domingo, 29 de janeiro de 2012

DE MISTÉRIOS E DE BURACOS

Edmar Oliveira
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O mais famoso cientista vivo, o britânico Stephen Hawking, me surpreendeu de novo. Confesso que havia me surpreendido com a coerência sobre a explicação da criação do universo, onde ele negou Deus por mais de três vezes. O físico, desautorizando as mais otimistas previsões médicas, acaba de fazer 70 anos. Sofrendo de uma esclerore lateral amiotrófica, diagnosticada aos 21 anos, doença que provoca uma paralisia muscular progressiva, também surpreendeu prognósticos pessimistas, tendo ele tornado-se um cientista respeitado com teorias que são referência para a física. Na altura de um Einstein, revelou o comportamento dos “buracos negros” necessário ao entendimento da ciência astronômica moderna. Mas não foi isso o que tinha me surpreendido, até porque não entendo nada do que acontece com as estrelas além de servirem a inspiração poética. A minha surpresa foi vê-lo num programa de televisão, dirigido ao grande público, explicar a origem do universo, não tendo considerado, em nenhum momento, a necessidade de Deus, apesar das perguntas insistentes e repetidas do entrevistador.

Hawking, que movimenta apenas as bochechas, vive numa cadeira-máquina que permite suas possíveis interações com o mundo. Foi quando, já decepcionado com a afirmação do cientista que simplesmente preencheu as lacunas com argumentos científicos e, elegantemente, respondera que não precisava da hipótese de Deus para seus cálculos, o entrevistador, apelando para a situação física do entrevistado, perguntou se ele não “esperava” uma outra vida. Stephen parecia sereno a sorrir quando respondeu que esta oportunidade de observar o universo, que ele tinha tido na vida, fora fabulosa e que tinha de aproveitar todos os momentos em que estava vivo, pois não acreditava em nova oportunidade depois de morto. Eu, de tão emocionado, foi convencido da dor dos incrédulos dos mistérios da religião e da mensagem tão humanista que devemos ter diante do mistério da vida. E me solidarizo na crença do cientista, que também é minha.

Mas dizia, lá no início desta crônica, que Stephen Hawking havia me surpreendido novamente, depois de sua convicção nesse documentário negando Deus por mais de três vezes. Foi quando folheando um jornal achei uma manchete assim: “mulheres, um mistério para Hawking”. Comemorava seus 70 anos, falando outra vez sobre a morte: “não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Ainda há muita coisa para fazer”.  E, perguntado sobre o que mais pensa hoje em dia, respondeu: “nas mulheres. Elas são um mistério completo”. Entender as mulheres seria o grande mistério que o físico teria pela frente.

Fico aqui torcendo para que ele consiga, antes de morrer. Afinal, quem desvendou o mistério dos buracos negros do universo tem credibilidade para desvendar o mistério das mulheres. Só acho que é muito mais difícil. Se ele não conseguir vai ficar me devendo, pois acho que nem Deus, em quem nós não acreditamos, desvendaria tal mistério.

Desencontro


Graça Vilhena

Colho os grãos de sal
dissolvidos em madrugada
tua face teima
num espelho submerso
e não consigo compor
a matéria que me falta.

Vasculho as manhãs
e posso respirar-te
e sentir nos galos os acordes de teu nome
no entanto queimo meu corpo
no metal das tardes
em tentativas azuis
e lilases desencantos.

Longe de ti, que nunca encontrarei,

os dias passam assustando
passarinhos nas calçadas.


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desenho: Amaral, Teresina

Cineas Santos, rascunho para uma biografia

Geraldo Borges

Todos os sábados eu fazia uma visita à livraria do Nobre. Ali conheci o Cineas Santos.  A fauna de seus freqüentadores era variada e compunha–se de intelectuais, alguns mais assíduos, outros mais temporãos. Entre os assíduos podemos destacar o Lucimar Ochoa, já falecido, Eulino Martins, poeta, ex-combatente da FEB, também falecido, o professor Didácio, professor especialmente de cursinhos, também não mais está entre nós, o Pedro Celestino, idem. Todos eles viraram personagens de ficção. Pois “ Todas as pessoas mortas que conseguem  mesmo continuar existindo na memória  dos outros, tendem a se tornar fictícias... “ E o O. G. Rego de Carvalho, esse, ainda está em nosso meio, Pompílio Santos,  jornalista,  poeta, nunca mais tive noticias dele.

 Quase todos fumavam. A começar pelo vigia, como se chamava Nobre, o dono da livraria. Os únicos que não fumavam eram o OG e o Cineas Santos. Ainda hoje me lembro do cinzeiro do Nobre cheio de tocos de cigarro. De hora em hora ele esvaziava–o.  Mesmo com a fumaça o ambiente era agradável, com muita conversa sobre livros e autores, acompanhada sempre de um bom café. Ainda hoje tenho em minha biblioteca livros comprados em sua livraria. Parece que estou esquecendo o Cineas Santos. Não. Não esqueci.

 Cineas Santos chegava lá, conversava um pouco, e logo ia embora. Às vezes nem sentava. Isso no começo. Depois foi se acostumando e demorava mais. Lembro-me de quando já estávamos mais enturmados fizemos um torneio de versos, uma espécie de embolada.  Cada sábado um trazia a resposta do outro, e declamava para os visitantes da livraria fazer o julgamento.  Nessa brincadeira o Cineas Santos terminou levando a melhor. Ganhou. Sempre foi um grande leitor de romance de cordel.

Cineas Santos chegou em Teresina em 1965,  desembarcou vindo de Caracol, sua aldeia natal, na praça Saraiva, a antiga praça Saraiva, que servia de estação rodoviária, e tinha o famoso bar Tetéu,   que não fechava as portas durante toda a noite. Da praça, Cineas Santos partiu para a Casa do Estudante.

 Já em 69 como ele próprio diz:  “...já estava metido em um grupo de teatro amador, mambembando pelo interior do Piauí e do Maranhão. À época cheguei a escrever uma peça pretensiosa e ordinária, denominada Uma noite entre os miseráveis. Não podendo encená-la em Teresina (a censura não o permitiria), montamos a peça em Bacabal, com direito a um jantar decente depois da apresentação.”

Formou-se em Direito, e, como muitos outros, desviou-se dessa profissão como o diabo foge da cruz. Escolheu ser professor. E tem dado uma grande contribuição ao magistério piauiense. Mas a sua contribuição maior é no campo da cultura literária. Fundou jornais e revistas, montou livrarias, participou de suplementos literários, editou quase todos os escritores piauienses de expressão, fez palestras. É, sem sombra de dúvida, um marco na literatura piauiense, sempre animou os novos a prosseguir na luta com a palavra.

Teve a coragem de fundar a Oficina da Palavra, um espaço cultural aberto ao povo piauiense, uma franquia para quem quiser se expressar, o espaço contem uma biblioteca, um teatro, salas para estudo, fica na rua Benjamim Constant,  descendo para o Liceu, depois da antiga residência do professor Pantaleão, celebrado professor de matemática do tempo da minha juventude. Não posso me esquecer também que a Oficina da Palavra é palco do já famoso Sarau literário.

 Cineas Santos é aquele cara que veio do interior - justamente quando Teresina estava começando uma nova perspectiva de urbanização e desenvolvimento, principalmente com o surgimento da Universidade -  e venceu. Criou seu ritmo e estilo. E por isso mesmo, tem os que gostam dele e os que não gostam. Inimigos oculto e declarados. Está sempre apressado como se estivesse esperando mais um desafio pela frente.

Para quem não sabe, ele ganhou um apelido quando freqüentava a Livraria do Nobre. O apelido se encaixou bem no personagem. Foi invenção do pintor Lucimar Ochoa. Chamou-o de Mandacaru, por causa de seus modos ríspidos, no trato com as pessoas, comportamento de que até hoje não abriu mão. Mesmo assim, por incrível que pareça, tem muitos amigos, nesse mundo de hoje. Pois a sua rispidez é só da boca para fora. Mas no tempo da Livraria do Nobre não foi somente o Cineas Santos que ganhou apelido. Ganharam apelidos também, o OG, que era chamado de Sapo, e o Pompílio Santos, que era chamado de dromedário, talvez pelo seu modo de caminhar meio corcunda. Essas brincadeiras não azedavam o ambiente, ao contrário, davam um ar descontraído de boa camaradagem. Quem suscita um apelido, é porque chama a atenção e tem alguma coisa marcante.

Hoje Cineas Santos administra as despesas da velhice após muitos coriscos e invernos pela vida afora. Tornou-se um cidadão respeitável, acumulou toda uma experiência de vida que literalmente podemos chamar de biografia. Em seu livro de crônicas As despesas do envelhecer, o leitor atento encontrará muitas pistas da sua história...

2.1



vulcanizo lágrimas
sob o sol de maio
deixando na tua boca
a promessa de um gozo enfurecido
levando entre as pernas
a dança da tua língua
na Ballet da despedida

Lilia Diniz

www.outroladodamargem.zip.net

desenho: Paulo Moura

Sinal dos Tempos?

"É uma faculdade de medicina, os estudantes usam isso. Tem que mostrar para o cidadão como as doenças acontecem. Não significa dizer que a Uespi vai adquirir essa quantidade de pênis"
Carlos Alberto Pereira da Silva,  reitor da Uespi






Estamos nos habituando com escândalos, o que não é muito bom. Mas esse agora, no Piauí, me levou ao passado. O escândalo dos “pênis” na UESPI. Um edital licitou uma “ruma” de caralhos de borracha para a Universidade Estadual. São dois mil paus, não em dinheiro, mas em cacetes de borracha. Escândalo que mexe até com os brios machistas da terra. Não vou fazer comentários a este respeito. Fico com o escândalo na Universidade do Piauí, o que já teve em outras.

Mas a nave do Piauinauta entrou numa dobra do tempo rumo ao passado e assentou lá pelos anos 70, na criação da Universidade Federal, por onde fui formado. O Reitor nos deu a oportunidade de usar o tratamento de “Magnífico”, que aprendemos na escola. O primeiro “magnífico” que conheci foi o professor Camilo. O Geraldo Borges já fez o seu perfil aqui no Piauinauta. Bonachão, com seu charuto inseparável, seu bigodão e riso espalhafatoso era respeitado. Falávamos mal dele por flertar com a ditadura, empregar parentes (mas também era um direitista que empregava os comunistas – eu, Durvalino e Paulo José Cunha, trabalhamos num jornal seu). Ladrão não era. Não corria esse boato. E me é inimaginável ele estar num escândalo de ter comprado uma ruma de pênis. Deve estar gargalhando na tumba, vendo esses socialistas enrolados, melhor enrabados, nos paus de uma licitação fraudulenta.

Mesmo no nível médio os diretores eram homens probos. O professor Lisandro, no Liceu, o Padre Adriano no Diocesano, a professora Zélia no Colégio Batista. Nunca se falou que qualquer um deles era ladrão ou tivesse uma conduta “inadequada” aos padrões da época. Criticávamos neles a caretice.

Mas sim, a nave já voltou à sua rota. Não pousa no Piauí tão cedo. Quem tem cu, tem medo, dizíamos em criança. Os reitores e as autoridades daqui não têm. Ou medo ou cu! 
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(Edmar Oliveira)

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ilustração do Gervásio eele diz:
Depois do famoso edital de licitação a UESPI se tornou conhecida por UESPI(CA).

nem tudo está perdido


sorria,
você não está sendo filmado
você não está na tv
seu nome não foi pro serasa
seu candidato perdeu
sorria,
seu cartão não foi clonado
ninguém processa você
não assaltaram sua casa
a malha fina lhe esqueceu

(Climério Ferreira)

seja como doce, seja como sal


Lázaro José de Paula

eu  sou seu  tiete
voce  meu  tietê 

porque  eu  aguento  a  barra  da sujeira
pra  te  proteger:   é  assim  que  todo  mundo 
que  bom houvesse  um  tamisa  de  aguas  limpidas
e  um  big  ben
bem  das  horas  certeiras
como  uma  flecha  de  ronbin  hood
mas,  não  tem  grilo não
o  tempo  é nosso  cumplice  direto
e  os  planetas  brincam  de  se  alinhar    a  nosso   favor
zen  é  nosso  fogo  eterno,   etéreo
por  isso    ficamos  mais  leves  que   o  gas  helio
e  voamos  mais  alto que  o  condor
nos  conhecemos  a  pouco
mas  somos  amigas  almas :  antigas  como  um jequitibá
e  quem o mundo   pensa  que   é ?
um  escravo  nosso ,   um  serviçal
para  ecxecutar  o  que  nos  der  na telha
seja  com  doce,   seja  com  sal

O CASARÃO DOS MISTÉRIOS

Cinéas Santos
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Na aridez do sertão de Aroazes, a 180 km de Teresina, um casarão  de meados do século 18 resiste bravamente à ação corrosiva do tempo. Cercada de lendas e mistérios, a sede da Fazenda Serra Negra continua instigando a curiosidade de quem se dispuser a visitá-la. Até o nome da fazenda está mergulhado em mistérios. Reza a lenda que se deve ao fato de um dos primeiros proprietários da gleba, Luís Carlos Pereira Bacelar, ter serrado uma escrava viva, como castigo por um ato de desobediência. De concreto, existe uma data esculpida numa pedra: 1766. Alguns pesquisadores afirmam que a fazenda é bem mais antiga. Em documento datado de 1693, o Pe. Miguel de Carvalho já faz referência a uma fazenda situada à margem do rio Negro (hoje, riacho Serra Negra), com a presença de três homens: um branco e dois negros. Não é improvável tratar-se da  Serra Negra.     
Tombado desde 2006, o casarão, em péssimo estado de conservação, espera as ações de restauro previstas em documento firmado entre as autoridades piauienses e o Grupo Edson Queiroz, atual proprietário do imóvel. Em audiência pública realizada na sede da fazenda, em 30 de março de 2010, foram estabelecidas metas e  determinados prazos a serem cumpridos com celeridade. O documento termina assim: “...o anteprojeto arquitetônico de restauração da sede antiga da Fazenda Serra Negra será apresentado pelo representante do Grupo Edson Queiroz e submetido à apreciação da FUNDAC no prazo de 60 (sessenta) dias contado desta data; por sua vez, a FUNDAC analisará o projeto e buscará dados com as instituições pertinentes no prazo de 90 (noventa) dias, contado do recebimento do projeto, também sendo de sua incumbência informar ao Ministério Público do Estado do Piauí acerca da apresentação do projeto, bem como de outras notícias relacionadas ao caso”. Até o momento, nenhuma das ações previstas no texto firmado entre Ministério Público, FUNDAC, IBAMA, UFPI, UESPI  e  Grupo Edson Queiroz saiu do papel.
Na semana passada, na companhia do arquiteto Olavo Pereira da Silva e do cinegrafista João da Mata, visitei a fazenda e constatei que os estragos provocados pelo tempo e pela ação dos homens são visíveis em toda parte. Como não sou especialista em nada, limitei-me a registrar tudo o que vi para mostrar no programa “Feito em Casa”.  O arquiteto Olavo Pereira é taxativo: “Serra Negra  não é apenas uma das fazendas   mais antigas do Piauí; é um patrimônio de inestimável valor histórico a ser cuidadosamente preservado”. Com a palavra os que têm o poder de decidir.

Massagem e saliência


Distribuído na boca do Metrô do Largo do Machado. Agora "saliência"  é Therapy?

Naeno


Naeno canta em casa, na frente do guarda-roupas, um clássico do cancioneiro piauiense.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Piauí Dividido


Hoje o Piauinauta tá se rasgando. Sob uma tempestade cósmica, a nave mãe fez vazamentos na fuselagem e o estrago foi grande. Dois, dos mais prestigiados e competentes tripulantes ficaram em posição de desafio. O mais estranho é que o que defende a cizânia é habitante do norte, que na maioria não aceita a divisão. Geraldo Borges, o Piauinauta da primeira tripulação, defende entrar numa nave pequena e abandonar a nave mãe à tempestade cósmica. Cinéas, provinciano do sul, que foi o povo que propôs a divisão, defende a unidade e não aceita a secessão da Nação Piauí.
Vejam que os tripulantes têm alta patente. E eu tenho que manter a calma.

Só acho que nessa briga fratricida o Piauí pode acabar e a parte de cima aí da ilustração do Netto de Deus pode ser chamada de Jenipapo, capital Campo Maior, ficando o Principado da Teresina uma cidade estado, incrustada no mapa, como uma Mônaco na França. Soberana. Cujo príncipe seria disputado numa eleição entre Paulo José Cunha e Climério Ferreira, piauienses da Capital Federal. E Joca Oeiras, que defende com unhas e dentes a unificação, mas é um piauiense que nasceu em São Paulo, seria o Príncipe Soberano do micro Estado de Oeiras, porque a terra do Mocha já foi a antiga capital.
Se deixar a gente brigar temos delírios! Deve ser a falta de gravidade ou o sol quente. Vamos se unir, ô gente boa! Nem que seja pra dividir, Ô xente!
(Edmar)
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O Biscoito Repartido

Geraldo Borges

O Estado é uma peça de ficção, mas funciona, mal, mas funciona. Repartir o Estado do Piauí em dois é uma idéia antiga, um sonho dos oligarcas da região sul. É uma idéia promissora.  Já fui contra, hoje sou a favor. Por que não mudar? Eu achava que a burguesia queria dividir para melhor dominar. Bobagem. Ela domina por que é dona do Estado e tem os meios de produção nas mãos. Dividir estados tem dado certo. Por exemplo: o Estado de Tocantins, que foi desmembrado de Goiás, e deixou de ser Centro Oeste para virar um estado da região Norte, pura ficção geográfica, sua capital, Palmas está dando oportunidade de emprego a muita gente. O Estado de Mato Grosso do sul, também é um exemplo, capital Campo Grande, desmembrado de Mato Grosso. Esses dois Estados são fruto do pioneirismo, novos colonos se deslocam para novas fronteiras agrícolas. Uma nova colonização que precisa de sede própria com o poder burocrático mais perto, para funcionar melhor.

            A capital da republica foi transferida do Rio de Janeiro para o Estado de Goiás, onde hoje é o distrito federal, isso há mais de cinqüenta anos. Foi um alento para a população brasileira, uma corrida para o povoamento. Mesmo assim, até hoje, existem pessoas que resmungam contra a transferência da velha capital para o planalto goiano.

            Caso o Piauí seja dividido em dois, pelo menos um talvez o mais novo, fique livre das chacotas. É o que vamos saber, se o projeto vingar.

O Pará vai criar mais dois estados: Carajás e Tapajós; uma nova geografia vai ser desenhada no mapa, a espaçosa região norte ficará mais recortada, novos hinos vão ser cantados na escola, novas bandeiras tremularão nas fachadas das repartições públicas, brasões serão desenhados, nascerá no coração do povo uma nova veia pulsando pelo seu torrão e se confraternizarão com os que vierem de fora para oferecer o seu trabalho. O Amazonas também vai ser dividido, com certeza, poderá ser mais vigiado. A Bahia tem também projeto para ser divida, é o Brasil virando mais biscoitos para alimentar a fome dos brasileiros. E Minas Gerais, também, de modo que, o mapa do Brasil vai ficar cada vez mais bordado parecendo com o dos Estados Unidos, quase todos do mesmo tamanho, pequenos tabletes encaixados um no outro.
Dinheiro para manter a burocracia não vai faltar O povo arranja jogando na loteria, pagando impostos, desde que os velhos políticos noviços não os desviem. Parece que estou vendo um grande movimento migratório das grandes cidades do sul para os novos Estados, esse movimento já começou há muito tempo. Tem muita gente que não agüenta mais viver nas grandes metrópoles, acuados no asfalto, nos arranha-céus e nos morros
 E quanto aos nomes das novas capitais de cada estado, como será o critério de escolha? Sem dúvida pesarão mais aqueles municípios que tiverem maior expressão econômica, e estiveram mais estrategicamente situados. No sul do Piauí temos a cidade de Parnaguá, que brilha pela sua civilidade, seu índice de analfabetismo é quase zero e pode muito bem ser eleita a nova capital do novo estado. Além do mais, seu clima é temperado. E tem uma lagoa com suas lendas. Uma grande lagoa para onde a Marinha pode mandar alguns marujos de água doce e uma corveta. A Marinha não está no lago Paranoá? Mas vai haver rusgas, ciúme, na escolha da nova capital. Briga pelo biscoito. Quanto ao nome do novo estado não há duvida. Será Estado do Gurguéia, um antigo barão dos latifúndios e da fidalguia piauiense. Ele vai adorar. Também podemos eleger Oeiras como sede do novo estado, só assim, a antiga capital do Piauí, de tão famosa lembrança, renascerá de suas ruínas como uma fênix que se alvoroça.
Ia me esquecendo que o Maranhão é outro que está no pleito para ser dividido. É um estado geograficamente enorme. Cabem dois. Parece–me que a cidade de Imperatriz é candidata a capital do novo Estado. E assim Sarney terá mais um condado para se eleger senador.
Se todos estes projetos não forem arquivados de novo, como já aconteceu uma vez, o Brasil vai ter uma mudança importante na sua ficção geográfica, na demarcação de seu mapa, um novo desenho, novos gentílicos. Novos trabalhos para o IBGE. Por enquanto, fiquemos nas discussões, nos dilemas, é para isso que serve o discurso democrático.
O Piauí foi colonizado a partir de suas fronteiras do sul, da Bahia e de Pernambuco, tendo como ciclo econômico principal a criação de gado, mesmo assim não preencheu o vazio, como se pode ver no mapa. Já a bacia do Parnaíba tem uma densidade demográfica significativa, e que começou a crescer a partir do momento em que a capital do Piauí foi transferida para a margem do Parnaíba. A viabilidade de um novo estado, na repartição do Piauí, daria oportunidade para uma região que é ignorada pelo poder publico, ficando muitas vezes sobre a influência de estados vizinhos mais desenvolvidos.  As pessoas, que nascem e moram na fronteira da Bahia, possuem outro sotaque, vivem outra realidade. E preferem se batizar no Estado da Bahia.  De modo que aquelas querências têm outros donos. Possuem outra cultura. Claro que tudo é Brasil, e nossas fronteiras são apenas ficção
 O Estado do Gurguéia pode até não sair com a mesma facilidade com que o Estado do Piauí cria municípios para os caciques políticos, mas é uma promessa, está sendo discutido. Que venha o plebiscito.
Além do mais eu pergunto ao digno leitor ou indignado leitor. Se o Piauí se metamorfosear em dois Estados não seria uma grande vantagem? Pior seria se desaparecesse completamente engolido pelas fronteiras do Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia. Idéia estapafúrdia. Sou contra. Que o Piauí vire dois. Pois como diz o povo quem tem apenas um é como se não tivesse nada.




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Sou contra
Cineas Santos

Longe de quase tudo, o lugar era um convite a não ficar. Meu pai entendeu que estava conforme: tinha o tamanho das suas aspirações. Decidiu, por sua conta e risco, plantar-se ali para sempre. Fez roças, filhos, alguns planos. A gleba era pequena, a água escassa, mas as aspirações eram rasas e o que se produzia era suficiente para a sobrevivência. O nome do lugar não poderia ser mais infeliz: Lagoa dos Tubis. Na verdade, nem havia lagoa; era apenas um baixio onde, no período das chuvas, juntava alguma água. Não bastasse isso, a palavra tubi servia para nomear uma abelha de mel travoso e, também, para designar ânus. Minha mãe, que acreditava no poder transformador da palavra, rebatizou a gleba com o nome poético de Campo Formoso. Foi além: empenhou-se, de corpo e alma, em transformar aquele estaleiro de carências em lugar habitável. E assim se fez. Foi naquele chão penitente que, em setembro de 1948, nasci. Quando tomei entendimento das coisas, fiquei sabendo que Campo Formoso estava fincado no sertão do Caracol.

Um dia, sem que ninguém fosse consultado, alguns caciques decidiram fatiar o território de Caracol. Foi assim que dormi caracolense e acordei juremense (juremeiro soa melhor). Senti-me logrado. A partir de então, sempre que se fala em divisão de municípios, tenho a compulsão de combater a iniciativa. Um parlamentar piauiense jacta-se do fato de já ter “criado mais de 30 municípios”, o que lhe garante currais eleitorais em todo o estado.

Quando se esgotaram as possibilidades de criação de novos municípios, alguns políticos decidiram propor a divisão do Piauí, um projeto capaz de agasalhar parentes, aderentes e correligionários. Incontinenti, escreveram livros de história, criaram bandeira, hino, constituição e engendraram teses mirabolantes. A mais cintilante delas afirma: “Não se trata de divisão e sim de desmembramento, o que será bom para os dois estados: Piauí e Gurgueia”. Argumentam que, por muitos anos, o sul permaneceu no mais absoluto isolamento, que falta representação política da região no parlamento e coisa e tal. Por oportuno, vale lembrar que, em determinado momento, só o município de São Raimundo Nonato teve cinco deputados na Assembleia Legislativa do Piauí. Como se pode ver, não foi por falta de caciques que o sul do Piauí continuou estagnado. O certo é que a coisa evoluiu até acordar os que combatem a tese divisionista. O mais é sabido e consabido. Por razões que ignoro, dada a minha desimportância, os dois lados tentam arrastar-me para o campo de batalha como se a minha participação fosse decisiva para a vitória de uma das facções. Já afirmei e reafirmo aqui: sou contra a divisão do Piauí por entender que “muitos serão chamados e poucos os escolhidos”, os mesmos que já se cevaram no poder ao longo da vida. Não esperem, contudo, que eu saia por aí, armado de bodoque, atirando pedras em “adversários”. Já passei de caracolense a juremeiro, o que nada me acrescentou. Nessa altura do campeonato, não me apraz ser “promovido” a gurgueíno. Termino com uma metáfora: se você tem pouca comida e resolve dividi-la em dois pratos, o máximo que vai conseguir é sujar mais louça. Nada além.

Vamos apartar esses caboclos...

Edmar Oliveira

O Piauinauta foi chamado para observar a briga fratricida dos irmãos da nação Piauí na questão da divisão do Estado, que já obteve êxito nos Goiás e no Mato Grosso. Perdeu a parada, por enquanto, nas selvas do Pará, ainda é questão no Maranhão e vez por outra tenta mudar as fronteiras dos brasis.
O que a gente não pode perder de vista é a geografia da política. O Tocantins foi um Estado criado para ser de uma família de políticos. Tocantins significa “essa terra é nossa” em tupi-guarani. Uma família de políticos achou que era deles e ficou com as terras ricas do norte do Goiás. O Maranhão quer se dividir pra ver se um pedaço de terra sai do Império dos Sarneys. Pode sair pela culatra o tiro dos independentes. No nosso caso, a morte recente dos políticos de antiga estripe pode querer forçar a divisão. Portanto as nossas razões, agora, seriam contrárias as do Maranhão.
Quem é da terra sabe que a capital do sul é Brasília e o pessoal pro lados da serra da Capivara acha mais perto Salvador que Teresina. Mas também no Rio Grande do Norte, Natal fica do lado oposto à tromba do elefante e aí Mossoró ocupou o lugar de disputar com a capital. E ainda tem Caicó no fundo do sertão reinando até no interior da Paraíba. Caso igual ao da Paraíba dividida em três internamente: o litoral de João Pessoa; o agreste de Campina Grande e o sertão de Sousa. Bom Jesus, Corrente e São Raimundo Nonato deveriam disputar essa hegemonia no sul para contrabalançar o poder do norte. No Ceará, Sobral solidifica o centro e a terra de Padre Cícero e Barbalha disputam a hegemonia do cariri com Pernambuco. Nesse estado de pernambucanos Caruarú guarda a entrada do sertão, Petrolina plantou uvas nas margens do São Francisco fazendo vinho no nordeste quente vender na Europa fria e de Salgueiro a Bodocó Januário é o maior dos versos de Gonzaga. Ninguém fala em dividir esses valorosos, orgulhos e garbos estados nordestinos.
Portanto, conterrâneos, divisão é proposta a um estado fraco. No Pará, onde tem riqueza e não há distribuição até se pensaria nos minérios dos Carajás e, mesmo assim, a população amazônica rejeitou o racha. No Maranhão até se entende: a dinastia Sarney não entrega o trono do estado mais pobre do Brasil. Sou solidário com os que pensam a divisão. Mas no Piauí que começou a crescer agora vamos manter a calma e segurar o bode pelos chifres.    
 Teresina, na substituição de Oeiras, não ficou nem tanto ao mar ou ao sertão. Mas foi em rumo do povo do norte e ficou perto dos maranhenses do leste, abandonados de São Luis. É a capital do meio-norte, nem tanto ao Amazonas nem ao agreste sertão. Mas deixou o bojudo sul do Estado abandonado e meio. Oeiras era mais equânime na geografia. A capital do fundo do sertão. Porque somos um Estado sertanejo, que só viu o mar entregando grande parte do território mais fino, ao norte, ao Ceará. Único estado nordestino que não tem a capital junto ao mar, Teresina ficou abeirando o rio deixando que as águas do Parnaíba nos levasse ao mar de sempre em quando.
Por mim, se fosse pra dividir afetivamente, melhor seríamos a capital do Parnaiba, de um lado e outro. Eu nasci nesse Estado da graça do rio Parnaíba. Nunca me foi diferente estar de um lado ou outro. O rio me balizava, sempre. A sua navegação e as margens esquerda e direita. Seu leito, minha capital. Só entro numa briga pra dividir se me derem as margens do Maranhão do meu estado Rio Parnaíba. Mas soube que vão me dar é uma barragem, cujo lago engolirá Palmeirais. Assim o sertão vira o mar da profecia e eu numa canoa ganho as terras sob as águas do meu rio...

Na divisão, a terra afetiva do Piauinauta




















Capital: Estaca Zero da canção do poeta.
A Grande Palmeirais inclui Teresina, Amarante, Regeneração, Angical e adjacências.

No Maranhão (Lilia Diniz)




No meu maranhão existe um movimento dividir o Estado, fala-se em Maranhão do Sul. Poderia ser outro nome, mais maranhense, mais indígena, uma vez que esse nome está ligado aos latifundiários que fezeram grande devastação na região tocantina e no sul do estado.
Eu particularmente quero um Maranhão livre dos abutres que ao longo de nossa história fizeram semearam a miséria, o analfabetismo, a fome,...
o latifúndio...


Arame
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Em algum lugar do meu Maranhão
existe um povoado chamado Arame.

Arame não é nada poético
posto que rima com grilagem, latifúndio e morte

Mas poesia também sangra!

Se Arame é povoado
de certo fica do outro lado da cerca
deve haver ruas estreitas,
casas de barro e palha,
milharal florido,
o canto do coco no machado
em algum babaçual
enfeitado de mulheres valentes
prenhes de sonhos
e esperança remendada
com arame farpado
velando pindobas queimadas
no ventre da terra.



Lilia Diniz

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foto: Amazônia à Vista


Criança indígena é queimada viva por madeireiros no Maranhão

Rogério Tomaz Jr

Quando a bestialidade emerge, fica difícil encontrar palavras para descrever qualquer pensamento ou sentimento que tenta compreender um acontecimento como esse.
Na última
segunda-feira (3) semana*. uma criança de oito anos foi queimada viva por madeireiros em Arame, cidade da região central do Maranhão.
Enquanto a criança – da etnia awa-guajá – agonizava, os carrascos se divertiam com a cena.
O caso não vai ganhar capa da Veja ou da Folha de São Paulo. Não vai aparecer no Jornal Nacional e não vai merecer um “isso é uma vergonha” do Boris Casoy.
Também não vai virar TT no Twitter ou viral no Facebook.
Não vai ser um tema de rodas de boteco, como o cãozinho que foi morto por uma enfermeira.
E, obviamente, não vai gerar qualquer passeata da turma do Cansei ou do Cansei 2 (a turma criada no suco de caranguejo que diz combater a corrupção usando máscara do Guy Fawkes** e fazendo carinha de indignada na Avenida Paulista ou na Esplanada dos Ministérios).
Entretanto, se amanhã ou depois um índio der um tapa na cara de um fazendeiro ou madeireiro, em Arame ou em qualquer lugar do Brasil, não faltarão editoriais – em jornais, revistas, rádios, TVs e portais – para falar da “selvageria” e das tribos “não civilizadas” e da ameaça que elas representam para as pessoas de bem e para a democracia.
Mas isso não vai ocorrer.
E as “pessoas de bem” e bem informadas vão continuar achando que existe “muita terra para pouco índio” e, principalmente, que o progresso no campo é o agronegócio. Que modernos são a CNA e a Kátia Abreu.
A área dos awa-guajá em Arame já está demarcada, mas os latifundiários da região não se importam com a lei. A lei, aliás, são eles que fazem. E ai de quem achar ruim.
Os ruralistas brasileiros – aqueles que dizem que o atual Código Florestal representa uma ameaça à “classe produtora” brasileira – matam dois (sem terra ou quilombola ou sindicalista ou indígena ou pequeno pescador) por semana. E o MST (ou os índios ou os quilombolas) é violento. Ou os sindicatos são radicais.

Os madeireiros que cobiçam o território dos awa-guajá em Arame não cessam um dia de ameaçar, intimidade e agredir os índios.
E a situação é a mesma em todos os rincões do Brasil onde há um povo indígena lutando pela demarcação da sua área. Ou onde existe uma comunidade quilombola reivindicando a posse do seu território ou mesmo resistindo ao assédio de latifundiários que não aceitam as decisões do poder público. E o cenário se repete em acampamentos e assentamentos de trabalhadores rurais.
Até quando?
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matéria da internet: Conexão Brasília Maranhão

o ano dele (2012)


O homem escreveu os versos
Mais lindos da nossa língua
Era tímido, mas tinha amante
Moderno, mas se sabia eterno
Tinha pedras e poetas concretos
No meio do seu caminho
Seguia em recolhimento sua luz
O homem chorou a morte da filha
E pouco tempo depois morreu


(Climério Ferreira)
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caricatura: Netto, do Piscinez

Um ano realmente novo















Cinéas Santos

Preciso de um ano novo,
que  garanta o ano inteiro:
paz, saúde e algum dinheiro...

Chuva na medida certa,
muito amor,muita poesia,
combustíveis da alegria.

Tempo pra pessoa amada
alta  a chama da paixão:
que não me falte tesão!

Ano novo sem remendos,
sem trincas e sem fissuras,
folha limpa, sem rasuras

Na qual eu possa escrever
sem receio e sem pudor
ardentes versos de amor.

Que reine a delicadeza,
e cesse  todo perigo,
um ano que seja amigo.

 O que de bom me vier
(nem contarei até três)
dividirei com vocês.

sem saida


Lázaro José de Paula

tua  longa cabeleira  negra
está  pontilhada  de  estrelas  vistas  da tua  varanda.
eu  ando  com  a  cabeça  nas  nuvens
pra  ter  essas  visões
de   salmões  que saltam
pruma   imaginaria   piracema
da  qual  não  nessecitam .
por sua  vez  outros  peixes  do  teu  aquario
elétricos,   dão  choque  a  esmo
a  torto  e  a  direito
e  cravam  em cheio  meu  coração
numa  voltagem  alucinadamente   insensata
matando  familias  inteiras   sem  nem  ir  ao cinema
enquanto  tua  zoon  me  torna   pequeninamente
i  n  f i  n   i  t  e s i  m  a  l
meu  mal,  é  te amar   com   meu   sincero  desespero
e,  sem  saída,    me enrolar  nas  tuas  teias,
tuas   novelas,   teus  novelos

1 versinho


A ESCULTURA VEGETAL

No meu caminho há uma enorme árvore
Com as raízes inúmeras expostas ao vento

O tronco todo marcado por seivas ressecadas
Sua copa de tão alta quase não dá sombra

Os galhos assumem uma palidez clara
Ostentando aqui e acolá manchas marrons

Deles se lançam cipós retorcidos e pendurados
Qual seres que se embalam à beira do abismo

Tal árvore se mostra entre vegetal e fóssil
É-me impossível adivinhar o que ainda é

Talvez uma escultura tenebrosa e bela
Que o tempo cuidou de esculpir ao acaso

(Climério Ferreira)

Edivaldo nascimento: Minas e Minas



Negão, com letra do Durvalino, diz como é que se divide Minas: é Minas e Minas.

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012


O Piauinauta, na passagem de ano, entra no futuro numa dobra do tempo invandindo o calendário maia. E antes da queima dos fogos da passagem de ano, o Piauinauta já estará no ar. 
(foto: Isabel Esteves, de Cascais, Portugal)

2012

Edmar Oliveira

Esse negócio de calendário é coisa muito esquisita. Os islâmicos estão no ano 1432, porque sua contagem começa quando Maomé fugiu de Meca para Medina. O ano 1 é o ano da fuga. Os hebreus comemoram 5772 anos que se passaram desde que Deus soprou a alma em Adão, iniciando a humanidade, depois da criação do mundo em sete dias. Os chineses comemoraram em fevereiro de 2011 o ano do coelho que termina em 22 de janeiro agora, quando voltamos ao ano do dragão, começando novo ciclo. Se no coelho eles cresceram tanto, imaginem a ferocidade no dragão. Cada ciclo dura doze anos. E há vários ciclos que eles descobriram o motor do crescimento econômico: a política na pior ditadura de esquerda embala a economia com a maior exploração do capitalismo de direita. Ruim com ruim gera o “mais pior” dos mundos que ameaça engolir o planeta.

Mas o planeta girava para os maias em ciclos de 5125 do seu Calendário de Contagem Longa Mesoamericano. Nossos cientistas calcularam que este ciclo maia acaba em 21 ou 23 de dezembro de 2012. O ciclo maia passa de um mundo ao outro, tendo este mundo começado em 11 ou 13 de agosto de 3114 a.C. O que infere começar um outro mundo, acabando o ciclo atual. Daí as previsões catastróficas para 2012.

Certamente vocês estão vendo na Tv as previsões dos adivinhos para este ano, como em todos os outros. São tantas previsões que algumas acontecem. Acho que a gente envelhece por milagres. Eu já vi a santa chorar no Fantástico umas três ou quatro vezes. Começa com lágrimas de sangue que alguém viu. Depois a romaria. Por fim a explicação lógica para o acontecimento. E a santa é esquecida na sua insignificância, que o povo quer é milagre.

Mas 2012 promete. Já teve até filme sobre o fim do mundo com o Cristo Redentor engolido pela catástrofe. Outra vez anunciam o fim do mundo. Já aconteceu outras vezes. Quando eu era menino alguém leu o que não estava escrito na Bíblia: “Em 2000 não chegarás”, numa tradução errática do sermão da montanha. Como não tinha amplificação de som no nosso ano 1, Jesus falava frases curtas e a multidão repetia em ondas para que chegasse a todos os fiéis. É possível que alguém tenha entendido mal acerca do mundo acabar em 2000 quando a frase chegou via oral nos confins do sertão. Escreveram num cordel, mas não estava escrito na Bíblia, que nós (os católicos) éramos proibidos de ler. Eu tinha uma tia protestante e li o sermão não tendo encontrado a profecia. Fiquei mais descansado, não sei os meus colegas de catecismo. Depois vi que esta e outras eram profecias de Nostradamus, que de tanto errar ficou fora de moda.

Agora foram os maias que pararam o tempo em 2012. E os falsos profetas nos ameaçando com o apocalipse. Na minha santa e inocente ignorância acho que os maias nos mandaram um recado: até o fim deste ciclo nós legamos o calendário em que vocês fizeram diversas matanças, inclusive a nossa. Comecem outro ciclo com mais harmonia.

O problema é que para os maias e outros povos dominados, na ganância do colonizador, o mundo já acabou faz é tempo...    

Meu Mapa Mundi


Climério Ferreira

há montanhas em minha alma
há litorais no meu corpo
há horizonte nos meus olhos
há um mapa aflito em minhas veias

eu sou um continente pálido
um arquipélago de sonhos

há desfiladeiros em minha mente
uma ventania perene em meus cabelos
nos meus passos há fronteiras de andar
um gosto de rio nos meus lábios

há calmas planícies nas minhas costas
há solitários portos nos meus dedos
há desertos em minhas pálpebras
há matas virgens nos meus pés


acho que sou uma geografia ensandecida


(Climério Ferreira)

Assaí, a caminho da aposentadoria

Geraldo Borges
.
Meu amigo Assaí, amigo de longa data, no momento em que escrevo essa crônica suponho já esteja aposentado. Digo isso porque em setembro de 2011, ocasião em que fui à Teresina rever os meus amigos, parentes, e lançar o meu livro de crônicas – Província Submersa – primeira edição, encontrei-me com ele na rua. Andava com um maço de papeis dentro de um envelope debaixo do braço. E, me disse, com a sua voz calma e pousada, de um homem que não tem nada a se queixar da vida, que estava providenciando a sua aposentadoria. E como eu estava andando em direção contraria, ele, de repente, deu meia  volta e me acompanhou, e adiou, naquele momento,  a entrada dos papéis para a sua aposentadoria.

 Eu fiquei orgulhoso com a sua atenção. Estava indo fazer uma visita ao Nilo Filho em sua livraria em frente ao Banco do Brasil e ao lado do Clube dos Diários, pelo menos assim é conhecido pela nossa geração. O Nilo filho não estava na livraria. Resolvi pegar um ônibus de volta para casa onde eu estava hospedado, na Avenida Rio de Janeiro, bairro Aeroporto. Assaí, velho andarilho, que sempre caminhou com regularidade de casa para o trabalho me disse que ia para casa. Deixaria para amanhã a sua aposentadoria. Talvez tenha sido essas palavras que serviram de senha para abrir esta crônica sobre ele

            Conheço o Assaí desde muito tempo. Dos longos invernos e verões da Teresina. O seu andar calmo, vigoroso, o olhar terno, a persistência, o cultivo das amizades, são algumas características da composição do personagem, afora muitas outras que se apresentarão no decorrer desta crônica. Desde cedo aprimorou os olhos para ver as coisas. É um exímio fotógrafo. Basta olhar as suas fotos para reconhecer o que eu estou dizendo. Quem priva de sua amizade sabe que ele é uma pessoa afável e paciente. Assaí relacionava-se muito bem com os artistas do sul maravilha, pois, de certa maneira, era uma espécie de cicerone. Levava-os aos recantos pitorescos da cidade, no fim da noite, para jantar, beber e conversar. Conduzia-se sempre de maneira elegante.

Assaí passou anos e anos iluminando atores, conhece os segredos do palco e também dos bastidores. Esta era a sua profissão: Iluminar. Não era um simples eletricista, apenas um operário, era um jovem que fazia parte da nata intelectual e contestadora da sociedade piauiense. Vem de uma família extremamente sensível, de irmãos que se dedicaram de corpo e alma ao teatro. Talvez, Assaí, nessas suas caminhadas para o centro da cidade tenha pensado melhor e desistido de se aposentar, por enquanto. Pelo que imagino talvez esteja com sessenta anos, sua geração está se aposentando. Mais o importante é continuar caminhando, olhando as coisas em redor, e tirando fotos. Podemos nos aposentar de uma profissão, mas jamais devemos nos aposentar de nossas brincadeiras.

O iluminador Assaí não foi apenas iluminador, foi também diretor do Theatro 4 de Setembro. Por aí se vê a trajetória de um artista dentro de seu foco de luz. Assaí é diferente. Para não dizer singular. É uma dessas pessoas que escolheu um caminho e caminhou sem tropeços ou encruzilhada, sem desvios. Sempre andou a pé, é um andarilho urbano. Cresceu presenciando a mudança da paisagem da cidade e contribuindo para o seu desenvolvimento cultural

Uma vez eu estava na casa do Galvão, em uma festa, no fundo do quintal, onde rolava muita cachaça e cerveja, e alguém, de cujo nome não preciso me lembrar, proclamou que eu e o Assaí estávamos a caminho de entrarmos para o folclore teresinense, como figuras pitorescas... Falava de modo irônico, como se esse conceito sobre nossas pessoas diminuísse a nossa personalidade. Assaí faz parte da cultura de seu Estado, de sua cidade. É um dos últimos moicanos que ainda mantém os cabelos compridos, agora prateados, e o olhar contemplativo de quem sabe que a aposentadoria verdadeira só virá quando realmente deixar de caminhar pelas ruas de sua cidade, integrando-se totalmente ao personagem da Província Submersa.