domingo, 29 de abril de 2012

A Onça em Brasília


Edmar Oliveira
Brasília é uma cidade estranha. Fora a luminosidade do céu azul de arder nos olhos, que eu gosto, a grandiosidade da cidade de concreto enfiada na terra vermelha não me agrada. É tudo muito longe, parece uma cidade desabitada. Quase ninguém na rua, os automóveis compõe a cena da cidade-maquete em grande velocidade. Os carros só dobram à direita, mesmo que queiram ir pra esquerda. O transporte público é quase inexistente e o metrô voa com uma asa só. Os bares só diferem na decoração, pois tem todos a mesma planta com o banheiro em cima ou em baixo, nunca no mesmo plano em que se toma cerveja. Não consigo entender a numeração das quadras e sempre acho que estou no mesmo lugar. Mas ela continua lá, como uma cidade futurista no cerrado central do Brasil e decidindo os destinos da pátria com os três poderes em concreto armado.

Pois bem, comprovando a estranheza da cidade, os jornais noticiaram que uma suçuarana, isso mesmo, uma onça-parda, se aproximara demais do palácio da justiça, admirada com aquela cidade vazia que apareceu assim de repente entre a savana escassa do cerrado. Não foi a onça que se perdeu do seu habitat, foi a cidade que invadiu a savana há muito tempo. A onça estava escondida naquela cidade deserta e, vez por outra, comia um deputado do baixo clero que ninguém dava por falta. Funcionários públicos ela comeu de montão e não se notou a menor falta nos gabinetes parlamentares. O tempo passava e nossa suçuarana, cada vez mais gorda, se alimentava de gente que sobrava nos corredores do poder.

Um belo dia ela mordeu a perna do Sarney e deu com os burros n’água. Devia ter tentado comer o Demóstenes, que ninguém ia reclamar. Foi se queixar com a Presidenta e Dilma disse que ninguém rosnava mais alto do que ela no Planalto. E que Sarney era um aliado de primeira hora, assim como Renan, Collor, Barbalho e tais. Que a onça não se atrevesse a desfalcar a base aliada.

É certo que a Suçuarana foi se queixar na Justiça, justo quando os magistrados estavam engalfinhados numa briga interna na passagem do mais alto cargo daquele órgão. A onça não entendeu nada, pois achava que estava fazendo um bem a nação na sua comilança saneadora. Os juízes não quiseram ouvi-la e organizaram uma caçada ao felino. A polícia militar e os bombeiros foram chamados para pegar a onça.

Acordei com o jornal meio caído, mas na certeza de que a história que eu sonhei era muito melhor da que estava escrita. Mas a suçuarana sumiu como apareceu deixando a impressão que meu sonho bem podia ter acontecido.  

LIKE A DOG OR LIKE A DOG


Lázaro José de Paula

  " Mais luz "
Ao morrer,  assim bradou  o  germanico  bardo
"Eu  sou  John Lennon "
assim  falou o proprio depois  de três balaços  mortais.
No meu ultimo  estertor,
se ainda me  restar  o  dom da  fala
direi,  simplesmente,
amei como  um cão
quer  dizer :  incondicionalmente
s i n c e r a m e n t e
e  todos  os meus  pecados
sejam  eles capitais,  veniais,  mortais
se  resumirão  em  um  só :

É  SABER  QUE  EU  SEI  DE  COR  A  COR  DO  TEU  SORRISO

P.S.  EU  SOU  UM  RIO  QUE  CORRE  AO  SABOR   DO  TEU  FEITIÇO

As pegadas do gênio



FABIO SILVESTRE CARDOSO


Afonso é um andarilho. Passeia — como sugere o título do livro de Luciana Hidalgo, O passeador — pelas ruas de um Rio de Janeiro ainda em franca transformação. Mais do que um crítico intransigente na periferia do capitalismo, trata-se de umoutsider que percebe a cidade em transição: no romance de Hidalgo, ele será um personagem; na história da Literatura Brasileira, será Lima Barreto, autor, entre outros, de Triste fim de Policarpo Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha. Obra oriunda de uma criativa imaginação literária (o argumento fundamental do romance, a vida de Afonso antes de ser Lima Barreto, é algo original por aqui), o livro de Luciana Hidalgo possibilita aos leitores, logo de cara, um conhecimento do universo ao qual o escritor pertencia. Oferece, nesse sentido, a chave de entrada para um ambiente que muitas vezes só é reconstituído graças aos livros de história da República Velha.

A motivação para tanto parece óbvia. Afinal, um dos “principais legados” da Semana de Arte Moderna em particular, e do modernismo em geral, foi efetivamente esvaziar de significado a geração que a precedeu. Note, leitor, que estamos diante de uma agenda cultural que obedecia, como poucas vezes visto por aqui, uma espécie de poética, a saber: a literatura brasileira e os demais segmentos artísticos deveriam, segundo essa perspectiva, romper com a tradição e com as movimentos que rezavam pela cartilha eurocêntrica do mundo. É bem verdade que aí reside uma bela contradição, afinal, alguns dos expoentes do modernismo brasileiro, sobretudo na primeira fase, tiveram sua formação e educação sentimental na Europa. Ainda assim, conforme exigia o manifesto de Oswald de Andrade, souberam superar essa influência, removendo o beletrismo da produção cultural brasileira. E é aí que a importância de um escritor como Lima Barreto se revela, uma vez que, mesmo antes dessa agenda (no começo do século 20), o autor havia se separado, do ponto de vista da linguagem, de certo artificialismo da produção cultural — para citar alguns nomes, Coelho Neto, Olavo Bilac. Com isso, a prosa do autor, contrastando de alguns de seus contemporâneos, é fluida, sem conter o rebuscamento oco da República dos bacharéis.

Nesse ponto, o livro de Luciana Hidalgo presta homenagem à altura ao escritor Lima Barreto, haja vista que a autora também se propõe a escrever de forma clara e lúcida, sem descuidar de certo apuro na forma. É bom que se diga: dos escritores brasileiros contemporâneos, incluindo aí alguns premiados, poucos conseguem manejar o texto em prosa de forma a um só tempo bem elaborada e com recurso de imaginação literária. Dito de outra maneira, embora o tema do livro em si seja bastante pertinente, é pela forma que a narrativa conquista o leitor. Vale a pena observar, a título de exemplo, a abertura do livro, dessas capazes de conquistar o leitor à primeira vista:


Afonso arrasta os pés pela terra seca, deixando uma trilha de pegadas displicentes. Tanto calor a essa hora o faz pensar num deserto desconhecido. Alheio ao sol, ele avança sonolento, olhos fixos no chão. A cabeça, sem pensamento, deixa-se conduzir pelos calcanhares ligeiros, estes sim sob o comando do corpo. Pousam, levantam, pisam em pontes improvisadas. Ao alcançar o trecho calçado, ele enfim encara a paisagem à sua frente. Tudo aí é de uma solidão cimentada. Está diante da avenida Central que, em construção, rasga, o centro do Rio de Janeiro num sorriso esburacado e perverso.
Com efeito, o parágrafo acima é a materialização de uma descrição bem estruturada, capaz de fazer com que o leitor observe efetivamente o passo a passo desse personagem. Na leitura, nota-se ainda como o narrador discorre sobre as partes do corpo deste Afonso (pés, cabeça, olhos); de modo semelhante, está evidenciada uma espécie de prosa poética, fruto, sem dúvida, de um envolvimento mais próximo com o universo da palavra. Isso não é pouco, mesmo em tempos, como os de agora, em que todos desejam posar como escritores. O narrador do romance de Luciana Hidalgo é muito mais do que uma testemunha de um gigante literário em formação. Trata-se, isto sim, de uma voz que se estabelece sem medo da grande referência que representa Lima Barreto para a literatura brasileira.


À medida que a narrativa avança, o leitor observa como surgiram os temas que forjaram a literatura de Lima Barreto. O artificialismo vazio; a estrutura social hierarquizada que remetia ao Antigo Regime, mesmo em tempos republicanos; a estrutura rígida do governo que acabava de chegar ao poder. Esses e outros pontos tornaram a prosa do autor de Clara dos Anjos o contra-exemplo da Belle Époqueda capital federal. Nesse cenário, escritores desprovidos de talento genuíno ascendiam ao estrelato do grand monde das letras graças aos conchavos, enquanto Afonso, esse personagem idealizado, fica à margem, entre o riso e a melancolia, passeando pelas estantes, procurando as leituras que servirão de referência à sua obra.


Olhar atualEspecialista em literatura brasileira e pesquisadora da obra de Lima Barreto, Luciana não se vale desses títulos para compor esse livro. Em verdade, a não ser pelo enredo contemporâneo, o romance certamente poderia ser assinado por outro escritor que não tivesse as mesmas credenciais acadêmicas para tanto. Longe de ser um problema para a autora, trata-se, sim, de demonstração de sua capacidade de imaginação ficcional. Há que se notar, entretanto, que o livro utiliza como pressuposto um olhar contemporâneo e cínico, inventando um personagem que existe à frente de seu tempo. Em outras palavras, enquanto a literatura brasileira estava atenta a um momento extraordinário, com escritores fabricando uma cena intelectualizada artificialmente num país periférico, o Afonso de Luciana Hidalgo, como que repetindo o Lima Barreto visto pela lupa de nossos dias, é um satirista e um cínico em formação na melhor “tradição da pós-modernidade”.

FABIO SILVESTRE CARDOSO
É jornalista. Vive em São Paulo (SP).

Tempo


Geraldo Borges

O relógio parado
O descanso devido
Melhor não dar corda
Jaz o tempo dormindo. 
.
O sono é o mergulho
Em águas paradas
Para limpar o entulho
Do abismo do nada. 
.
Relógio ponteiro
Hora de despertar
Por que tão ligeiro
Se o galo não cantar? 
.
As horas incertas
Quem sabe as precisas
São veias  abertas
Que não cicatrizam.

klöZ por 1000TON

DYLAN BATENDO PERNA PELAS RUAS DO RIO


Aderval Borges

Alguém do calibre do Dylan baixa no país e os repórteres são logo escalados para escrever a baboseira de rotina. Ou seja, cobrir Dylan é quase tão necessário e importante quanto cobrir os preços das flores e das velas no Dia de Finados. Entrevista-se um bando de pessoas, remete-se às passagens da história do cara que todos conhecem e dá-lhe lugares-comuns.

Talvez por isso a assessoria do músico americano avisou os veículos nacionais com antecedência que, durante a turnê pelo país, ele não atenderia à imprensa. Portanto, necas de coletiva e necas de seções de fotos.

A cobertura mais interessante e descompromissada foi uma pequena reportagem ocasional do Jotabê Medeiros, do jornal O Estado de S.Paulo. Por ser um dos melhores setoristas atuais de música – cobre da popular (dos vários gêneros) à erudita (também dos vários gêneros e épocas) – o pautaram para ir aos points habituais dos artistas estrangeiros que chegam ao Rio, a fim de tentar encontrar o homem e conseguir furar o esquema. Ou seja, Jotabê foi forçado pela chefia a falar com ele de qualquer maneira.

Encontrou os músicos num bar de hotel, mas disseram que não faziam ideia de onde o Dylan estava. Depois de muitas idas e vindas, Jotabê voltava para a sede da sucursal do Estadão de carro, quando a fotógrafa que o acompanhava apontou para uma figura idosa esquisita andando pela rua de casaco (num calor dos diabos), gorro e botas de cowboy. Era o cara!

Jotabê se aproximou e Dylan logo disse no coments. Mas o repórter mentiu. Disse que não era jornalista e só queria uma foto para pôr num blog pessoal. Dylan topou ser fotografado ao lado dele, na clássica relação artista/fã. Conversaram rapidamente e o velho ogre disse que o bom de ficar velho é ter se tornado qualquer um. Afinal, os únicos que o tinham reconhecido àquela altura eram eles (o repórter e a fotógrafa).

Pediu informações sobre um lugar agradável para tomar umas e comer. Jotabê deu a dica, mas disse que ficava um pouco longe. Tudo bem. Iria a pé mesmo, para apreciar a cidade.

Um cena tonta, mas do cara real de agora, completamente avesso ao estardalhaço da matéria abaixo.



A ARTE DOS EXTREMOS DE BOB DYLAN VOLTA AO BRASIL

Fonte: Valor Econômico (19/4)

Bob Dylan, que corre o Brasil com sua Never Ending Tour (a turnê que nunca acaba), é uma das figuras mais luminosas da cultura popular planetária. Em cinco décadas de vigorosa atuação, Dylan - persona criada por Robert Allen Zimmerman, de 70 anos, em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas (1914 - 1953) - pratica sobretudo a arte dos extremos.

Emigrado de Minnesota, aspirava ao sucesso enquanto passava fome em Nova York. Anos mais tarde, apontado como a voz da geração que protagonizou as mudanças comportamentais dos anos 1960, esforçou-se para afastar de si o cálice ("Não me venham com essa de queridinho da rebelião", rosnava à imprensa). Foi o primeiro "traidor do movimento" ao empunhar uma guitarra elétrica em pleno Newport Folk Festival, em 1965. Próximo das anfetaminas, introduziu a Cannabis sativa ao cotidiano dos Beatles. Lançou álbuns sublimes, e outros nem tanto. Criou e deu de comer a boatos sobre sua vida pessoal. Na década de 1970, judeu, converteu-se ao cristianismo e pregou a fé - para, nos anos 1980, renegá-la. Em apresentações ao vivo, modificou a estrutura de seus maiores sucessos ao ponto de especialistas não os reconhecerem. Tudo isso amparado por uma produção textual cuja robustez o inscreveu no panteão dos poetas gigantescos.

"Bob Dylan, a meu ver, seria apenas um ótimo intérprete country ou folk, com incursões no pop rock, se não fosse a extraordinária qualidade das letras dele. Sua poesia faz a diferença. E, claro, sua atitude", diz Claudio Willer, poeta, tradutor e doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP). "Temas como 'Like a Rolling Stone' ou 'Mr. Tambourine Man' são abertos, ambivalentes, imagéticos - entre inúmeros outros exemplos que poderia extrair de sua obra. Sua formação é ao mesmo tempo musical, com uma recuperação de uma tradição, um mergulho em raízes americanas representadas, por exemplo, por Woody Guthrie, e literária: um leitor de poesia, um apaixonado por [Arthur] Rimbaud, e que saiu de casa e mudou tudo em sua vida após ler 'On the Road', de [Jack] Kerouac."

Para Ademir Assunção, poeta, compositor e editor da revista literária "Coyote", Dylan remete tanto ao trovadorismo medieval quanto ao modernismo russo. "Ele é uma espécie de trovador, como eram os poetas da Idade Média: além de enriquecerem a experiência da linguagem humana, eles levavam e traziam notícias de um canto a outro da Europa, em suas andanças", afirma Assunção. "Nas melhores canções ele entra em sintonia com aqueles famosos versos de [Vladimir] Maiakóvski: 'A poesia / toda / é uma viagem ao desconhecido'. Para alguns, isso pode parecer pura afetação. Mas quem frequenta os abismos da linguagem sabe do que estou falando. A linguagem poética, ainda mais quando surge no contexto da música e do canto, pode nos levar a alturas e profundezas inexplicáveis."

A lírica de Dylan também seduz o poeta Fabrício Corsaletti. "Ele é capaz da mais extrema delicadeza, como um [e.e.] cummings, como um [John] Keats, e ao mesmo tempo consegue ser tosco e sujo, estilisticamente falando, como a prosa de [Fiódor] Dostoiévski", observa.

As peças musicais elaboradas pelo compositor americano alimentaram o repertório de incontáveis artistas. A lista de releituras é assustadoramente diversa. E o cantor e guitarrista Jimi Hendrix (1942 - 1970) certamente é um dos que figura nela em posição de destaque. "Existia uma admiração mútua entre esses dois monstros que mudaram toda estética do rock. Minha interpretação favorita de Dylan por Hendrix é 'All Along the Watchtower', uma releitura soberba que enobreceu a força literária da letra com timbres poderosos de guitarra", diz Alberto Marsicano, citarista, escritor, filósofo e tradutor. Pensamento semelhante ao do rapper BNegão: "Nos meus tempos de colégio, depois do rap e do punk rock, comecei a ouvir muito blues e Jimi Hendrix. E, a partir do guitarrista, chapei demais no som e nas letras do mister Zimmerman", diz o líder dos Seletores de Frequência e ex-Planet Hemp.

No cancioneiro popular brasileiro, Dylan surgiu pela primeira vez na década de 1970. Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti assinaram a versão de "It's All Over Now, Baby Blue", que teve o nome "Negro Amor" sugerido pelo artista plástico Rogério Duarte. A canção foi lançada por Gal Costa, no álbum "Caras & Bocas", em 1977 - e foi regravada depois por Zé Geraldo, Engenheiros do Hawaii, Zé Ramalho, Toni Platão, entre outros. "Caetano havia escolhido a música e me chamou para desenvolvermos juntos a tradução. A ideia original era que Maria Bethânia gravasse, mas ela não se entusiasmou. Mostramos 'Negro Amor' para Gal e ela adorou. A gravação foi um acontecimento", conta Cavalcanti, lembrando que os censores da época implicaram com o verso "Seus soldados desarmados não vão mais lutar". "Acabamos trocando soldados por guerreiros e, só aí, a versão foi liberada", diz o músico, que já visitara a produção de Dylan em circunstâncias menos claustrofóbicas. "Morei na França em 1969 e toquei muito violão no metrô de Paris. Cantava 'Mr. Tambourine Man' junto com 'Asa Branca', de Luiz Gonzaga."

Ainda no Brasil setentista, "Ouro de Tolo", sucesso de Raul Seixas, lançado em 1973, no álbum "Krig-ha, Bandolo!", tinha inegável acento dylanesco, E, evidentemente, a versão de "Blowin' in the Wind", defendida por Diana Pequeno, em 1978.

Da geração que despontou no cenário musical nos anos 2000, outro brasileiro bastante familiarizado com a obra de Dylan é Helio Flanders, cantor e compositor do Vanguart. Tanto que não foram poucos aqueles que acreditaram ser o cuiabano o novo Zimmerman dos trópicos. "Eu cantava em inglês letras longas com influência beatnik, violão folk, voz chorosa e uma gaita pendurada no pescoço. O que isso significa? Pronto, mais um exemplo do quão Bob Dylan está presente na cultura pop. Não importa como eu soasse, todos olhavam e diziam: 'Bob Dylan'! Nada mal para um garoto chegado do interior para tocar suas canções sobre trens e viagens", diz Flanders. "Gosto de todas as fases, inclusive da gospel. Cheguei a estudar todas as suas canções folk, mas se tiver que escolher um período acabo ficando com o mais emblemático, aquele entre 1965 e 1966, e os três irretocáveis álbuns 'Bringing It All Back Home', 'Highway 61 Revisited' e 'Blonde on Blonde'."

Homem de fases, o paradoxal Bob Dylan continua na estrada. Ao final da etapa brasileira, a turnê segue para Argentina, Chile, Costa Rica e México. Aos europeus, exibe-se em julho. Do alto de seus milhões de discos vendidos, prêmios como Grammy, Globo de Ouro e o Oscar na estante, condecorações honorárias de universidades, livros e longa-metragens a decifrar-lhe, o bardo é uma miríade de significados. Um mito que se arrisca, e que, não raro, se contradiz. Talvez o mais demasiadamente humano dos ícones.


Sabência


Os moços das ferrovias
sabem do descarrilamento dos trens

Antigos poetas românticos
sabiam da fragilidade das flores

Os habitantes das ilhas do pacífico
sabem das inconstâncias dos mares

Os lavradores das terras mais ressequidas
sabem da imprevisibilidade das chuvas

Os habitantes das grandes cidades
sabem da falta dos gestos de amor

Por que ninguém toma conhecimento
da existência dos meus efêmeros versos?

(Climério Ferreira)
____________________________________
ilustração: Gabriel Archanjo

Da Costa e Silva


À MARGEM DE UM PERGAMINHO

De Pero Vaz  Caminha, ei-la tal qual
A letra nesse trecho exato e fiel
Da Carta dirigida a D. Manuel,
– O Venturoso, Rei de Portugal
.
“Pola manhã, Pedr’Alvares Cabral,
Ao longe…(aqui a traça fez cruel
E terrível estrago no papel)
… que houve por bem denominar Paschoal”


1500. 22 de abril.
Aos primeiros rubores do arrebol
Vêem-se as altas palmeiras do Brasil.


E reza a carta: “o céo he mais azul,
O mar mais verde, mais brilhante o sol”…
No coração da América do Sul.


(Da Costa e Silva - Pandora - 1919)

Alzheimer


dia e noite chorei minhas perdas
agora minhas lembranças são remotas
nada sei do hoje

ela se inflama

e atemporais
sem pés no chão
gritamos

mas eu nem me lembro de onde lhe conheço

(João de Carvalho Fontes)

Música de George Tabatinga para uma exposição fotográfica de Paulo Tabatimga

domingo, 15 de abril de 2012

Sigam-nos os que forem brasileiros

Edmar Oliveira
Não gosto quando recebo “correntes” que esculhambam o parlamento nacional genericamente, quase sempre dando a entender que os “políticos” são desnecessários. Sei até que, na sua maioria, eles não merecem a defesa que faço aqui. Mas é que carrego um trauma de “história”. Vivi sob os anos de chumbo, e sei como nos foi caro conquistar a democracia e a democracia tem no parlamento um poder necessário para legislar.
Muito do que bem: a democracia tem um preço. Sei que estamos pagando muito por ela, na roubalheira que se tornou um ato natural da nossa política, mas melhor com ela (democracia, não a roubalheira) que sem ela. Claro que quero a apuração e a condenação dos ladrões, mas isso deve se fazer dentro da democracia. E é no seu aperfeiçoamento que os ladrões são pegos e devem pagar por seus atos. E foi no aperfeiçoamento da democracia que um Demóstenes foi pego tomando banho de cachoeira. O nosso “moralista” de plantão era cria da ditadura (não esqueçamos que o DEM foi uma das denominações da antiga Arena, partido de sustentação dos militares) e na ditadura era possível exercer esse papel sem ser pego. Não se podia investigar nada. Os “acima de qualquer suspeita” nunca foram pegos.
O caso de nosso Eike, sempre ele, Batista, filho de um colaborador da ditadura que enriqueceu nas sombras dos anos de chumbo onde nada era investigado. Se hoje o filho pode comprar a metade do Brasil é porque herdou o começo de sua fortuna dos negócios escusos do pai. Se o pai se aliou à direita, o filho se alia ao PT, porque a ambição não tem ideologia. Os Marinhos fizeram a Rede Globo numa concessão “perpétua” por apoiar o governo militar e enriqueceram em negociatas na sombra da ditadura. O jornalista Emir Sader escreve sobre esse período: ”ferida que nunca cicatrizou, porque nunca foi tocada: empresas e empresários financiavam a tortura, a repressão desatada pela ditadura militar e enriqueceram durante todo esse período. Quem são? O que fizeram? Quanto ganharam? Foram anistiados também pelo decreto da ditadura militar?”
Eu tenho medo ainda hoje do medo de ontem onde não se podia falar. Hoje os ares democráticos me deixam xingar o ladrão. E atiçar a opinião pública para que a justiça acorde e se apresse em condenar essa canalha. Os corruptos tem saudade de ontem. Se acabar a democracia, melhor pra eles. Vão roubar à sombra dos fuzis.
Por isso me preocupa desmoralizar o congresso nacional como instituição. A democracia precisa dele. Os Demóstenes vão sendo desmascarados e justiçados num sábado de aleluia.
Outro dia circulou na internet uma mensagem indignada dos brasilienses, com a qual concordo. Dizia algo tipo assim: “Parem de falar mal de Brasília. Aqui não só tem ladrão. A maioria deles são vocês quem manda pra cá, de todo canto do Brasil, pelo voto. Aprendam a votar!”
Justa e sincera indignação. E o Piauí já começou fazer a sua parte. Vocês repararam que os piauienses cassaram o mandato de horripilantes figuras políticas conhecidas nacionalmente? Não reelegeram o ridículo e péssimo humorista Mão Santa, que tanto envergonhava nossa terra. Também tiraram o mandato do gordo e grotesco Heráclito Fortes, que palavras insensatas não lhe cabiam na boca. Acabaram com o governo do DEM, do poderoso ex-senador Hugo Napoleão, um americano naturalizado piauiense que enchia a capital federal de uma laia poderosa do séquito do governador bonitinho, mas ordinário, último representante dos coronéis piauienses.
Fizemos a nossa parte. Sigam-nos os que forem brasileiros. Ou como diria um de nós, quando meninos, indo mijar na moita, parodiando o Duque de Caxias: siga-me os que forem brasileiros.



    

Fim de Ciclo



nosso amor cumpriu  seu  ciclo
correu   risco,  arisco , corisco
cumpriu  seu  destino
varou sete mares,  veredas  tropicais
pontos  cardeais
olhos  de  furacões
brilhou  intensamente
depositou  flores  no batente
pirou  que  nem  demente
atiçou  os  nossos   ais
criança  malvada,  mimada
sumiu  na  poeiira   de  estrelas
levando as  lentes  do míope
no meio  do  tiroteio
na  ponta  do  turbilhão
andamos  em  círculo  desde  então
e  para  nos  apoiar
nenhum  fio,  nenhum  vínculo
nenhum  corrimão

(Lázaro José de Paula)

Alumínios Areados

Geraldo Borges

         Era um dia azul de sol, desses que iluminam, com nuvens de seda, o céu nordestino.

Eu vinha chegando à casa de um amigo juntamente com ele. Na entrada, ao transpormos o terraço vimos  em cima do muro que cercava a casa, mais ou menos, no fundo da cozinha, um fileira de objetos de alumínios, panelas, caçarolas, copos, frigideiras, todos brilhando, limpos de gordura, de sujeira.

É que sua mulher acabara de areá-los. E colocara-os para secar em vez de se dar ao trabalho de enxugá-los com pano de prato feito de algodão. Os alumínios, além de sua utilidade no cotidiano estavam dando um espetáculo gratuito.

Notei, em meu amigo, um gesto levemente aborrecido quando deparou - se com os alumínios faiscando ao sol em cima do muro. Talvez não tivesse se tocado com a gratuidade do fenômeno que a sua mulher lhe apresentava. Quanto a mim, ao contrário, a luz dos alumínios me fascinou, os vi como se vê uma obra de arte. Um presente espontâneo que aparece quando menos se espera

Nunca me esqueci deste acontecimento, não só pela beleza que ele me proporcionou, como, também, pelo gesto aborrecido de meu amigo em constatar que sua mulher podia arear alumínios, se comportar como uma simples domestica. (ambos eram intelectuais)

Quanto a mim adorei o desprendimento de sua mulher, que, através do ato domestico, criou outra dimensão de beleza que estava ali em minha frente luzindo e reluzindo e criando prismas e sombras conforme o caminho do sol pelo céu azul daquela manhã nordestina.

Cowboy Bob está de volta


Aderval Borges
Pelos idos anos 1980, constituímos um grupo de São Paulo mais ou menos nos moldes das diretrizes construtivistas já experimentadas em outro grupo que tivemos em Brasília. Tudo o que não queríamos era fazer teatrão profissional. Durvalino Couto, de Teresina, estava em ambas experiências. Àquela altura, que me lembre, apenas dois grupos paulistanos convergiam para o que fazíamos: o Ornintorrinco e o XPTO.

Mas o primeiro se fundamentava apenas nos musicais de Bertolt Brecht/Kurt Weill. Brecht era apenas uma de nossas referências. O XPTO era um grupo de pessoas muito talentosas que mesclavam um apurado trabalho corporal– com pantomima, mímica e dança – com ótimas soluções cenográficas.

Discutíamos muito o que Brecht nos deixou de legado (não propriamente sua dramaturgia política, mas suas técnicas de treinamento de atores), Gordon Craig/Artaud (ambos convergiram para um conceito alegórico do ator), o suíço Adolph Appia (para quem a cenografia era tudo e o ator apenas com portador de significantes visuais), Grotowski/Artaud (convergiam ambos para o conceito do teatro enquanto ritual) e Vsevelod Meyerhold (que unia todos acima em espetáculos frenéticos que, suponho, só seriam comparáveis, no Brasil,às excelentes duas montagens feitas aqui pelo diretor argentino Victor Garcia).

Certa feita estávamos em entusiasmado bate-papo num boteco sobre esses caras todos, quando de uma mesa ao lado veio a questão: “E Bob Wilson?” Era Luiz Roberto Galizia, um dos fundadores do Ornitorrinco. Galizia falou um monte sobre Wilson naquele dia. Depois nos emprestou estudos sobre o diretor americano e nos deu cópias de apontamentos seus para a montagem do espetáculo monstrengo (durava 12 horas) chamado The life and times of Joseph Stalin. Esse espetáculo foi apresentado em 1974, em São Paulo e Rio, e influenciou vários diretores brasileiros, dentre os quais Anthunes Filho e Gerald Thomas.

Wilson não trabalhava com atores convencionais; e essa era uma de nossas metas. Via o espetáculo como um processo criativo em grupo, sem hierarquias e sem predominância do texto. Era tudo o que vínhamos discutindo. A partir daquele momento o gringo entrou para nossa lista de referências. 

Wilson veio várias vezes no Brasil. Numa delas pude acompanhar uma palestra dele no Sesc Vila Nova, em São Paulo. Era uma figura completamente atípica para a meia dúzia de interessados que se dispuseram a ouvi-lo. Com seus quase 2 metros de altura e jeitão grosseiro, mais parecia um cowboy desses que vêm ao Brasil montar em bois nas festas de peão. Naquela conversa falou mais sobre John Cage, que morrera há pouco tempo, do que sobre seu próprio trabalho.

Ele agora volta para apresentar A última gravação de Krapp, de Samuel Bekett, na qual trabalha comoa tor. Suas respostas a uma entrevista publicada na edição de O Estado de S.Paulo de 25/3 são idênticas às que deu ao pequeno público que foi ver sua palestra no Sesc Vila Nova (minha memória de peixe não me permite recordar o ano).

Diz que não faz propriamente teatro, mas uma arte abstrata destinada ao palco, que reúne várias linguagens e meios de expressão, incluindo interpretação de atores. O modo como trabalha continua o mesmo: reúne pessoas diferentes – algumas escolhidas, outras ocasionais – e passa a trabalhar com elas como se fosse fazer uma comida coletiva. Põe alguns ingredientes na mesa, sem a melhor ideia do que irá resultar, e cada qual passa a dar o direcionamento, conforme seus talentos e interesses.

Por que, com raras exceções, nunca trabalha com atores profissionais. “Qualquer um pode ser ótimo ator. Bom ator é o sujeito que está bem com aquilo que irá fazer. Mesmo que nunca tenha feito aquilo, se ele se sentir confortável com seu corpo, tiver boa intuição e capacidade de discernimento, terá capacidade natural de assimilar as técnicas e se comunicar com a plateia. Isso é o bastante.”

Embora a crítica (inclusive nacional) o coloque na categoria dos diretores herméticos, difíceis, diz que não há mistério algum no que faz. “Meus espetáculos se constituem essencialmente de movimentos e luz. É tudo muito simples.” Sobre a evolução do seu trabalho, acha que isso não existe, porque sempre quis fazer o mesmo espetáculo. “Muda a forma, mas é sempre a mesma coisa.” Diz que faz mais ou menos como Proust, que dizia sempre escrever o mesmo romance. E que aparentemente está sempre mudando porque trabalha com pessoas diferentes; ou seja, são elas trazem novidade ao que faz.

Para ele, o principal de sua arte não é o resultado final, mas as pessoas com as quais trabalha no momento. Já fez parcerias com John Cage, Willian Burroughs, Allen Ginsberg, Tom Waits, David Byrne, Phillip Glass, Lou Reed e muitos outros, mas “nenhum desses caras” são mais importantes que as pessoas não conhecidas com as quais trabalhou.

Quando a mídia o alça a algum período de fama, dá um jeito de puxar o carro e sair de cena. Foi assim que se enfiou numa cidade do interior do Canadá para montar um espetáculo que tinha como parceiros de criação e atores uma dona de casa, um lenhador e um guarda florestal. Sua monstrenga The life and times of Joseph Stalin não envolveu nenhum militante de esquerda. Foi produzida numa dessas retiradas durante um período de convivência de dois anos com um garoto autista– segundo ele “um gênio” – que nunca tinha ido à escola e não saía de casa.

Considera-se uma pessoa com “algumas deficiências”. Diz que tem boa intuição, mas que é muito lento para compreender as coisas (embora quando as compreende é “com certa clareza”) e péssimo para tomar decisões. Razão pela qual se deu muito mal no sistema de ensino americano. Grandalhão, gago, caipira, tímido... era sempre o idiota da turma. A família o mandou para a Europa. Também foi um fiasco nas escolas de lá. Então achou que tinha de superar aquilo de alguma forma. Aproveitou a estadia europeia para entender o que levara à arte moderna (dada, cubismo, cubo-futurismo, etc.), à poesia de Mallarmé e à música atonal. Também via muito cinema (Charles Chaplin); mas teatro, quase nada.

Gosta muito de Samuel Beckett porque, do seu ponto de vista, ele nunca foi um dramaturgo. “Beckett não escreve textos, escreve silêncios e imagens.” Acha que os textos do irlandês remetem a coisas muito primárias e que as pessoas não o entendem porque elas, sim, é que são complexas. Acha que os personagens de Beckett são tragicômicos. Ao encontrar com o dramaturgo, ficou muito feliz de saber que ele também adorava Chaplin e Buster Keaton.

Diz que detesta atuar. Só está atuando na Última gravação de Krupp porque é um texto de Beckett e não apareceu ninguém para fazer o papel. Também sentiu necessidade de ir ao palco para melhorar sua performance na direção. Mas que prefere assistir aos espetáculos e que talvez só por isso se tornou diretor. De qualquer forma, acha que qualquer pessoa que trabalha em uma de suas montagens pode assinar a direção.

Assim como fazia Grotowski, ele mantém com a grana que ganha um centro técnico, chamado Watermill Center, no qual trabalham pessoas “não artistas com vários interesses”. Não necessariamente em seus espetáculos. Diz que, atualmente, o centro congrega cerca dezenas de pessoas de todas as idades, de várias nações, com credos, idades e classes sociais diferentes. “Nós trabalhamos de maneira oposta às universidades, que são departamentalizadas“. O Watermill Center nem tem sede própria. “Está sediado no país onde se encontra no momento.” Em 2013 e 2014 pretende instalá-lo no Brasil. O que fará por aqui? “Sei lá, vai depender dos brasileiros.”

O velho Bob está com 70 anos. Chamam seu teatro de “minimalista”, mas ele próprio nunca usou a expressão para definir o que faz. Teses e mais teses foram escritas sobre esse sujeito que não dá a mínima para o conhecimento acadêmico.

Continua com a mesma aparência tosca, honesta, avessa ao estrelismo de quando o vi no Sesc Vila Nova. Depois de Meyerhold, Brecht, Grotowski, Appia, Artaud e Craig não conheço ninguém tão interessante quanto ele no teatro das últimas cinco décadas (as que vivi). Talvez Victor Garcia, mas este a esquizofrenia pôs a nocaute muito jovem, após ter montado cinco espetáculos geniais, dois deles no Brasil: O balcão e Cemitério de automóveis.

klöZ

olhar e ver


                        (sobre foto de Heykel Tras)
                O que se pode dizer?
                Olhar apenas não basta;
                o  essencial é ver !
                          (Cineas Santos)

Ausência

Paulo José Cunha

Quando eu sair,
fechem as portas e janelas do meu quarto
para que não fuja
o perfume da memória.

(quero encontrar, na volta,
o menino
rabiscando na mesma escrivaninha,
as garatujas de sempre
e acompanhando, pela janela, no quintal,
o vôo dos pássaros de abril).

Black bird U.S.A


O voo livre do pássaro
De metal
São penas de plásticos
A Iludir as massas
E o canto pré-gravado
E sampleado soa falso
E adulterado
E o sonho de mundo melhor
É sepultado!
São aviões não-tripulados
Voos mortais a fazer vítimas
Pelo mundo pobre...
Ei senhor Robert Bales
Quem atirou e matou...
O meu sonho?
Sonho de liberdade...
E de um mundo melhor!
São penas sintéticas
E abstratas!
Voos vazios
São voos não tripulados
A fazer vítimas invisíveis
Impossíveis!
São sonhos falsos
Quem alguém
Inventou
Quem tripula os "drones"?
No jogo mortal
Que ninguém vê!
O voo livre do pássaro
De metal
E não tripulado
E a mira do senhor Robert Bales
Mira impossível
E abstrata
Que ninguém condena

(Samuel Costa é poeta em Itajaí) 

UFAL por Gervásio

Francisco de Assis Lemos nasceu em Altos (PI), trabalhou em jornais de Teresina, foi sacaneado, comeu o pão que o patrão amassou, mas não desistiu de fazer o que gosta: desenhar.
Sua determinação justifica o apelido na sua incansável batalha pela sobrevivência, bar em bar, noite a dentro em Parnaíba (PI), cidade que adotou. 15 de abril é o dia mundial do desenhista. É dia de Ufal - o Guerreiro, mais de que qualquer outro que conheço!

o encontro de Lampião com Eike Batista

domingo, 1 de abril de 2012

O filho de Odin

Edmar Oliveira
.
Na mitologia nórdica, Thor é filho de Odin , o deus supremo de Asgard, com Jord, a deusa da mãe terra. É homem mais forte entre os homens e dispara relâmpagos com seu martelo mágico, que velozmente não errava o alvo e retornava às suas mãos. 

Na mitologia tupiniquim, Thor é filho de Eike, deus herdeiro da ditadura, com Luma, a deusa das passarelas e escolas de samba. É um homem bem invejado entre os mortais e dispara relâmpagos com seus carros importados, que não volta às suas mãos, mas são substituídos por outros, pelo pai, o rei do pré-sal e habitante das fortunas da revista Forbes. 

O martelo de nosso Thor, um Mercedes McLaren esportivo, atingiu a bicicleta de um simples mortal que atravessava o seu caminho na decida de Petrópolis. Interessante como, antes do resultado da perícia, a mídia dependente do deus Eike divulgou que tinha uma lata de cerveja presa ao pára-brisa do carro, certamente de propriedade da vítima e que esta estava embriagada (ainda por cima levando cervejas numa sacola para casa). O resultado da alcoolemia (o dobro do limite permitido) daria multa e perda da carteira. Ninguém se perguntou como a culpada vítima se equilibrava num veículo de duas rodas. E nem como uma bicicleta bêbada fez um estrago tão grande no carro do deus trovão.

Uma aeronave taxiando ou no começo da velocidade para uma decolagem, colidindo com uma ave não deixa marcas na fuselagem. Mas em velocidade de decolar, ou já no ar, o estrago é importante. O carro de Thor só pode ter atingido a bicicleta do bêbado em velocidade muito superior ao permitido. Para fazer aquele estrago no carro a bicicleta foi atingida a uma velocidade que não deu tempo ao possível desvio do motorista.  

E o bêbado morreu por uma martelada do deus trovão, sem tempo de saber que os deuses estavam contra ele, num cruzamento de pista sem sinalização de uma concessionária que nunca fez uma passarela ou passagem de nível para quem vai de um lado ou outro de Xerém. A família ainda insiste que o morto estava no acostamento, local onde o deus Thor já tinha atropelado um velho numa bicicleta na Barra da Tijuca.  

Tudo muito errado. O Mercedes McLaren e o Audi da Barra são carros esportivos, que na mão de jovens deuses podem virar uma arma mortal como o martelo de Thor. A culpa é de Odin...



  

Chico por Gervásio

delírio


Lázaro José de Paula

vou  precisar  de  ti  senhora
amanhã, ontem , hoje,  agora
pelo  menos  uma   cesta   básica  de carinho
pra  quem  é  estranho  no  ninho
pelo  menos  um berço
pra  nascer a  cada   dia
pelo  menos  um  beijo  de  hortelã
pro  sol  vingador  de toda manhã
e mais  um,  e  mais  um,  bem  vermelho
pra  cada   jogo   de  espelho
do  açoite  " crazy "  da  noite
vou  precisar  de norte,  de  sorte
coragem , band-aid,  bandagem
a imagem  do  teu  lenço  abanando o  ar
está  grávida  em  minha  íris
me  livre   desse   delírio
vou  precisar   do teu  meio
preciso  novamente   bicar  teu seio
preciso voltar  ao teu  índice
pra  que  ligues  o  meu  número
ouvir  de novo tua voz
pra  me  livrar  das  labaredas
do  lixo ,  do  luto
da  luta  sem  luz
contra a solidão atroz
_______________
desenho: Paulo Moura

Puxa o Fole


Edmar Oliveira

Domingo, dia 25 passado, estava programado para ir à Rádio Nacional ver o “Puxa o Fole” do meu amigo Sergival, comemorando dois anos no ar. Daquela vez, como de outras comemorações, o programa saía do estúdio para o palco mágico, onde, nos tempos áureos do rádio, desfilaram os maiores nomes do cancioneiro nacional. Repetindo os passos do grande Luiz Gonzaga no palco se exibiria “Zé Calixto”, o maior “oito baixos” em atividade.  

No táxi que peguei para ir à praça Mauá me aguardava uma coincidência, dessas que só acontecem a quem procura por elas. O “chofer de praça”, um pernambucano da cabeça raspada, além de conhecer o mestre, tinha levado o irmão “Luiz Calixto” do Hotel Flórida, no Flamengo, até ao subúrbio na casa de “Zé”. Luiz mora em Pernambuco e mantém uma “Escola de Oito Baixos” para manter viva a sonoridade do instrumento de difícil manuseio.  

A rádio fica no mesmo prédio de sempre. Um velho edifício perto do cais ainda conserva na fachada o INPI dos tempos do Instituto Nacional dos Previdenciários da Indústria. Quando se fecha a porta do elevador nos preparamos para saltar no corredor de paredes vermelhas que nos leva a um salão com fotos dos grandes artistas do passado. Um túnel do tempo: César de Alencar, Paulo Gracindo, Marlene, Emilinha, Cauby Peixoto, entre outros, observam os visitantes de agora com seus olhos de passado. Me senti um velho sendo observado por aqueles artistas em preto e branco engalanados nas fotografia que segurava o tempo. É uma emoção indescritível. 

No auditório o logotipo da rádio que tanto ouviu cantar os cantantes do microfone de 1130 kilohertz, ondas médias, AM nos rádios de hoje dominados das FMs. E José Sergival fazia seu programa, ao vivo, para todo Brasil, como nos velhos tempos. No palco, Zé Fidelis, Faísca, Beto Marron, faziam o sotaque nordestino. Depois foi a vez do mestre dos “Oito Baixos” que tirou choros, valsas e pé de serra do seu pequeno instrumento com som de poesia.  

“Puxa o Fole”, proposta de elegia do legítimo pé de serra nordestino, pode vir a recuperar para o presente o palco dos grandes artistas populares do passado. E José Sergival está de parabéns por essa bem sucedida empreitada.  

pardal


Salve pardal
Tão pobre de graças
O Senhor vos fez tosco.
Maldita seja a Mãe Natura
Na feitura do projeto
Cingindo numa só criatura
O bizarro e o abjeto.
O pio, antes mudo
O traje, um ultraje de luto
Sujo...
Voai, voai -  vossa única dádiva soberana
E mostrai com a indigente torpeza
O que tende em comum
Com a natureza humana.

(Jorge Simão "Curuca")

Paulo Tabatinga: antenas

1000TON, de volta: klöZ

Chuvinha Federal


Chove em Brasília agora
Dois candangos encharcados
Os ministérios afogados
A catedral ora e chora

Água cobre tesourinha
O buraco do tatu
Palácio do Jaburu
É federal a chuvinha

(Climério Ferreira)

ao que minha vida veio

Luiz Horácio


Este aprendiz, quando aluno de mestrado, conheceu um professor que disse, não sem a devida  pompa e arrogância, que pesquisava a(s) diferença(s) entre o regional e o universal em literatura. Para ele isso era regional, aquilo universal. É dos tais que separa literatura masculina e literatura feminina. Até quando? Com sua licença, estimado leitor, naquele tempo e atualmente, este aprendiz entende tal preocupação e referida pesquisa como  grandes tolices.

Prefiro Todorov: “Literatura não é teoria, é paixão.”

Desconheço criação, pelo menos no campo das artes, que não traga em sua origem uma grande paixão.

Cabe deixar bem claro que teoria e paixão podem andar juntas. Desde que, e aqui reside a questão que o tal professor bem que poderia tomar para si, acompanhadas da imaginação.

Exemplo: ao que minha vida veio..., autor: Alckmar Santos. Narrativa que apresenta uma sintaxe particular, não digo se tratar da fala do homem do povo, ou do caipira, muito menos do trabalhador rural semi alfabetizado, não pretendo ser tão  raso.

O cenário linguístico é outro. O cuidado com a linguagem chega a ser comovente. Não podemos dizer que este ou aquele personagem fale errado. Por mais exigentes que sejamos. Por falar nisso, a linguística nos impede de fazer essa distinção, certo e errado linguisticamente. Linguísticas à parte; as personagens de Alckmar podem não fazer uso do mesmo léxico que você, erudito leitor, e este aprendiz, no entanto, são incapazes de truncar a recepção, de turvar o sabor dessa requintada trama. Bem diferente de Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto, que exige um dicionário de termos campeiros. O que não extrai o tédio da maioria de seus contos.

Alckmar conta uma história sofisticada, exige total atenção, mas sem afetações, sem os excessos barrocos de Saramago e seus nefastos imitadores.



Tio Eli deixou um bilhete: Viva o amor

E pulou do ponto mais alto a que pôde chegar da sapucaieira maior das três que por lá havia.

Ao que minha vida veio... tem seu início lá pelos anos 30 e se estende por quatro décadas de intensa criatividade narrativa  onde o privilegiado leitor entra em contato com cenários e um elenco de  personagens e acontecimentos, reais e fictícios, suicídio de Getúlio Vargas por exemplo, todos coadjuvantes da trajetória  tropeiro Juca Capucho.

O autor não recorta a realidade para depois colá-la nas páginas do livro, não, a opção é outra, mais arriscada. Alckmar transforma, recria um mundo, experimenta, arrisca, inventa.

Impossível não lembrar Guimarães Rosa, cenário, personagens, linguagem, a relação do homem com a terra, com a sua terra. Relação que tem tanto poder de fertilizar ingenuidades, mas também pode produzir abjetos jagunços. Embora nestes, em Guimarães Rosa, também se possa notar traços de ingenuidade.

Mas Alckmar soube equilibrar a questão da linguagem, não impede a fluidez narrativa, com um sutil suspense que perpassa essa brilhante história, um policial/existencialista ambientado em região jamais explorada para tal fim. Quando alguém arrisca, inquieto leitor, gera o inevitável: ciúme. É isso, este aprendiz, terminada a leitura, sentiu uma pontada de inveja envolta em celofane de admiração.

Voltemos ao que interessa, ao luxuoso cerne da questão.



 A convivência harmoniosa da linguagem, erudita e popular, a opção pela rusticidade, sem perder a beleza, das frases,  os diálogos repletos de musicalidade da fala dos tropeiro, são suaves gritos de alerta: olha aqui, a literatura não acabou, ainda há o que inventar, vale a pena pesquisar a linguagem...

 Ao que minha vida veio é uma carreira em cancha reta. O cavalo, chamado Imaginação, é um ganhador, o jóquei precisa vencer, nem pensa em photo chart. O troféu: conhecer sua origem, descobrir o tesouro mais valioso; nomes de pai e mãe que lhe são negados.

Caro leitor, ao que minha vida veio... é um livro de se ler e reler.





TRECHO



Daí que esses anos todos, mais de dez, no-seguro e certo!, daí é então que esses todos anos se passaram como corredeira de pouca água em enchente de pouca monta. Houve alguns rebuliços no lá-longe de outros. Estados, agitações que a nós até chegavam sujeitas, agora, à intermitência dos reclames e dos noticiosos do rádio na forma de assembleias e golpes e contragolpes e abortadas revoluções, mas é mesmo que nada de nenhuma coisa alguma nos empurrava a atroar algum desacordo ou desacorçoo com o ramerrão da rotina seca e fria a que nos tínhamos. Aldebar e Altair, os tios idos a São-Paulo para os seus estudos, passaram por aqueles anos e escolas, meteram anéis de causídicos e alianças de casados, esmeraram-se em  empregos públicos cavados nos tempos e termos de governo de Adhemar Pereira de Barros e nem mais deram caras e vistas na casa-grande, eles também esquecidos, e mesmo talvez mais. A criançada cumpriu seu ofício de ir crescendo e saindo, agora cada vez mais cedo, para os devidos e já esperados estudos no Ginásio Nogueira da Gama de Guaratinguetá e no-depois a partida para São Paulo à exceção das meninas que ficavam é mesmo no curso normal e se formavam  mestras-de-escola sem que escola houvesse para elas, voltando então para aquela casa-grande agora cada vez maior e impressionando a pequeneza das gentes a golpes de imensidão enorme!





O AUTOR

Alckmar Santos é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde coordena o Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL). Foi pesquisador convidado na Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle (2000-2001) e na Universidad Complutense de Madrid (2009-2010). É também poeta, romancista e ensaísta. Autor dos livros Leituras de nós: ciberespaço e literaturaDos desconcertos da vida filosoficamente considerada (ensaio e poemas, respectivamente Prêmio Transmídia – Instituto Itaú Cultural), Rios imprestáveis (poemas, Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira da revista Cult).