domingo, 19 de janeiro de 2014

Machu Picchu


(Edmar Oliveira)
setor urbano da cidadela
 
Quando os espanhóis dominaram e saquearam Cuzco, quase na metade do século XVI, inclusive pedindo e recebendo o peso do Inca Atualpa em ouro (mas mesmo assim lhe decepando a cabeça) mostraram que o conquistador era um inimigo cruel. Inclusive em todos os templos sagrados dos nativos foram erguidas igrejas católicas impondo a fé cristã ao povo dominado. Os sinais eram claros de que a cultura do dominador seria imposta a ferro e fogo. Por essa época, os remanescentes das dinastias das elites quéchuas se refugiaram numa cidade inca perdida na selva. O segredo costurou os lábios dos incas e os espanhóis amargaram a derrota de nunca encontrar a cidadela perdida, apesar de saberem de sua existência.

Já quase no outono do século XIX um cartógrafo alemão registrou as montanhas, a velha e a nova, que no dialeto quéchua se falava Machu Picchu e Wayna Picchu. Mas a cidadela perdida entre as duas montanhas só seria vista pelos remanescentes dos conquistadores no alvorecer do século XX, quando um arqueólogo americano foi apresentado as ruinas de uma cidade que nunca deixou de ser vista pelos herdeiros da cultura inca: a cidadela perdida de Machu Picchu.

As ruinas atestam a força da civilização quéchua. Transformadas em patrimônio da humanidade impressionam até hoje. A cidadela está dividida em dois setores, o agrícola e o urbano. Os dois impressionam pela organização e arquitetura.

setor agrícola com observatório em 1° plano
O setor agrícola é dividido em planos, aproveitando a geografia da montanha com locais específicos para o cultivo de espécies que brotam em solos diferentes. A irrigação se faz pela força da gravidade a partir de uma fonte no alto da montanha. A água é acumulada na parte de trás do setor agrícola e a força da gravidade faz a distribuição nos planos destinados ao cultivo de cada espécie. E na variedade desse solo o milho, por exemplo, brotava em diversas variedades de cores e sabores, inclusive no vermelho, que faz a saborosa bebida chicha morada, usada antigamente nos rituais religiosos.

O setor urbano mostra uma fortaleza inexpugnável. Uma porta principal, como a de um castelo e janelas trapezoidais nas muradas com dupla função: ter um olhar do vale da montanha muito ao longe e ao curso do rio Urubamba, caminho natural que vem de Cusco; ao mesmo tempo em que o formato trapezoidal protege a construção dos humores de frequentes terremotos. Observatórios astrológicos apontam para o equinócio solar ou as constelações celestes, mostrando ainda um pouco de como era avançada a ciência dos quéchuas. Os templos, as construções de moradia atestam a perícia daquela civilização no corte da pedra e na sua montagem, que os mais inteligentes estudiosos ainda não desvendaram como eram feitos.

Ainda um mistério: a cidadela perdida foi abandonada por seus habitantes em algum momento do século XVIII, sem que os estudiosos da civilização ocidental tenham achado um motivo justificável para o abandono. Nenhuma catástrofe, nenhuma seca, nenhuma guerra, que são as razões que a nossa compreensão é capaz de admitir. O Piauinauta ficou rindo com seus botões: e se o abandono foi apenas para evitar a conquista e premeditado para conservar aquele vestígio de civilização para quando os conquistadores ficassem mais calmos e não precisassem “ganhar” a posse do conquistado? E para quando tivessem a paz para recuperar as ruinas? Os deuses incas são mais espertos...

porta principal com Wayna Picchu ao fundo
Na década de setenta o Erich von Daniken escreveu um monte de bobagens atribuindo as construções aos “deuses astronautas” porque a arrogância do colonizador não pode permitir que a civilização conquistada possa ser superior a sua. O Piauinauta ficou admirado com a arquitetura inca e a arrogância do colonizador incapaz.

 

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Algumas notas:

(1)    A comparação do inca ao incapaz espanhol foi feita por um quéchua a nós.

(2)    O quéchua é um idioma traiçoeiro: Picchu se pronuncia ‘pit-chu’ (montanha). A pronúncia ‘pichu’ significa pênis. E aí não é mais montanha velha, mas pau velho, o que provoca um sorriso maroto nas quéchuas.

(3)    A viagem hoje se faz em um moderno trem de Cusco a Aguas Calientes. Mas os aventureiros podem fazer trilhas de 15 dias, 7, 3 ou mesmo 1 dia saindo das várias estações que o trem para.

(4)    Machu Picchu é menos alto que Cusco (chegava-se rio abaixo e no vale se subia à Montanha Velha), o que não tem problemas de adaptação para quem chegou até Cusco. Não há motivo para não ir. Do vale até a montanha se faz em confortáveis ônibus. A trilha na cidadela é fácil. Encontramos uma senhora com bengala e um banco portátil, para descanso.

(5)    Hoje chega cerca três mil visitantes por dia. Na trilha da montanha velha para a nova só é permitido 400 pessoas por dia. E a trilha é muito íngreme. Claro que não fomos. Dizem que é a melhor vista da cidadela.

(6)    Por conta dessa quantidade de turistas, foi descoberto que a cidadela vem cedendo e afundando. As autoridades pensam em proibir visitas locais brevemente e substituir por uma rede de teleféricos. Agradeço pela oportunidade de pisar no solo sagrado quéchua.
- o rio Urubamba que corre desde Cusco e é o caminho.
- a vila de Aguas Calientes lá embaixo.
- daqui se ver a vila, mas a cidadela não é vista da vila.
- Machu Picchu ficou aqui escondida por mais de três séculos.
 

O MEDO & AS DANÇAS DA MORTE

 
(Climério Ferreira)

 

O medo povoa as danças

As rezas e os credos exóticos

 

O medo mora no que não sei

E o que desconheço é o limite da crença

A culpa impede o prazer

A vida escorre entre os dedos dos impulsos

 

Nada pode impedir que o susto

Irrompa na curva fechada daquele matagal

 

O medo é a geometria irregular

Das raras e esparsas nuvens

Que vagarosas passeiam no céu

 

O medo habita o olhar noturno

Que perscruta inutilmente chuvas

 

O medo é um modo de não ser

É o calafrio involuntário dos pelos

E os passos indecisos no caminho escuro

 

O medo é a noite e seus presságios

 
 
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In Memorial de Mim. Editora Casa das Musas.
Foto de Paulo Tabatinga

OS ABSOLUTISTAS por Gervásio



DÁ PRA VER

 
(Lázaro José de Paula)
 
DA  PRA  VER   A   NÓDOA
DA  NOITE NEGRA  E  IMPERIAL  DA  '' JUNGLE ''
COMO  DOSE  DUPLA   MERGULHEI  NO  TEU  COPO
E   IMBIOQUEI   NO  TEU  CORPO
APARANDO   TODAS     AS   ARESTAS
MISTURANDO  COMO  UM  COLIBRI   MALANDRO
AS  ESSENCIAS  FLORAIS
UM  LOUVA-DEUS    POSSUIDO   PELO  DIABO
CANTANDO  UM  VERMELHO   BLUES   DE   ALUGUEL
DE  RELANCE  AINDA  POSSO  VER     DE  SOSLAIO
UM     RAIO  RASGANDO   OS   CEUS
QUEIMANDO  O  MATURI   DO   CAJUEIRO
POR    INTEIRO  OS  MISTERIOS   DOS   MARES   SUL
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desenho: Amaral

TERRA DO FOGO

Junto com a próxima edição do PIAUINAUTA haverá novo lançamento da TERRA DO FOGO

VIEIRA & LENT Casa Editorial
BOTERO bar do Mercadinho de Laranjeiras
Chico Sales & Chabocão
e o Autor

convidam:

dia 02 de Fevereiro, domingo
a partir das 14:30 horas
Mercadinho de Laranjeiras
Bar BOTERO
durante o show de Chico Salles, conjunto Chabocão e Convidados

Re-lançamento do TERRA do FOGO
segunda chamada para quem perdeu a primeira

 
No Rio o livro pode ser encontrado:
 
Empório das Letras - hall do Cine São Luiz no Largo do Machado
Blooks Livraria - hall do Espaço Itaú de Cinema, Botafogo (antigo Arteplex)
Livraria ARGUMENTO da rua Dias Ferreira do Leblon
Livraria LOGOLAZ - Shopping Downtown, Av. das Américas, 500
Livraria GNOSIS - Shopping Grande Rio na Baixada Fluminense
 
e nos sites:
 



Em Teresina:
Na TOCCATA e na Livraria Universitária do Riverside Shopping
EM BREVE estarei na terra para um lançamento oficial

ÀS AVESSAS


(Luiz Horácio)
 

Já li e ouvi diversos professores/escritores, no ato insano de  ensinar a escrever romances. Falam dos personagens, do tempo, do espaço, do enredo que atualmente chamamos de trama, e uma série de outros aspectos. O incauto candidato gastará anos até conseguir se desvencilhar da sórdida rede de regras.

Arrisco dizer, caro leitor/futuro escritor que, em caso de almejar escrever algo diferente, evite os professores. Digo isso também por ter lido  Às avessas (1884), de Joris-Karl Huysmans (1848-1907). Você provavelmente não encontrará um enredo, não na forma que os professores costumam apresentar e se deliciará com um excelente romance com apenas um personagem. Nos cenários onde deveriam atuar personagens você perceberá obras de arte.

Pensou que este aprendiz assumiu sua demência? Ainda não.

As estranheza de Des Esseintes são reveladas por um narrador em terceira pessoa, narrador minuciosamente objetivo, preciso, seco, contrastando com certos achaques do protagonista. Às avessas mereceu uma edição em 1987, tradução do francês, de José Paulo Paes, a mesma utilizada na edição atual.

Além do prefácio, também de autoria de Paes, o leitor saciará sua curiosidade  com uma cronologia de vida e obra do autor. Ao final, um primor, Prefácio escrito vinte anos depois do romance. J.- K. Huysmans (1903) . O viés crítico continua, o leitor pode ler os comentários de vários autores, entre eles, Zola, Mallarmé, Max Nordau, e o trecho de O retrato de Dorian Gray, onde Oscar Wilde se refere ao livro de Huysmans .

Importante dizer que  Des Esseintes analisa várias obras ao longo da narrativa, algumas, inclusive, dos autores citados, mas não fica restrito à literatura, as artes pintura, a música também lhe merecem atenção. Des Esseintes, extremamente culto e libertino tinha como preferência, em se tratando de literatura, a decadentista, apreciava poucos autores, não seria exagero que se resumiria a Mallarmé, Baudelaire, Paul Verlaine e Edgar Allan Poe.

Mas quem é Des Esseintes?

Descendente de nobres, casamentos consanguíneos arruinaram a família, frequentou escolas jesuítas, adulto continuava admirando-os embora ateu. No momento, Des Esseintes completara  30 anos via-se em total paralisia, nada era capaz de motivá-lo, o tédio, o mal do século, o spleen, o abandonava apenas quando sua imaginação o fustigava com supostos problemas que, em acessos histéricos, pareciam-lhe insolucionáveis.

Um homem fino, dono de um rigor estético que o leva a desprezar  a mediocridade burguesa e o mercantilismo reinante, cansado de tanta orgia, já vitimado pela nevrose (assim se chamava a  neurose antes da psicanálise), Desseintes deixa Paris e se recolhe, na companhia de dois velhos criados, a uma casinhola  nos altos de Fontenay - aux - Roses, local afastado e sem vizinhos.

Ele farejava uma patetice tão inveterada, uma tal execração de suas, dele, ideias, um tal desprezo pela literatura, pela arte, por tudo quanto ele adorava, implantada, ancorada nesses estreitos cérebros de negociantes, exclusivament preocupados com vigarices e dinheiro e acessíveis tão só a essa baixa distração dos espíritos medíocres, à política, que voltava para casa e se fechava a sete chaves com os seus livros.

 

Breve pausa para refletir acerca do ofício de ensinar...

Eu vi, incrédulo leitor, ninguém me contou. Um professor ensinando a escrever um romance. Dividiu o quadro negro em mais de vinte partes e apontava o que deveria acontecer de modo a criar suspense  e manter o interesse do leitor. Cordatos os pupilos a tudo copiavam. Menos eu, que, nesse episódio não passava de um visitante. Nenhum daqueles atentos alunos, até o presente, escreveu coisa que preste.

Fim da pausa para refletir acerca do ofício de ensinar a escrever um romance.

Às avessas é um romance fascinante por uma série de motivos, mas um deles é extremamente peculiar: o fato de não acontecer nada, absolutamente nada.

Caso você prefira, meticuloso leitor, não acontecer absurdamente nada.

Ao final arrisco dizer que quase acontece. Des Esseintes  ameaça viajar à Inglaterra. Ruma  a Paris sob chuva forte, chegando lá dirige-se a um restaurante inglês, farta-se de comida e de bebida, logo desiste da viagem.

 

Estou saturado de vida inglesa desde a minha partida; seria uma loucura perder, por um desastrado deslocamento, sensações imperecíveis. (…) Vejam - disse, olhando o relógio - , mas chegou a hora de regressar a casa.  - Dessa vez, ergueu-se sobre as pernas, saiu, ordenou ao cocheiro que o levasse novamente à estação de Sceaux, e regressou, com suas malas, seus pacotes, suas valises, seus estojos, seus guarda-chuvas e suas bengalas, a Fontenay, sentindo o esfalfamento físico e a fadiga moral de um homem que retorna ao próprio lar ao cabo de uma longa e perigosa viagem…”

Des Esseintes é o personagem de Des Esseintes, e diante de tão peculiar criatura, duvido que você sinta falta de outro (s), solitário leitor. Dom Quixote seria outro sem Sancho Pança, menos interessante, sem dúvida. O herói de Huysmans tem parentesco com o herói de Cervantes.

O que é movimento em Cervantes transforma-se em passividade,contemplação, análise em Huysmans. O simplório Quixote encontra na arrogância de Des Esseintes o seu contraponto.

Por outro lado, enxugando Às avessas,isso se faz necessário devido aos exageros do autor, o leitor se verá perplexo frente a uma obra com ares de Esperando Godot, de Becket, de O estrangeiro, de Camus.

Nos três casos nos deparamos com o absurdo da existência humana, consequentemente das atitudes humanas, sem esquecer que Des Esseintes sofria de nevrose. Entediado dedicava-se à botânica, mas tédio não é coisa que ofereça trégua e o quixote de Huysmans exige uma criatura que se movimente, com lentidão, bien sûr. Uma tartaruga é a escolhida. A carapaça é coberta de pedras de modo a combinar com a tapeçaria.

Caso você tenha entendido como um reducionismo de parte deste aprendiz enquadrar Às avessas como exemplo do absurdo, perdoe, tentarei melhorar. Que tal um romance existencialista? Apesar da nevrose de Des Esseintes.

Seu desprezo pela humanidade aumentou: compreendeu enfim que o mundo se compõe, na maior parte, de sacripantas e imbecis. Decididamente, não tinha nenhuma esperança de descobrir em outrem as mesmas aspirações e os mesmos rancores, nenhuma esperança de acasalar-se com uma inteligência que se comprouvesse, como a sua, numa estudiosa decrepitude, nenhuma esperança de associar-se a um espírito penetrante e torneado como o seu, de um escritor ou de um letrado.

 

Às avessas é um romance de altíssimo nível, inclua-se a tensão necessária para tal classificação, tensão que o coloca na fronteira, não é bem isso e também não chega a ser bem aquilo, percebe-se um pouco de  naturalismo combinado com um tanto de simbolismo,resultado: obra além das classificações.

Atenção professores fiéis  às regras para se escrever um bom romance! Leiam Às avessas, não percam essa excelente obra, e continuem ensinando o bê a bá do romance. Não faltarão discípulos. Eu garanto.

       
    

 

TRECHO

A fim de desfrutar uma obra que juntasse, de conformidade com os seus desejos, um estilo incisivo a uma análise penetrante e felina, cumpria-lhe chegar ao mestre da indução, a esse profundo e estranho Edgar Poe pelo qual, desde o tempo em que começara a relê-lo, sua predileção não havia podido declinar.

            Mais do que qualquer outro, este era talvez o escritor que correspondia, por afinidades íntimas, às postulações meditativas de Des Esseintes.

            Se Baudelaire havia decifrado nos hieróglifos da alma a idade crítica dos sentimentos e das ideias, Edgar Poe, na senda da psicologia mórbida, esquadrinhara mais particularmente o domínio da vontade.

            Em literatura, sob o título emblemático de  “O Demônio da Perversidade”, fora quem primeiro espreitara esses impulsos irresistíveis que a vontade sofre sem os conhecer e que a patologia cerebral agora explica de maneira mais ou menos segura; quem primeiro, também, havia, se não, assinalado, ao menos divulgado a influência depressiva do medo que age sobre a vontade, assim como os anestésicos que paralisam a sensibilidade e o curare que anula os elementos nervosos motores; era sobre este ponto, esta letargia da vontade, que fizera convergir os seus estudos, analisando os efeitos de tal veneno moral, indicando os sintomas da sua marcha, as perturbações que começavam pela ansiedade, continuavam pela angústia, rebentando por fim no terror que entorpece as volições, sem que a inteligência, conquanto abalada, vergue-se.

            A morte, de que todos os  dramaturgos haviam abusado tanto, ele a aguçara de certo modo, tornando-a outra, nela introduzindo um elemento algébrico e sobre-humano; na verdade, porém, era menos a agonia real do moribundo que ele descrevia, do que a agonia moral do sobrevivente obsedado, diante do lamentável leito, pelas monstruosas alucinações

que a dor e a fadiga engendram.

 

 


 

AUTOR

Joris-Karl Huysmans nasceu em Paris em 1848, filho único de pai holandês e mãe francesa. Depois de uma infância marcada pela morte do pai e pelo segundo casamento da mãe, tornou-se funcionário administrativo do Ministério do Interior, onde trabalharia durante 32 anos. Passou a primeira metade da Guerra Franco - Prussiana no hospital, acometido de disenteria, e a segunda metade sob fogo cerrado, na capital sitiada. Quando se fez a paz, retornou ao Ministério. Três anos depois publicou seu primeiro livro, Le drageoir aux épices (1874), coletânea de poemas em prosa à maneira de Baudelaire. Voltou-se então para o romance, publicando Marthe (1876), Les soeurs Vatard (1879), En ménage (1881) e A vau - l’eau (1882). À rebours (Às avessas), publicado em 1884 e aclamado por Arthur Symons como “o breviário da Decadência”, marcou sua ruptura com o grupo Médan, de Zola, e o começo de uma tentativa de ampliar o alcance do romance. Seus outros romances são En rade ( 1887), Là-bas (1891), En route (1895) , La cathédrale (1898) e L’oblat (1903). Morreu em 1907

 

 

 

 

 

 

 

Lembranças

 
 
l-


Joguei tudo fora
não o carinho
a admiração
joguei o que inventei
a ilusão


ll-


Não era só 
a poesia
mas um banquete
um segredo
uma iguaria


lll-


Voltei pro mar
lágrima salgada
a mágoa
não foi inventada


       Lelê Fernandes
________________________
desenho: Amaral

Provérbios


Diz um antigo provérbio lituano que o cuspe de cego é latrina de saudade. Sempre achei muito profunda e viscosa essa máxima da sabedoria caucasiana. Hoje quero falar da verdade. Não de qualquer verdade ou dogma, mas da verdade que o povo traz em seus ditados e provérbios. Não é por acaso que meu vizinho, um velho turco, gosta de falar quando vê uma mulher bonita e grávida: “Se nada fosse como se vê, seria a viração do irreal na barriga das megeras”. Ele tem razão, claro que tem razão. Minha mãe, pessoa muito culta e que nunca frequentou banco de faculdade, é meu modelo de sabedoria plena. Dela, sempre ouvir dizer coisas do tipo: Você precisa azeitar o eixo do sol, quando me queria longe, ou então, você não tem no cu o que o priquito roa, quando queria despertar em mim um pouco de modéstia, um redutor da soberba. Há pessoas que “se acham”, são verdadeiras bostas ambulantes cobertas de belas roupas e perfumes caros. Tirando-lhes a camada de verniz, o que sobra? Um toletão malcheiroso e, pior, falante. Temos esse hábito maluco de querer ser o que não somos e isso me leva a outro provérbio muito apreciado na Escola de Miceto, no século XI, pouco antes da construção da Basílica de São Gervásio, em Ímola. Reunidos, os monges, quando um deles, sem poder segurar a força interior de seu intestino, entregue totalmente aos movimentos peristálticos e à fraqueza inexorável do esfíncter, peidou ruidosamente nas matinas de novembro, olharam-se pasmos. Uma afronta às preces. Não bastasse o fétido gás que exalara, percebeu-se seu desconforto dentro do hábito marrom. O que está havendo, irmão Bernardo de Varonese? Ele, um jovem noviço, muito tímido, respondeu: Irmãos, perdoem meus intestinos, eles não sabem o que fazem. E isso é muito comum na história da humanidade; por não saber o que fazem, os homens continuam fazendo merda a torto e a direito. Bem nos fala o ditado javanês: O homem é a máscara de sua própria fantasia desmascarada. E tenho dito.

 

Leonardo, o bofe

A luz da noite matinal.


 

Laudas da vida inteira

Nei Duclós em foto de Cesar Valente

(Nei Duclós) (*)


Não faz tanto tempo assim. O objeto tinha um carrilhão em forma de cilindro, que avançava para a esquerda sempre que nos aprofundávamos naquele ofício escolhido contra todas as evidências e conselhos. Os espaços entre as frases eram definidos por uma seqüência de estalos, ruídos mínimos nas redações barulhentas. Eu preferia os três espaços, que podem ser comparados à atual uma linha e meia do editor de texto. Sempre dava para acrescentar alguma coisa, corrigir, voltar atrás, riscar, sem comprometer a integridade da lauda. Era preciso economizar esforço, aproveitar a penosa colocação da folha no rolo compressor, não encher o cesto de frases mal começadas, palavras toscas, rabiscos.
As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.
Definido o espaço, colocava-se a lauda amarelada e pautada, com cabeçalhos do jornal da hora. Tenho coleção preciosa desses exemplares de uma civilização perdida, não que costumasse guardar meus originais que, como todos os outros, sumiam pelo buraco negro da revisão e da gráfica. Mas porque as usávamos para tudo, especialmente para, nas costas delas, abraçar o que tinha nos levado àquela situação: a literatura. Escritores que adiaram por mais de uma vida seus livros, acumulávamos pilhas de laudas escritas de poemas e pequenos contos, que formavam pastas. Outros tinham preferências diversas. Guardavam recortes de jornais, que ficavam empilhados pela casa, para futuros projetos e balanços, para desespero da faxina e das mudanças.
Fazíamos parte de uma estranha civilização que acreditávamos eterna. Éramos seres acumulativos e nossas gavetas eram a cultura marginal e perdida. Só uma parte dessa produção veio à tona ou sobreviveu para participar da grande rede. O resto ficou esquecido, guardado para um futuro alternativo, o tempo imaginado de uma época que no fim não se realizou.
As laudas nos identificavam. Um dia fui convocado para entrevistar o David Drew Zingg, o fotógrafo-filósofo, que eu, com minha indiferença vocacionada, não conhecia pessoalmente. Sempre cultivei, por inércia, essa percepção apartada do que chamam realidade. No miolo de todos os furacões, imaginava ser redundância ter que prestar atenção em cada detalhe, saber quem David era, o cara que levou a bossa nova para os Estados Unidos. Talvez isso eu até soubesse, mas não atinava com o rosto do artista.

Marcamos a entrevista num restaurante, desses sérios, que se freqüentam no horário do almoço. Não era nossa intenção beber o que fosse. Como não sabia quem era meu objeto de reportagem, dei meia volta depois de viajar num plano geral pelos comensais. Foi só eu me virar para ouvir alguém gritar meu nome. Como você me reconheceu? perguntei, curioso. Foram as laudas, disse ele. Esse maço de papel que você colocou no bolso de trás da calça.
Era um recurso inútil, pois por mais que eu caprichasse em meus garranchos nas conversas com minhas vítimas, jamais os decifrava quando chegava à redação. Fazia tudo de memória, pois a matéria se desenvolvia enquanto eu escutava, mais do que perguntava. Sempre gostei de ouvir e até hoje acho a pergunta desnecessária, a não ser quando o entrevistado é chato e é preciso intervir por pura vingança.
As janelas que se abriam nas rotinas das redações eram as personalidades que nos visitavam, o que nem sempre rendiam matérias. As redações eram espaços de convivência e de lobby. Como eu não atinava nos verdadeiros objetivos da visita, sempre achava que vinham me ver pelo que eu um dia escrevi nas costas das laudas. Mas eram visitas sinceras. Recebi na Folha o Cacaso, na Senhor o Paulo Leminski (com quem compartilhei uma cerveja com conhaque no meio da tarde em plena Lapa de Baixo) e houve uma época em era interrompido da minha faina (fechar, fechar, fechar) pelo mímico Ricardo Bandeira, que gostava de falar como ninguém. Gostei muito do teu livro, Outono, dizia Bandeira olhando para o infinito. É Outubro, eu corrigia, mas ele prestava atenção em algo mais profundo.
Mas o melhor era a convivência com escritores que existiam nas redações. Humberto Werneck olhava desolado para a paisagem suburbana que se avistava da Editora Três e ao som dos trens me dizia: Nei, você conhece algum lugar chamado Lapa que seja bonito? Veja o caso do Rio de Janeiro. E um como esse, que é Lapa de Baixo? Num almoço numa das biroscas que rodeavam a editora, um dia José o­nofre, autor do melhor romance policial brasileiro, Sobra de Guerra (L&PM Editores), tascou essa diante de um horrendo prato feito: Já pisei nisso, comer é a primeira vez. o­nofre proferia a máxima e dava crédito: era a frase de um filme de guerra.
No fundo esse era isso: estávamos em guerra. Nossa vocação lutava com o deadline. As palavras tinham lugar fixo e não são como agora, que somem pelo espaço virtual para reaparecer mais adiante. Éramos esgrimistas de uma língua estrangeira, que se tornou nossa por tradição e insistência. Submetíamos os textos aos mestres, que muitas vezes gargalhavam. Mas tudo acabava no bar.
- Nei, vamos lá embaixo parar de tremer? me dizia Markito (Marco Antônio de Moraes), depois de um fechamento pesado na Ilustrada. Colocávamos refrigerante na parte de cima do balcão e vodka na parte debaixo. É que às vezes éramos flagrados pelos capitães do jornal, que vinham bebericar algo. Cumprimentávamos com a cara lavada e mandávamos ver no destilado, depois temperado com cerveja. Essa era a rotina dos jornalistas do eito, os que seguravam a barra dos jornalões.
No dia seguinte, recomeçávamos colocando uma lauda na máquina e definindo o espaço. Mas no fundo, queríamos apenas rabiscar o que nos ocorrera na viagem até ali. Uma frase, um poema, alguma idéia perdida. Fomos assim, escritores ambulantes em lugares em que a literatura era proibida. Sem querer, adquirimos o vício da escrita diária, pois por trás dos textos que publicamos, existiam outros, ocultos. Os dois tipos cruzaram o tempo e podemos nos orgulhar hoje da maioria deles. Como irmãos gêmeos, que brigam o tempo todo, jornalismo e literatura foram a nossa faina diária, num tempo de guerra.
Nada parece verossímel, nesta época tão distante. Faz sim muito tempo. Mas o que é o tempo diante dos loucos que decidiram escrever para viver num país ágrafo? Parece que fazemos parte de um tesouro sem mapa, aterrado por milhões de palavras, que ao invés de nos sufocar, nos revelam.

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(*) Jornalista e bacharel em História, trabalhou em Porto Alegre, Blumenau,
São Paulo, Vitória e Florianópolis, onde é editor-executivo de duas
revistas. Fez parte de equipes da revista Senhor (semanal e quinzenal),
Folha Ilustrada, Jornal de Santa Catarina, “Aqui” e Folha da Tarde.
Garimpado por Paulo José em http://www.consciencia.org/neiduclos/laudas-da-vida-inteira

ROBERTINHO SILVA


No Rio acontece disso: num domingo comum, depois do show do chorinho na Praça São Salvador, Robertinho Silva montou sua bateria no coreto e mandou ver. Apareceram Carlos Malta e Chico Salles, uma flautista subiu no palco e o pessoal da cozinha que anda com seus instrumentos fizeram APARECER. Era um chamativo para o lançamento do livro do Robertinho: Se Minha Bateria Falasse. Suas memórias com o auxilio de Miguel Sá. Comprei e já devorei. Recomendo!



domingo, 5 de janeiro de 2014

O umbigo do mundo


(Edmar Oliveira)
O chá de coca, necessário a adaptação
 
Aí, meninos, cheguei. Com um atraso histórico de uma geração. Mas fui a Cusco. Melhor Qosco. A cidadela dos quéchuas, o umbigo do mundo, no altiplano peruano a mais de três mil metros acima do nível do mar. O respeito da adaptação é necessário, mormente num velho que já sou. Não confiei só nas folhas de coca. Descansei um dia. Mesmo assim, no outro andava em câmara lenta, filmado pelos nativos. O belo palácio de Koricancha ficava perto do hotel. Muros incas, que foram revestidos com ouro roubado pelos espanhóis. A cidade umbigo que costura os quatros cantos do mundo ainda resiste. Para cá vinham povos desde a atual patagônia até a Colômbia. A  ‘plaza’ das armas espanhola não era mais que a praça dos palácios nativos. Cortez deve ter ficado admirado com uma cidade europeia descoberta em plena selva. Uma outra civilização que diminuía a sua. Como um bom europeu, saqueou os nativos. Roubou mais ouro do que se possa imaginar e não prestou atenção na avançada civilização que destruía na sua fúria de saqueador.


O inca, no centro da praça, parece reverenciar as
igrejas do colonizador.
Mas a resistência dos colonizados me surpreendeu. Não falo aqui dos heróis da resistência, que foram muitos e festejados. O que ficou, para nós do futuro, foi a resistência cultural no sincretismo religioso. Se na época podiam ser considerados vendidos e aculturados, hoje nos mostram a resistência da cultura inca.

Como não havia muito pintores disponíveis para adornarem os templos católicos que representavam a dominação espanhola, muitos artistas locais foram treinados para a pintura dominante. E aí os colonizadores perderam: os afrescos da catedral de Cusco atestam a resistência da cultura cusqueña. Hoje já reconhecida como um estilo de arte. Na anunciação de Maria, o costado de sua cadeira ostenta um sol inca radiante. Porque a mulher grávida era a fertilidade da terra. Um mural que representa a Santa Ceia cristã, a patena exibe um Cui: um porquinho da índia, iguaria culinária inca. E o vinho foi substituído pela Chicha Morada, bebida de milho servida nos rituais locais. Mais de tudo: a festa religiosa católica mais importante, que convoca todos os peruanos, é a procissão do Senhor morto. Tem um detalhe: nas festividades quéchuas, o antigo Inca era retirado de sua tumba para desfilar junto ao povo. Portanto não é o Jesus cristão que é cultuado, mas o Inca morto pelos espanhóis. Absolutamente genial.

E na catedral, apesar de todas as imagens católicas, é uma pedra inca a mais cultuada: o deus inca não tinha forma, era pedra, era natureza. E a oferenda que se faz, dentro de um templo católico, é a folha de coca oferecida ao deus pagão. O padre aceita como paga de manter os fiéis. E Cusco é festa da coca, dos deuses e dos espíritos incas. Cada pedra quéchua mostra a capacidade desse incrível povo que não foi respeitado pelos europeus. Depois eu chego a Machu Picchu. Me aguardem. Tenho que tomar fôlego.


A santa ceia cusqueña: Cui e chicha morada

1 verso

 
AS MIL FACES DO POEMA
 
O poema parece um avião de papel

Surfando na tarde ao sabor do vento

Depois que foi atirado ao céu

Pela mão do menino em suave movimento

 

O poema parece um barco de papel

Naufragando no esgoto à margem da rua

Depois de ter servido de chapéu

Ou de luneta para o menino observar a lua
 
(Climério Ferreira)

De volta ao começo


 
 
(Salgado Maranhão)    
 
“Depois da morte de Jaci aconteceu algo que só agora posso revelar.” Assim começa  este “Terra do Fogo”, de Edmar Oliveira, que nos torna reféns de sua elegante  narrativa. Trata-se do retorno ao cenário de uma certa infância nas margens do Rio Parnaíba, infância que acompanha o narrador na idade adulta. Através dela seguimos apalpando com a imaginação suas vivências exumadas nas gavetas da memória: o cheiro da terra molhada; a casa velha e empoeirada, com seus utensílios fora de uso; as vozes humanas perdidas no irrevogável ontem.  Nessa obstinada busca de remontar o mosaico do vivido nas ínfimas relevâncias da vida miúda, não há situações preferidas, posto que, mesmo no cascalho das dores passadas, é possível encontrar alguma pepita de alegria.

     Devagar, as lembranças vão se levantando para recebê-lo no casarão em que passou um pedaço importante do início de sua vida, e, na medida em que adentra  o recinto tão conhecido do seu imaginário, as camadas sobrepostas do passado se revelam: “Com o candeeiro a iluminar o percurso, passei pelo quarto de hóspede que habitei no passado e nesse não era preciso descobrir os móveis, pois os lençóis não cobriam o que conhecia tão bem. Mas, me detive por um tempo para recordar o que estava por baixo dos panos.”

     E o narrador prossegue na primeira pessoa a incorporar as lembranças da tia Jaci e do seu Alarico, o velho comunista que estruturou, politicamente, sua visão de mundo; prossegue arrastando fatos que inquietaram o Piaui da década de 1940, como os incêndios  das casas de palha, em Teresina. O livro se apodera dessas lembranças, para relatar  o desmonte das populações despossuídas, em face da mudança de pele da cidade, do avanço indiscriminado dos poderosos sobre a área dos pobres.

     Não é pouco o que esta obra guarda em suas páginas de histórias desdobráveis, ordenadas em camadas sutis, uma coisa puxando a outra, num tecido verbal de fios que se entrelaçam.

      Sem dúvida, neste “Terra do Fogo”, o leitor encontrará os ingredientes de uma  trama romanesca instigante, onde os conflitos de uma época se misturam a dramas familiares que envolvem amor, lealdade e traição, repaginados pelo olhar de alguém que se redescobre nas pegadas da sua infância, pois como já nos disse o famoso samba:”Voltar /quase sempre é partir/para outro lugar”.

VERSO E RE...

(Lázaro José de Paula)

 
 #   VERSO 

                         &

                                         REVERSO 

                                                   +                             

                                  VOCE       

 

                                        M  E  U        U  N   I V   E  R  S O  

Do romance Terra do Fogo


(Geraldo Borges)
 
Estava posto em sossego lendo o romance - Guerra e Paz, de Leon Tolstoi, quando alguém tocou a campainha. Fui ver quem era. Na porta o carteiro me entregou um pacote. Era o romance – Terra do Fogo do escritor Edmar Oliveira, recém lançado pela editora  Viera Lent. Tive então de suspender a leitura do grande tijolo da literatura russa, e, comecei  a saborear o   biscoito da nossa literatura regional. - Terra do Fogo.  

               Ora lia em pé, ora sentado,  – Terra do Fogo. Um título é sempre um chamativo para o leitor curioso. Perguntei-me que terra do fogo é esta? Ao penetrar na leitura do livro fui entendendo. O romance tem como pano de fundo os incêndios na capital do Piauí, e todo um período que vai, desde a infância, a adolescência, a mocidade do narrador, desenrolando o seu leque de recordações. De modo que o leitor atento vai descobrindo que no romance existem duas histórias, uma que pode ser escrita com h, uma infra-história  e outra que pode ser escrita com é. Trabalhada simplesmente no campo da ficção, embora com o suporte dos fatos reais, que, de tanto passarem de boca em boca, terminam virando lenda.

               Os  personagens do seu romance, no meu modo de entender, estão classificados em duas categorias. Os que verdadeiramente dão dinâmica a estória. A começar por Jaci e Alaríco que mantém o eixo romântico do fluir da narrativa. Observa-se que os personagens imaginados têm mais força, e são, na verdade, quem conduzem o enredo do romance. Quanto aos históricos, são amorfos, embora ajam como vetores de transformações sociais, sobrevivem em livros didáticos ilustrando a nossa história contada ao sabor das conveniências ideológicas. São múmias petrificadas.

               O que notei na leitura do romance de Edmar Oliveira é que ele, embora narre e conte uma estória bem urdida, há momentos em que se empolga com a outra história, a história oficiosa e oficial o que se pode  notar com a escolha do título Terra do Fogo, que não passa de pano de fundo para a verdadeira estória  de ficção. Talvez por curiosidade, se alguém fosse desmontar o romance, ou condensá-lo, como se fazem  aos romances da revista Seleções, primaria por manter  na integra o texto narrativo, e capar de preferência a dissertação sobre os incêndios. Claro que a atmosfera do incêndio poderia continuar, mas em pequenos tópicos, como subtexto, como, por exemplo, o sonho pesadelo nas paginas 88, 89, 90.

               Sei que Edmar vivenciou, por muito tempo, esta estória, desde menino. O personagem narrador é autobiográfico. E teve de se utilizar de um truque, bastante inteligente, muito conhecido na história da literatura ocidental. Trata–se do resgate de um documento onde existe um manuscrito, um dossiê, de onde pode-se  extrair uma pista para uma estória. O vazio, as brechas, podem ser preenchidas pela imaginação e memória criativa do autor.

               O romance de Edmar Oliveira, ainda tem as influencia de seus primeiros livros, dois, - Ouvindo Vozes, da editora Viera Lent e Von Meduna, editora Oficina da Palavra, os quais ele  mescla crônicas, contos, relatos, bem acabados,   onde traça perfis de tipos populares, juntamente com seu trabalho acadêmico. Pois a ênfase dos livros, os anteriores, está colocada em relatar resultados de pesquisas e projetos.  Com pequenas pitadas de especiaria devido ao seu estilo leve e envolvente. Este último - Terra do Fogo, revela a grande  potencialidade que  o seu autor tem para a arte de ficção.

De um pequeno ponto, que é o casamento de Jaci com Inácio, seu primo, que morre afogado; depois viúva, ainda menina, casa se  com Belizário, um truculento fazendeiro que a maltratava, e o aparecimento de Absalão, que a tira de seu lugar de origem,  oferecendo  lhe liberdade para a aventura do romance, o autor tricoteia  uma estória que vai perpassando toda uma época com a duração de  meio século. Dentro de todo esse período Jaci se envolve com vários homens que, em certo momento, representaram algum valor em sua vida. É a personagem mais exponencial da estória do romance e com ela que o autor dá inicio ao seu romance

“Depois da morte de Jaci, aconteceu algo que só agora posso revelar.”

Esta revelação esta no dossiê. E repare como o romancista aguça logo no começo a curiosidade do leitor. Jaci já está morta quando a estória começa, mas, é justamente a personagem mais viva do romance.

               São muitos os personagens que se aglomeram pelo vasto cenário suburbano da cidade de Teresina na época dos incêndios. Multidões aflitas, vendo seus lares devorados pela fúria do fogo, tiveram que pagar pela modernização arquitetônica da cidade.

O romance de caráter histórico ainda é uma vertente importante na literatura ocidental, e o escritor Edmar Oliveira estreia muito bem neste ramo de ficção. Não obstante, alguns reparos feitos por um resenhista bisonho que agora volta a enfrentar Guerra e Paz.

 

 

 

Salgado Maranhão


A história de Feliciano


Feliciano sempre acreditou que podia mudar o mundo. Desde pequeno tratou de afiar suas ferramentas para a grandiosa tarefa. Aprendeu filosofia, estudou biografias de gênios da literatura, da música, das artes em geral. Mergulhou com muita fé em todas as crenças, beijou os pés do Papa, chutou imagens de Santas, bebeu chás e ácidos, fez libações e ajoelhou-se na direção de Meca e Machu Pichu, rezou todos os evangelhos e cometeu também todos os pecados. Preparou-se como ninguém para a obra máxima de sua existência: mudar o mundo. Mas por onde? Mudar o quê? Primeiro resolveu salvar as foquinhas das mãos dos japoneses, pois sabia a crueldade que aquele povo destila em animais indefesos. Resultado: quase lhe tiram também o couro e Feliciano parou estrategicamente para repensar seus planos. Viajou para a Amazônia, haveria certamente de impedir o desmatamento e a matança de botos. Pegou malária, ficou meses na rede, suando frio, delirando, até que foi desalojado daquela rede pois precisavam das árvores em que estava amarrada. Feliciano ficou em Manaus por um tempo, lambendo suas feridas e seu orgulho. Tanta filosofia para pouco resultado. Mas Feliciano não era homem de desistir fácil assim, não seria uma reles malária a responsável pelo seu fracasso. Engajou-se como marinheiro num barco de bandeira grega e saltou em Moçambique cheio de boas intenções: ajudaria no combate a AIDS. Inteligente como ele só, Feliciano logo dava palestras sobre sexo seguro para prostitutas. Sentiu-se, pela primeira vez na vida, realizado. Mas o fato é que, esqueceu-se Feliciano, as prostitutas, já soropositivas, não têm poder algum sobre os homens que lhe freqüentam as partes. Os casos de AIDS continuaram crescendo, promovendo, como portugueses modernos, o extermínio de tribos e tribos africanas. A série de fracassos não foi maior que sua esperança, e Feliciano, durante muito tempo, julgou-se o salvador do mundo. O que se sabe é que hoje, depois de muitas frustradas tentativas e um AVC que o faz puxar a perna esquerda, Feliciano, cinqüentão, sobrevive como assessor parlamentar de um deputado, amigo de infância. Mora em Brasília, numa quitinete na Asa Norte, que divide com um amigo poeta, e redige pareceres engajados sobre a questão social no Brasil e no mundo. Pareceres inúteis, posto que sempre desconsiderados pelo amigo deputado de uma legenda de aluguel. Batalha feito um louco para provar tempo de serviço suficiente para aposentar-se. Sei que há homens que lutam um dia e são bons, outros que lutam muitos dias e são melhores, e outros...blá blá blá, enfim, há aqueles que, como Feliciano, lutaram uma vida inteira. Esses...ah, esses a gente conta nos dedos e lamenta sua sorte.

 

Leonardo, Le Boff.


 

máscara

Atrás de  óculos escuros
Essa mulher se esconde
No seu abismo sem futuro
Para não se sabe aonde.
 
Atrás de óculos escuros
Uma lágrima vermelha
Sem portas apenas muro
Vidros e cacos de telha.
 
Atrás de óculos escuros
Essa mulher apodrece
Por que perdoa e esquece.
 
Atrás de óculos escuros
Linda mulher não esqueça
Tire os óculos e apareça.
 
(Geraldo Borges)