meter uma coisa dura entre suas  coxas. Ela ficou surpresa, e disse  para todo mundo ouvi,  goza logo cara que eu vou sair na próxima parada.
Quando cheguei próximo da minha parada, levantei-me para dar o sinal, e fui me aproximando da porta traseira  quando  vi  a moça no fundo do ônibus  Sorri para ela.Não me correspondeu. Eu era apenas um estranho que tinha  lhe pedido uma informação, nada mais. Ela estava séria, encolhida, como uma corça acuada.  Achei estranho, muito estranho, aquela jovem ter se sentado no último banco do coletivo. E costume chamá-lo de cozinha.  Por que atravessar todo o corredor do ônibus vendo os bancos vazios ao seu lado e  assentar lá nos fundos, sozinha.? Estaria com medo de o ônibus ficar superlotado, e ela ter de enfrentar contatos lascivos
 

 

1 verso

 
O LUGAR & SEUS CHEIROS

 

São diferentes os cheiros daqui

Tem cheiro de terra quando chove

Tem o de folha quando esmagada

E os das frutas da época são bem fortes

 

São diferentes os cheiros daqui

O cheiro dos corpos suados

O cheiro dos corpos depois dos banhos

E o cheiro do sabão de cheiro

 

Pássaros mortos soltos no chão

Estrume de bois, de cavalos, de jumentos

Xixi de gente e de bicho

E o cheiro de melão de São Caetano

 

Do pequi, do buriti, do bacuri,

Da pitomba, do oiti, da ata,

Do umbu, da carambola

Tem cheiro de tudo por aqui

 

A gente não vive nesta terra

A gente vive neste cheiro

 

(Climério Ferreira)

In Memorial de Mim, editora Casa das Musas

Martelo recado

 
(Chico Salles)
 
Dizer que lugar longe é caixa prego
Ou então que bezerro é garrote
Chamar Cervantes de Dom Quixote
E que todo analfabeto é cego
Possa ser perdoado, eu não nego.
Falar que assistência é ambulância
É um papo de pouca substância
E assim prefiro sair de cena,
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.


Chamar o pederasta de baitoula
É falado muito assim no Ceará
Dizer que camundongo é preá
Que a base do tempero é a cebola
Falar que a cueca é ceroula
Que a origem do cheiro é a fragrância
É parecido mais eu sei que tem distância
Por isso não merece qualquer pena
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.


Chamar a fechadura de tramela
Ou dizer que o sapo é cururu
Que o lugar do caroço é no angu
Que o melhor do boi á a vitela
E que lugar de flor é na lapela
Que a frequência é o mesmo que constância
Que no feio também tem elegância
São as verdades da gota serena,
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.
 
As arenas romanas eram de areia. Os estádios...