domingo, 29 de setembro de 2013

a seca do treze


(Edmar Oliveira) 

O meu amigo poeta Marcos Freitas inundou meu e-mail com notícias sobre a seca. É que o poeta é também especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas e está alarmado, como muito dos nossos conterrâneos que não ouvem mais o cantar da asa branca, com a seca, que desde o ano passado castiga o nordeste. A ONU reconhece já a extensão desta seca como sendo a maior dos últimos cinquenta anos. Com a possibilidade, como alerta o poeta, de se agravar. E as obras da transposição do Rio São Francisco secaram no meio do caminho, indiferentes – como são os governos – com a discussão de que seriam ou não parte da solução.

Tomara que lá no futuro outra Raquel de Queiróz não tenha que escrever “O Catorze” como o ano que pode se apresentar, lá depois do dia de São José, como o mais trágico da modernidade para nossos conterrâneos que já começam a viver a tragédia d’o quinze do século passado nos dias atuais.

Foi Euclides d’Os Sertões quem chamou atenção para o migrar do nordestino que é diferente de todos os migrantes da terra. Geralmente as migrações são um eterno caminhar de povos que vivem essa situação para a aridez da terra e seu esgotamento. Nós não. Vamos embora com a asa branca pela a impossibilidade de viver na terra ingrata pela ausência da chuva. Mas basta as primeiras gotas para transformar o cinza em verde, a feiura virar beleza. A asa branca volta e o migrante também. Nós somos um migrante que volta sempre ao torrão que abandonou. E quantas vezes saia, volta. Porque volta para um lugar que fica na saudade. Que não nos deixa nem quando vamos pra não voltar, como diz a canção do poeta triste. Porque a saudade é um lugar que não nos deixa.

O engenheiro Marcos Freitas está preocupado com esta seca do treze do século do futuro. Mesmo com toda tecnologia existente não conseguimos transpor um rio, tirar a água abundante do subsolo, fazer uma irrigação como Israel faz do deserto um oásis. Não. O nordeste não vive nesse futuro. Nossos políticos ainda cultivam a seca como a indústria que lhes fornece votos com pipas d’água, cisternas. Nada se faz para resolver o sofrimento do sertanejo. E o engenheiro, que reclama sem ser ouvido, fala pela boca do poeta: “as caatingas/ como os sertões/ estão/ em toda parte/ na minha solidão”.[1]



[1] Marcos Freitas, “Vivências”, Inquietudes de Horas e de Flores, Livre Expressão Editora, RJ, 2011, ano em que começava a estiagem da atual seca.

1 verso

AZULOU

 A beleza às vezes fica assim
De um azul diáfano
Como gota de choro contido
Ou como memória de anjo
Ou como bata de santa
Ou como tristeza de nuvem
 

(Climério Ferreira)

A doença dos românticos

(Geraldo Borges) 


A tuberculose, conhecida eufemisticamente por tísica, foi uma famigerada doença, muito conhecida no século dezenove e também no século vinte.  As pessoas fugiam dela como o diabo foge da cruz. A vida do paciente era um sacrifício. Tudo em casa tinha de ser separado, o quarto, os utensílios domésticos: copo, prato, colher. Não podia chegar perto de ninguém. Logo que dei conta de mim, quer dizer, comecei a ouvi os adultos, fiquei sabendo que e nossa família tinha havido um caso de tuberculose. Uma tia minha tinha morrido ainda muita jovem de tísica, doença do peito.

Para que se tenha uma noção mais nítida de como a tuberculose imprimia terror às pessoas, basta transcrevermos um pequeno parágrafo do livro Infância de Graciliano Ramos. O caso se passa mais ou menos no inicio do século vinte.

“(...) Minha mãe descobriu nódoa no chão, raspou o tijolo, apavorou-se ao ter notícia  de que ela era  sangue de tuberculoso. Lavou muito as mãos, chorou, desesperou-se, convenceu  se de que as hemoptises velhas iam penetrá-la  e matá-la. Fechou o quarto contaminado e resolveu mudar-se.”

O fantasma da tuberculose entrou em minha vida através da literatura.

               Logo depois quando comecei a ler os poetas românticos fiquei sabemos que eles morriam quase todos do chamado mal do século, século dezenove. Qualquer estudante que conhece a nossa escola romântica sabe disso. A tuberculose era uma espécie de estigma que coroava os poetas. Mesmo depois do século dezenove alguns poetas ainda sob a influência do romantismo morreram tuberculosos. No Piauí podemos citar o caso do poeta Lucídio Freitas.

 “O Lucídio faleceu de tuberculose a 14 de maio de 1921. Tinha vinte e sete anos, era grande poeta, professor da Escola de Direito de Belém. Mas não era em Belém que ele queria viver, onde teve grandes triunfos. Ele queria viver era em sua Teresina.”

O pequeno texto é uma declaração de Luis Ribeiro Gonçalves em entrevista a Manuel Domingos Neto.

               Tivemos um poeta simbolista, Manuel Bandeira, na sua primeira fase, que quase morre de tuberculose. Nasceu em 1886. Foi para a Suíça se tratar. Escapou. Talvez por não ser romântico, e sim simbolista. Morreu com mais de oitenta anos. Mas em homenagem a sua doença escreveu o poema – Peneumotórax.

                              “Febre,hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

                              A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

                              Tosse, tosse, tosse.

                              Mandou chamar o médico:

                              - Diga trinta e três.

                              =Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

                              - Respire.

                              .......................................................................

                              - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo. E o pulmão direito infiltrado.

                              - Então, doutor, não é possível tentar o peneumotórax?

                              - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

              

Augusto dos Anjos, se não me engano, morreu tuberculoso, nos idos de 1914. Tinha raízes parnasianas, mas era simbolista, um poeta singular. Claro que a tuberculose não escolhia apenas os poetas para as suas bodas. Mas morrer do pulmão tornou-se quase um ritual para os poetas, principalmente os românticos. Hoje a medicina evoluiu bastante, e consegue curar a doença caso o paciente siga a risca o tratamento.  E não seja poeta.

Nas minhas leituras de romances do período romântico deparei-me com muitos personagens tuberculosos. Entre eles nunca esquecerei a Dama das Camélias. A bela e pálida Marguerite  Gautier, amante de estudante de Direito Roberto Duval.

 E já que estou falando da literatura francesa vou terminar essa crônica infectada de bacilo de Koch tentando resumir um conto que li há muito tempo em uma coletânea de contos  franceses. Era em uma taberna. Uma meia dúzia de poetas reuniam-se ali para conversar sobre seus temas. Na mesa onde lhe serviam bebida, com algum tira gosto, havia uma toalha toda manchada de sangue. Eles bebiam, comiam, tossiam, e enxugavam a boca na toalha. Um por um foram se ausentando. Quando termina o conto a sensação que se tem é que estão todos mortos, ceifados pela tísica. Não me lembro o nome do conto. Mas a lembrança do enredo ficou.
 
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ilustração: "Ao leito de morte" de Edvard Munch 

ODE À REDE

 
 
o design da rede
se aprimora no corpo

e no espaço. seu côncavo abraço de mulher

induz ao santo ócio tema para sombra e

solo de árvores, inda que seja breve o toque

é manjar para deuses
amantes – o desfiar
de sonhos de algodão, – a lã que a rede enreda

(Salgado Maranhão)
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arte Netto de Deus

LEVE SARRO

 
(Lázaro José de Paula)
 
 
DE   LEVE  COM  ANDOR  QUE  O  SANTO   É  DE  BARRO
QUE  OUTRAS  MÃES  GENTIS  A  MIL
ME  DARÃO  SUAS  ENTRANHAS 
PRA  EU  VINGAR  COMO  UMA  FLOR
ALEM  DESSAS  MONTANHAS  DO  RIO
OU  UMA  FRUTA  ESTRANHA
DE  IMPROVÁVEL   HORROR  DA   SILVESTRE   AMAZÔNIA  
CUIDADO  COMIGO,  OH!   MEU  AMOR
QUE  EU  JÁ  MORRI  DE  MIL  A  MILÊNIOS
MAS  SILENTE  EU NADO  CONTRA CORRENTE  
NÃO  POR  BIRRA , MAS  PELO  OURO  INCENSO   E MIRRA
QUE  VOCÊ  ME  DEVIA  COMO  A UM  REI  MENINO
NENHUM  ÓBICE,  ALGUM  ÓSCULO
COMO  GARANTIA  VOCÊ  HÁ  DAR 
NESSE  ESCRAVO  DA SUA  SERVENTIA 
ME  AMANDO  POR  ENGANO  VOCÊ  HÁ  DE  ESTAR
PROCRIANDO  UMA   SERPENTE  QUE  VAI  TE LAÇAR
COM  CHOCALHOS,  COM   VENENO  PARA  TE MATAR   DE   AMOR
COMO  ESSA  CHANCE  TÃO  GIGANTE  QUE VOCÊ  ME  DAR
LEVE   SARRO  DE  UM  MAROTO  CIGARRO
A  NOSSA  HISTÓRIA   TEM  MAIS  DE MIL  E UMA  NOITES
E  DEU  VOU  ME  DELEITAR    COM   TEUS  AÇOITES   
EU  VOU ME  DELEITAR  COM   OS  TEUS   BABADOS
E  TE  AMAR  PARA   SEMPRE  
PORQUE   HOJE  É   SABADO
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desenho: Amaral

3 poemas sobre a Noite

 
A boca da noite se abre
em bocejo contagiante
dormem alguns um sono de ferro
outros lapidam as horas
Um galo canta
Um cão late
Uma folha flutua.
 
(Angela Weingartner Becker)
 
 
 
Noite fria/
ferve a hora/
no substantivo chaleira/
ninguém flutua

(João Ayres)
 


 
 
Quando descem
  estrelas
Todas as palavras
  flutuam
Se agrupam
  em sonhos

     (Lelê Fernandes)
 
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Primeira lua de João Aires, segunda lua de Paulo Tabatinga

Aprendizagem e/y Aprendizaje


APRENDIZAGEM
Léo Almeida
 
Aprendi a ser formal e cortês, canta o poeta argentino. Me ensinaram a falar baixo, a não alterar o tom de voz numa discussão, a dizer calmamente “Senhor” ou “Senhora”. Me botaram freios. Como bom e dócil aluno que sempre fui, aprendi a ser alguém que não me conheço, mas que pelo menos vive muito bem nas instâncias do real, do social. Corto o cabelo uma vez por mês, não cuspo na rua, não mijo na tampa do vaso. Como  veem, eu realmente fui um ótimo aluno na escola da cultura: aprendi a viver em sociedade. Me botaram arreios. Hoje eu me pergunto a que custo e sei que um outro em mim anda adormecido, acorrentado, mantido quieto como uma sujeira que se varre para debaixo do tapete. Esse outro, que também sou eu, tornou-se uma espécie de ameaça ao mundinho baseado em “Senhor” e “Senhora”, ao não cuspir ou arrotar, à obediência passiva. Daqui eu o vejo, olhar cansado de tanto peso nas costas, dentes a mostra querendo roer meus tendões. Ainda ontem senti que bicavam seu fígado, como um titã condenado numa ilha qualquer em mim. Quem sangra um sangue invisível, mas não menos dolorido, sou eu, este que frequentou os bancos da igreja, da escola, do partido, do sindicato, da caserna, da vida real. Esse momento é só meu e eu pressinto uma necessidade urgente de que tudo se exploda numa magnífica explosão zabrieskiepointeana, arremessando entulhos para todos os lados, tingindo de partes podres de mim os muros dessa vidazinha levada na flauta de Pã. Mas isso também é uma forma de aprendizagem, ou não? Hoje eu sei que aprendi a ser aquele que um dia vai libertar-se de todo aprendizado e ser feliz.

Tempestade de Aço

Luíz Horácio  


De todos os lados, brotavam feridos no mato bombardeado, atraídos pela possibilidade de se protegerem. A entrada da vala estava horrível, abarrotada de feridos graves e moribundos. Uma figura nua até a cintura, de costas abertas por um ferimento, apoiava-se à parede. Outro, com um naco triangular de cérebro pendurado no crânio, não parava de berrar de forma estridente e tocante. Ali imperava a grande dor, e pela primeira vez eu vislumbrava as profundezas de seu reino através de uma fresta demoníaca. E as explosões não paravam.

Ernst Junger se alistou como voluntário  durante a Primeira Guerra Mundial, resulta dessa experiência Tempestades de Aço, tradução de Marcelo Backes, um relato, um balanço, originário dos fatos em lugar da imaginação, talvez não devêssemos chamar de literatura justamente por isso? Desse modo Diários dos moedeiros falos, de Gide também deixaria de ser literatura? Mas quem garante que no diário de Ernst Junger tudo se deu conforme o anotado?

E por falar em Gide. Sobre Tempestades de aço. “O mais belo livro de guerra que já li.”
Considerado, por Gide e muitos outros, como o grande livro de guerra, aproveito para discordar.
Caso o elemento que caracterize como “o grande livro de guerra” seja a descrição fria, seca, a brutalidade expressa em  cenas como a que abre esta resenha, então podemos conversar. É tudo muito objetivo na narrativa de Junger, e me faz lembrar exatamente o contrário, o sarcasmo, a ironia, sem perder a objetividade, encontrado na primeira parte de Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline. Não digo que a narrativa de Céline é melhor ou pior que a de Junger, no aspecto guerra , mas não fica devendo nada.
Vale lembrar que Celine foi execrado, escreveu panfletos antisemitas. O valor de sua obra literária foi esquecido, mas e Ernst Junger? Não foi um dos artífices do pensamento do Fuhrer?
Ora, ora. Essa tentativa de amenizar certas atrocidades não sensibilizam este tosco resenhistas. Repare bem a dupla que segue: O jurista Carl Schimmit, o ideólogo do Estado Total, Martin Heidegger, ele mesmo, é de sua autoria “Profissão de fé em Adolf Hitler, lá ele descreeve o Fuhrer como o instante de “retorno à essência do ser”. E muitos defendem Heidegger.
Ernst Junger completava o trio assombroso.
Esses grandes amigos, amizade também ancorada em convicções políticas, tornaria a se encontrar em 1955 por ocasião do aniversário de Junger. Tão amigos e só o inocente do Junger não era nazista. Era meio nazista. Conte outra.
Tempestades de aço é de uma crueza assustadora, ao mesmo tempo de uma monotonia exemplar, descrever e descrever bombardeios, ataques e suas consequências, o que muda  de vez em quando: o tamanho da ferida apenas.
Junger que de bobo não tinha nada colocou algumas pitadas de um lirismo polar, e conseguiu amenizar um pouco a brutalidade, o grotesco de sua narrativa. A selvageria do campo de batalha contrastando com a indiferença daquilo que há de mais puro, nobre, e assustador; os pássaros.. “Era estranho que os pequenos pássaros da floresta parecessem não se importar com esse barulho cêntuplo; eles pousavam em paz acima dos rolos de fumaça, nos galhos destroçados”. Mais adiante, num exercício de justificar o horror...
 Parecia inclusive que os pássaros eram estimulados pela avalanche de ruídos que rebentava em volta deles”.
O grande livro de guerra, já disse tenho minhas restrições. Ode à brutalidade rasa, nada mais. Exclua as imagens, apague as imanges deste Resgate do soldado Ryanm caro leitor, vamos buscar algum significado na guerra, quem sabe uma ressignificação.
Pois bem, Tempestade de aço é um relâmpago entre a dor e a grande dor. Mas o que seria essa “grande dor?”
Antes das dores, vale lembrar que Junger se alistou logo no início da guerra na expectativa de uma breve aventura. Ocorre que não foi aventura tampouco breve. Outros, assim como Junger, se alistaram com igual propósito. Estes, frente a permanência dos horrores acabaram esquecendo o objetivo primeiro e a aventura foi transformada em aventura em nome da sobrevivência. Demonstravam medo e insatisfação com aquele estado de coisas. Enquanto isso Ernst Junger, o meio nazi, demonstrava estar cada dia mais a vontade naquele cenário.
A intimidade com corpos dilacerados, trincheiras sujas de sangue, valas inundadas, chafurdar, matar, duvido que você não perceba uma certa satisfação nas palavras de nosso narrador.
Jünger escava a guerra, escancara seu espanto, descreve minuciosamente seus ferimentos e de seus companheiros de combate. Mas Tempestades de Aço não é o balanço de uma campanha vitoriosa, é a radiografia da falta de sentido e de como essa falta de sentido é capaz de se tornar o sentido da vida e da morte.
A vida. A morte. E a dor? A dor dos outros, de ver morrer. E não existe dor no matar? Novamente, a dor dos outros. E a grande dor?
A grande dor se manifesta no horror dos feridos, no terror que ronda àqueles que não consideram a guerra uma aventura, ou como Junger, a guerra como um tribunal, a guerra como artífice da justiça.
Tempestades de aço é um livro sobre a mediocridade, tão violento quanto o filme citado há pouco. Repleto de imagens e raso de significados. Oponho a Tempestade de aço aquele que para mim é o grande livro de guerra, o livro sobre a bestialidade humana.  É isto um homem? Se Junger busca a saída para sua aventura armado de granadas, fuzis, facas, Primo Levi, quase nu, faminto, humilhado, desarmado, mostra como o fraco, o oprimido, pode resistir. Não, caro leitor, você não encontrará belicismo na narrativa de Levi, tampouco revanchismo. Apenas o registro. O ser humano faliu. A prova é Junger, Heidegeer et caterva.
Sei que muitos absolverão Ernst Junger, os contraditórios, os mesmos que condenaram Céline. Vai entender!
Mas nunca é tarde para arrependimentos, embora arrependimento não tenha a menor serventia, considere-o como confissão de culpa.
Tempestades de aço foi escrito em 1920. Em 1939 seria publicado, também por  Ernst Junger, Nos penhascos de mármore. Uma alegoria onde o autor denuncia a chegada da barbarie. Um erudito gasta seus dias observando a natureza, enquanto isso um tirano aterroriza aquela região. O mea culpa de Ernst Junger, este sim, um livro a merecer repetidas leituras. 

 

 

TRECHO 

Um mensageiro de um regimento de Württemberg veio ter comigo, a fim de conduzir minha coluna à famosa cidadezinha de Combles, onde deveríamos ficar esperando provisoriamente na reserva. Foi o primeiro soldado alemão que vi  usando capacete de aço e me pareceu, de imediato, um habitante de um mundo estranho e mais duro. Ao lado dele, sentado na valeta da estrada, perguntei-lhe, ansioso, pela situação na trincheira, e ouvi uma narrativa monótona sobre dias agachados em crateras abertas pelas granadas, sem caminhos de ligação nem de aproximação, sobre ataques intermináveis, sobre campos de cadáveres e uma sede louca, sobre feridos convalescendo e sobre outras coisas mais. O rosto imóvel, emoldurado pela borda do capacete de aço, e a voz monocórdia, acompanhada pelo barulho do front, nos causavam uma impressão fantasmagórica. Poucos dias carimbaram aquele mensageiro que deveria nos acompanhar ao reino das chamas, marcando-o com um selo que parecia diferenciá-lo de nós de um modo indizível.

“Quem tomba fica ali, deitado. Ninguém pode ajudar. Ninguém sabe se voltará vivo. Apesar de atacarem todos os dias, eles não conseguem passar; e os que não os deixam passar sabem que é uma questão de vida ou morte.”

Nada mais restava naquela voz a não ser uma grande indiferença; ela havia sido calcinada pelo fogo. Com homens assim se pode lutar.

 

AUTOR

Ernst Junger nasceu em março de 1895, na cidade de Heidelberger, Alemanha. Ainda jovem abandonou a escola para se unir à Legião Estrangeira e alistou-se como voluntário na campanha militar da Primeira Guerra Mundial, pela qual recebeu a Ordre pour le Mérite.Participou também da investida alemã na Segunda Guerra Mundial, mesmo divergindo da ideologia nazista. Eernst Junger faleceu em fevereiro de 1998, com 102 anos, deixando uma vasta obra ficcional e ensaística.

Tabatinga


Secas de Março de Jessier Quirino


domingo, 15 de setembro de 2013

Das doenças de menino


(Edmar Oliveira)
 
Quando eu fui criança, antes das vacinas chegarem ao interior do Piauí, tinha uma avó que me escondia das doenças de menino – catapora, caxumba, sarampo, tosse brava, entre outras. Era a vó Bebela. Mas a vó Maria, Mãe Velha, como chamavam meus primos mais chegados na casa, empurrava os meninos para o contágio, assim que o tempo das doenças chegava nos Palmeirais. É que o tempo, além de ser dividido pela seca e pela chuva nas enchentes do rio, também era marcado pela chegada das doenças de meninos. No tempo da tosse brava era de um tossir compulsivamente até ficar vermelho e chorar. No tempo da caxumba, que a gente chamava papeira, era de aumentar o papo de um lado ou dos dois, que tinha também as que davam dos dois lados. Num incomodava muito não, mas a gente devia de repousar senão a papeira descia pro saco e aí não me perguntem o que acontecia que eu só sabia das ameaças, nunca vi de vera. Nas doenças bexiguentas era mais complicado e eu me lembro que numa delas tive de dormir em cima de folhas de bananeiras para ajudar a sarar. Também não me perguntem o motivo, que essas sabedorias que vinham passando de gerações em séculos pelos costumes são inquestionáveis.

Mas hoje eu me pergunto se a vó Bebela ou a Mãe Velha, quais das duas tinha razão. Me lembro que a Mãe Velha dizia que doença de menino tinha que acontecer quando se era menino, que depois de grande as complicações eram bem piores. Não sei se as complicações, mas a memória que fica das doenças é mais esmaecida. A da folha de bananeira, não sei se catapora ou sarampo, foi uma tardia que tive, pela proteção infantil da minha vó, e me lembro muito mais das complicações. Já estava mais taludo, querendo engrossar a voz. Aqui dou razão a vó Maria, que nunca soube que existiam vacinas. No sertão, na segunda metade do século XX ainda estávamos no começo do XIX.

Mas a vó Bebela me proibiu de ver um amiguinho de infância que estava com crupe. O que a gente chamava crupe era a maldita difteria. Fiquei muito chateado, mas escapei de morrer mais uma vez. Meu amiguinho morreu e eu me lembro dele até hoje. E eu sofri muito imaginando o seu padecer. Minha vó disse que era como morrer afogado sem ter água.

No sertão de meu tempo tinha os perigos da seca, os perigos do rio e as doenças que atacavam os meninos. Sempre que perguntavam a minha mãe quantos filhos ela teve, ela respondia “tive treze, mais vingaram sete”. E se fui um dos que vingaram no sertão daquele tempo, sou “antes de tudo um forte” euclidiano. Mas hoje me deu saudade dos que não vingaram. De muitos nordestinos que viveram pouco.    

Crônica Minimalistas (6)


 
ENIGMA
 O velho poeta era cego, mas não se queixava. Reza a lenda que, protegido pela eterna penumbra, podia ver o que os outros só imaginavam. Alguns o consideravam sábio; outros, um ilusionista. Metade do país o amava; a outra metade gostaria de vê-lo morto, principalmente os escritores jovens. A comissão julgadora do Nobel gostaria de conceder-lhe o prêmio, mas pesava sobre ele a pecha de ter sido conivente com a ditadura feroz. Com ensaiada indiferença, ele fingia não ligar. Vivia mergulhado num mundo particular, povoado de labirintos, tigres, punhais, espelhos e sonhos. Por não ter filhos, o velho não tinha netos com quem pudesse compartilhar suas histórias fantásticas. Tinha sobrinhos. Certa manhã, um deles, uma menininha de uns cinco anos de idade, aproximou-se dele e perguntou: - Tio, o que você estava fazendo no meu sonho? Decididamente, o velho desconhecia a resposta.
(Cinéas Santos)

OCEANO PACÍFICO

 
Lázaro José de Paula
 
AS  VISÕES QUE  VEM DE  TI 
PERCORREM  OS  PLANETAS  DO PÂNICO
TODOS  ALINHADOS EM  TORNO  DA  TUA  COR
TODOS  APARTADOS   BEM  RENTES  A  MINHA  DOR
UMA   FRÁGIL   CORTINA   DE  FUMAÇA
SE  ESGARÇA  AO  PARIR  DA  TUA   FLOR
A  PARTIR   DA  TUA  JANELA
DA  TUA  LAPELA,  MAS  NÃO APELA
OH!!    SENHORA   DE  TODOS  OS  MEUS  AGORAS!!
DE  TODAS  AS  MINHAS  HORAS!!!
POIS  SE  DEU  GIRAR  EM  TORNO  DE  MIM     
SÓ  ENCONTRO  O  TEU  EIXO,  POR  ISSO,  DEIXO
UM  BEIJO  MOLHADO  PRA  TI
EMBAIXO  DE  UM  POTE,  BEM  ATRAS  DO  ARCO-IRIS  
COM  UM  TRAÇO   DE  GIZ  EU  RISCO  O  OCEANO PACIFICO
PORQUE  SOU  DA  PAZ , E  DIGO  AO  POVO  QUE  FICO  CAPAZ 
DE  TE  AMAR 
S O Z I N H O
BEM  PEQUENININHO
PORQUE  SOU  DO  BEM,  ATÉ  AONDE  A VISTA  ALCANÇA 
A   SOLIDEZ  DAS  LETRAS   BAMBAS  DE  UMA  CRIANÇA

Brasileiros, ex-estudantes de Inglês


(Geraldo Borges)              
 
Em geral, quase toda a classe media brasileira, letrada, estudou inglês. Uma língua a mais no currículo melhora as oportunidades de emprego. Só que nem todo mundo se saí bem no estudo do inglês, quer dizer, aprende completamente a língua de modo que possa incorporá-la no seu dia a dia, e fazer dela verdadeiramente um instrumento de trabalho.

Uns estudam para trabalhar como tradutores, outros de interpretes. Alguns conseguem. Por que perseveram. Tinham um objetivo. Por que  aprender a falar um idioma não basta ler o manual, e preciso muito exercício, e convívio com outras pessoas que falam a mesma língua. Um dos métodos atual para se aprimorar o inglês é viajar e passar algum tempo com uma família americana ou inglesa. Tem dado certo.

               Com certeza, quem está me lendo já  estudou  inglês. Ou, até mesmo, seja um desse que sabe inglês fluentemente.   No geral, o Brasil está cheio de ex-estudantes de inglês, que não saíram do básico, e com o tempo, perderam o pouco conhecimento que tinham do idioma da Byron . O que não é descaso. E apenas, porque na verdade este idioma não o interessava tanto, ou o seu trabalho não tinha muito a ver com o conhecimento do inglês.

Às vezes, existe o dom da língua, e a pessoa aprende a falar com  maior facilidade. Conheci um rapaz, motorista de táxi, em Teresina, que só tinha o curso primário. Trabalhava no aeroporto, e falava inglês, muito bem. Dava para o gasto. Mas se perguntássemos a ele quem era Hemingway, não sabia. Não tinha obrigação de saber. Ele aprendeu inglês como se aprende musica de ouvido. Mas não é desse que estou falando. Estou falando do  estudante de inglês que fica no meio do caminho. Conheço   muita gente que estudou inglês,e só sabe mesmo  dizer, How do you do? Mesmo assim acredito que se fala mais inglês no Brasil que português nos Estados Unidos  e no Reino Unido.

Eu fui um desses  alunos que passou por muitas turmas de  inglês. E não aprendi muita coisa. Primeiro no ginásio, o professor não ajudava. Depois como sempre gostei de ler, continuei  por conta própria estudando inglês, mas com pouco rendimento. Tinha um amigo, o Aldo Marinho, que era professor, e interprete, de inglês, e recorria a ele para tirar aqui e acolá algumas dúvidas. Não fazia-se de  rogado. Gostava de ensinar. Aprendi um pouco.

Também escutava com curiosidade os missionários americanos do Instituto Batista. Depois fiz um curso de quinze dias por conta de uma fundação.  Mais tarde  fiz um curso de um  ano na Universidade  Federal de Campo Grande,  Mato Grosso do Sul, e melhorei bastante o meu inglês. Tive três professores, cada qual o melhor. Claro que não me especializei. Mas tenho um vocabulário  numeroso, o que não é tudo se você não conhece a estrutura da língua. Pelo menos não me é estranho as frases que vejo escritas em camisas, nas tabuletas, porque não dizer out doors. E  sei distinguir os anglicismo que permeia a nossa língua. Mas me considero também um ex-estudante de inglês que ficou no meio do caminho, embora não tenha dificuldade na leitura do idioma inglês.

Acredito que o inglês, desde a fuga de Dão João VI é a nossa   segunda língua. Muito colégios  no jardim da infância já ensinam inglês  Aí sim. Começando cedo, com o cérebro ainda novo, boa cera  na mão do oleiro, as crianças  desenvolverão capacidade para  este idioma que tem uma das melhores literaturas do Ocidente. Mas, não vamos esquecer a língua  portuguesa. Falando errado ou certo, escrevendo bem ou não, ele é a nossa  flor do Lácio, inculta e bela.

VAI, GUARANÁ! PRA CIMA DELES!


Sempre me incomodou os comerciais nos uniformes dos jogadores. A coisa começou devagarinho e foi crescendo e hoje é possível fazer propaganda na frente da camisa, em cores berrantes e que, às vezes, não tem nada a ver e agridem as cores da equipe. O comercial passou para a parte de trás, disputando a visualização com o número do jogador, foi para as mangas de camisa, desceu pro calção, aproveita o curto espaços das pernas na vertical e chegou à bunda, sem temor de descer tão baixo para vender seu produto.

Para manter um time de futebol, todas as equipes usam do expediente do comercial no corpo do atleta. Mais a minha bronca aumenta com o comercial do meu time. Só quem é do Rio de Janeiro sabe daquele produto que se vende na praia, concorrendo com o mate gelado, invenção carioca com a bebida quente dos gaúchos. Mas enquanto o mate colou e se bebe em qualquer lanchonete, o guaraviton é uma bebida insuportável com gosto de açúcar queimado aguado. Fabricado numa indústria da zona oeste do Rio, que eu saiba não ganhou outros mercados fora da periferia da cidade. E o meu fogão preto e branco tem que exibir o comercial daquele guaraná horroroso, em amarelão alaranjado que fere os brios do preto e branco.

O Flamengo, que era patrocinado pela Petrobrás na roupa, agora é da Caixa Econômica Federal, numa clara escolha do governo Dilma pelo time rubro-negro.  E o logotipo “Lubrax” e “Caixa” combinam ou não ferem as cores do time. O Vasco tem um discreto “Eletrobrás” ou “Ninsan” nas suas camisas não chegando a ofuscar o pavilhão cruz-maltino. O Fluminense tem um patrocínio da Unimed, empresa que impõe até um técnico que a torcida não quer, mas respeita as cores do uniforme. Agora, o Botafogo, ahfff! É um desastre completo. O nome daquela bebida intragável e, ainda bem, desconhecida dos torcedores de outros estados é escandaloso. E eu tenho que torcer para o Guaraviton! É dose!
(Edmar Oliveira)

1 verso

ÁRIA DE RIMAS
 
Há nos olhos do poeta
A negritude de uma noite sem lua
E um ar de cansaço triste
De tanto ver a beleza do mundo
 
Há na boca do poeta
O silêncio de palavras em repouso
E um gosto amargo das rimas
O tema insone de um verso
Que se nega esperar a manhã
 
Há nas mãos do poeta
A tensão de reter um desejo
De prender o amor entre os dedos
E solar na página em branco
Uma ária chamada poesia
 
(Climério Ferreira)

O Macaco


                           
Luíz Horácio
 

         Não foi nada. Não passou de barulho. Nada. Foi o que sobrou dentro do armário de louças da cozinha. A partir do barulho nos vimos sem um prato, sem um copo, sem objetos quebráveis. Sem um objeto quebrável que não estivesse quebrado.

Tudo se deu quando Thamara, no esplendor de seus quatro para cinco anos decidiu escalar o armário. Faltou combinar, faltou a aquiescência do gigante de aço que mostrou sua discordância jogando-se por cima de minha filha. A sorte foi o tamanho, ou melhor, o tamanho da sorte foi a pequena estatura da menina. O armário não alcançou seu objetivo, interrompido pela pia da cozinha. Agachada sob o vão que se formou com o armário, Thamara, levemente assustada.

Não foi nada. Foi. Foi sim. Foi barulho. Barulho sim, mas sem grito.

- O que você queria?

- Subir

- Pra quê?

- Pra chegar lá em cima.

- E depois.

- Descer

- Por que não me chamou? Eu levantaria você.

- Eu sabia, mas queria fazer diferente. Não sabia que o negócio ia desabar. E agora?

- Agora o quê?

- Onde eu vou comer minha comida e beber meu suco?

- Vamos sair e comprar algumas coisas.

- Antes deixa eu contar o sonho que sonhei essa noite. Sei que você não gosta que lhe contem sonhos, mas desse você vai gostar. Posso?

Foi assim: você era um macaco.

-Eu?

-Sim.

- Então foi esse sonho que motivou a escalada do armário da cozinha, entendi. Eu um macaco, e você?

-Eu era a dona do macaco. O macaco era bonzinho, andava solto pelo apartamento, um dia minha mãe foi levar o lixo e o macaco, você, fugiu. Fiquei  muito triste pois todos os dias eu levava meu macaco à praia.

-Você não foi mais à praia, é isso?

-Só por que o macaco tinha sumido?

-Mas o macaco era eu, quer dizer que se eu sumir agora você vai continuar numa boa?

-Cara eu estou contando um sonho, um sonho com um macaco, que no sonho era você, é diferente.

-Minha cabeça estava no corpo do macaco, como eu era, quer dizer como era esse macaco?

-Pai, que vergonha!! Você não consegue se imaginar como macaco? Escolhe o macaco que você quiser. Posso contar o sonho?

Daí o tempo passou, eu continuava fazendo sempre as mesmas coisas, até que um dia... um dia... eu estava tomando banho e me dei conta que é muito chato fazer sempre as mesmas coisas. Foi por isso que ele foi embora. Dei um grito no banheiro, alto, tão alto, que minha mãe veio ver o que tinha acontecido.

-Aí você passou a fazer tudo diferente, deixou de ir à praia.

-Tá maluco? Continuei indo à praia, mas ia por ruas diferentes, um dia ficava ali em frente a Figueiredo, no outro ia para o posto seis, de vez em quando Leme.

-E quem levava você?

-Eu ia sozinha.

-Com esse tamanho.

-Era um sonho cara, era um sonho.

-E o macaco? Quem era seu pai?

-Meu pai era meu pai, mas ele não aparecia no sonho.

-E o macaco?

-Tá preocupado com o macaco ou com você macaco?  Egoísta.

-Termina essa história, precisamos sair para comprar uns pratos, uns copos. E aí...

-Aí eu acordei, cara, não sei se o macaco voltou. Será que o sonho volta de onde parou?

-Muito sem graça.

-Cara eu estava contando um sonho, vai dizer que seus sonhos sempre têm fim, duvido. Eu acordei e fiquei pensando... pensando e descobri porque os sonhos nunca têm fim. Não vai perguntar por quê?

-Por quê?

-Por que a gente não deixa. A gente não gosta do fim das histórias. Quer ver? Eu sei que você vai morrer primeiro que eu, velhinho... bem velhinho, mas eu não vou ver você morto, não vou querer saber de velório, enterro, você é o meu macaco, um dia você foge.

SERTÃO



Grande sertão, veredas
Uma viagem uma paixão
Tamarindo frutas azedas
Carro de boi submissão
 
Grande sertão, buritizal
Jagunço  guerra furacão
Cavalo espora tremedal
Mil  léguas de vastidão.
 
Riobaldo Zé Bebelo Diadorim
Amor escondido no gibão
Passarinho cantando para mim.
 
Sertão flor de mandacaru
Pedra  lajedo em minha mão
Semente berrante de urucu.
 
(Geraldo Borges)
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ilustração: Cavalgada de Carybé
 

Encontro

 
 
Hoje a revi depois de muitos anos,

é a mesma sublime criatura:

o corpo, o gesto altivo, soberana,

o mesmo olhar repleto de doçura.

 

 

Os cabelos, talvez, se não me engano,

Mudaram - mas a bem da formosura -

O riso, claro sol meridiano,

brilhando de meiguice e de candura.

 

 

Ela ficou. Pudera! Era uma santa.

Enquanto eu, a sós, no mundo a esmo,

andei a cata de aventuras tantas...

 

 

Só  num ponto mudou - hoje é senhora.

Mas o mesmo sorriso, aquele mesmo

que minha vida deslumbrou outrora.

 

 
Gerson Campos, Oeiras, 1968.

Irmãos e irmãzinhas, há 40 anos, Oeiras perdia sua melhor tradução: Gerson Campos. Radialista, poetas seresteiro e boêmio, Gerson deixou alguns poemas inéditos, agora editados no livro "Sonetos & Retalhos". Vejam uma pequena mostra da poesia desse moço que tinha sede de viver. Uma semana luminosa para todos. (Cinéas Santos)