domingo, 27 de março de 2011

na contra-mão nuclear

Edmar Oliveira


Tem coisas com só acontecem ao Botafogo ou ao Piauí. Como torço pelos dois a probabilidade de constrangimento duplica em mim. O Botafogo perder mais uma partida ganha nem é mais assunto para uma crônica. Agora, não sei se perceberam aí, mas uma notinha nos jornais, na mesma semana em que a notícia principal era a catástrofe nuclear no Japão, me tirou do sério: o Governador do Piauí pedia à Presidenta da República que a próxima usina nuclear a ser instalada no Brasil fosse no Piauí. Precisava?



Digamos que a Presidenta atendesse o desejo do nosso Governador. Onde ele desejaria ver sua grande obra, geradora de empregos nucleares, ser erguida no nosso estado: certamente não seria no norte, próximo ao estuário encantador do delta do Parnaíba. Nem podia ser um pouco mais embaixo, matando outra vez os mortos de Jenipapo ou ameaçando contaminar a saborosa carne de sol de Campo Maior. Também ninguém ia agüentar que fosse perto da Chapada do Corisco, sujeita a raios e trovoadas e podendo inviabilizar, por rejeitos tóxicos, o Encontro das Águas e a lenda do Cabeça de Cuia. Ainda podia ter reclamos exaltados do Maranhão, pela proximidade de Timon.


Se o Governador erguesse a usina mais ao sul, certamente teríamos protestos em Floriano, na Regeneração dos Ferreiras, em Angical, Amarante e na minha pacata Palmeirais. Se puxasse a usina no rumo de Oeiras, aí é que a briga seria grande, com a ex-capital reclamando na voz de seus poetas, de seus políticos e de seus loucos: afinal, querem acabar com a memória de que Oeiras existiu? Pros lados de São Raimundo Nonato, junto aos fósseis do Homem Americano da Serra da Capivara, no mínimo, o senhor Wilson Martins levaria uma varada da zangada Niède Guidon.


Lá mais embaixo, na região do Gurguéia, o Governador provocaria o movimento separatista do Estado das Águas de Gurguéia. Na região da Serra Vermelha, onde já transitam os queimadores de carvão, os ecologistas do Morro Cabeça do Tempo botariam sua excelência pra correr. Mais ao sul, com a soja da monocultura, teríamos uma briga capitalista.


Pois bem, senhor Governador, porque não temos energia eólica, aproveitando os ventos do litoral, e a energia solar, reverenciando a terra “Filha do Sol do Equador” (dos versos imortais do nosso poeta)? Acho que a energia atômica, por qualquer tremorzinho que balance as estruturas, não há resfriamento possível no nosso calor de cinqüenta graus. Nem o frio de lascar do Japão resfriou a porqueira quando a reação começou... Imaginem no quentão do sertão... Vamos esquecer essa idéia?

abalo sismico


















Edmar Oliveira


O nosso amor fez tremer o outro lado da terra
Um abalo sísmico das placas tectônicas do nosso querer
Destruiu a paixão que nos unia na calma oceânica

Bem que suspeitei das pichações enigmáticas:
“Celacanto provoca maremoto”

O menino nacional de olhos puxados
Não conseguiu deter o Godzila
Que em fúria feriu de morte as nossas ilhas

E o malefício da radiação atômica
Perdurará apagando os nossos momentos felizes

Minha queixa de amor
É você

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desenho:  Katsushika Hokusa, ”A Grande Onda de Kanagawa” (1832)

ESTÁ ESCURO NO IMPÉRIO DO SOL

1000TON

Mussorgsky, Uma Noite no Monte Calvo, inunda minha cabeça tsumagnificamente.


Os sismógrafos físicos detectaram quase 7, número cabalístico para um tremor de terra terrível!


Meu cismógrafo (medidor da minha cisma) me diz que nem assim o império capitalista vai se mancar com o dramático acontecimento no Japão.


Nunca dantes uma ferida ficou tão arreganhadamente exposta como agora: Não dá mais para acreditar no “PARA PODER CONSUMIR COMPULSIVAMENTE, MORRA DE TANTO TRABALHAR!”.


E os japas morreram de trabalhar mesmo, deram um duro danado... Em menos de 30 anos, arrasados no pós-guerra, o país se ergueu `a maior potência econômica mundial.


Como na “Venerável Ordem do Zeus Mercado” o dinheiro não tem cor, aliou-se ao seu algoz atômico, os EUA, para se tornar um dos mais importantes parceiros no desenvolvimento do modelo neoliberal que assola o planeta.


Ordem...Seu lugar... Sem Rir... Sem Falar... E consuma bem rápido, use, desfrute, jogue fora, compre logo outro... e vamo que vamo produzindo cada vez mais e mais, a altíssima e sofisticada tecnologia dá o suporte necessário para essa produção desenfreada, O BONDE “DODESKADEN” (Akira Kurosawa) ESTÁ SEM FLEIO, ATLOPELANDO TUDO QUE PASSA PELA FLENTE.


Para manter todo esse espetáculo acontecendo nas catedrais do consumo é preciso muita, mas muita energia, são necessários nada menos do que 54 reatores, o Japão é o terceiro do mundo em produção de energia nuclear.


Os japoneses mais abastados são tão ricos, que se dão ao luxo de praticar a filantropia. São milhares e milhares de ONG’s internacionais (aqui no Brasil também atuam), muitas delas, pasmem, existem para enfrentar o envenenamento da terra pela radiação nuclear, ou seja, os próprios nipônicos magnatas botam seus ienes em instituições que combatem justamente a elite abrigada no comando do poder econômico, BLINCADÊLA, NÕ?


Blincadêla, nada, imagine uma família japonesa bem posta na vida, nas suas bem equipadas casas, usufruindo de todo o conforto e bem estar que o dinheiro proporciona, de repente, depois de um tsuterremoto estão passando um frio arretado, “cozinhado no meio da lua com um fogaleilinho ‘Jacalé’ e ainda pol cima vai faltá quelosene, né?”...


Todo japonês, depois de aliviado desse fatídico aperto, deveria fazer o chamado “PASSEIO SOCRÁTICO”, descrito pelo Frei Betto que consiste em caminhar pelos Shoppings da vida para ver de quanta coisa a gente NÃO precisa...





Nóis é forquilore!













Paulo José Cunha achou esse pedaço de jornal dentro de um livro antigo. Não se lembra de que jornal e de quem era a coluna ( a velhice é dose). Mas a notícia, ou melhor, a fofoca é deliciosa...
e a prova ao lado é que assim se deu nos tempos dos hippies (cearense é f...) 

6- Lingerie

Durvalino Couto






































mais um poema do livro inédito de Durvalino Couto

Literatura e Medicina

Geraldo Borges
.
Um médico não precisa apenas conhecer anatomia, ter dissecado cadáveres, e outras disciplinas para tentar a grande aventura de curar o corpo humano. É necessário que possua outros talentos, como por exemplo saber ouvir, saber apalpar, olhar nos olhos, ter, acima de tudo, empatia, pois os pacientes procuram um médico como quem procura um sacerdote, não apenas para salvar o corpo, pois a alma também adoece. Os que seguem mais além das vísceras e descobrem que a doença também é uma cura terminam virando poetas, romancista, escritores.



A literatura ocidental e particularmente a brasileira tem muitos exemplos de médicos que foram além das vísceras. Podemos dizer sem medo de errar que o romance brasileiro começou sob a égide da medicina. Um dos nossos primeiros romancistas chama-se Joaquim Manuel de Macedo, era formado em Medicina. Qual o estudante de vestibular que não conhece a Moreninha, o Rio do Quarto, O Moço Loiro, jóias do romantismo brasileiro. Gonçalves de Magalhães, um dos nossos precursores da poesia romântica, autor de A Confederação dos Tamoios, também era médico.


Saindo do Brasil, podemos citar alguns autores portugueses, também médicos, por exemplo: Ferrando Namora, escritor contemporâneo muito lido fora de Portugal, inclusive no Brasil, entre seus livros podemos citar os romances Retalhos da Vida de um Médico, Domingo à Tarde. E Lobo Antunes, que, teve uma experiência marcante, participando da guerra da Angola, experiência esta que conseguiu passar para as páginas da ficção em seu belo romance: Os cus de Judas. Miguel Torga, poeta, contista, romancista, entre seus numerosos livros de poesia podemos destacar Orfeu Rebelde, O Outro Livro de Job, Cântico do Homem.


Mas vamos voltar ao Brasil e perfilar mais alguns médicos que se tornaram grandes escritores. Afrânio Peixoto, autor de romances regionais como Maria Bonita, Fruta do Mato. Gastão Curls, contista, e romancista autor de livros famosos, como A Amazonas Misteriosa, filmado por Ivan Cardoso com o titulo de Um Lobisomem da Amazônia, Coivara, Ao Embalo da Rede, Amazonas que Eu Vi, Vertigem, Historia Puxa História.


Voltemos a Europa de novo e incorporemos neste texto escritores ilustres que, foram médicos, por exemplo, Rabelais, autor de Gargantua Oliver Goldsmith, Alexandre Dumas. A J Cronin, que teve muitas edições publicadas no Brasil, e, ainda hoje, é encontrado nos sebos. Dizem que Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, ficava horas e horas esperando um paciente em seu consultório. Não aparecia ninguém. Enquanto isso ele aproveitava o tempo para escrever. E assim, inventou uma quantidade de personagens impressionante, inclusive fantasmas. Somerset Maugham, autor de Servidão Humana, um dos maiores romancista ingleses, mostra inclusive em seus romances um pouco da história da medicina em seu país, pois cria personagens médicos de uma beleza aterrorizante. Seu livro O Véu Pintado que já foi filmado, ilustra bem o que eu estou dizendo.


Mas vamos retornar ao Brasil e listar mais alguns vultos da nossa literatura que passaram pela ciência da Medicina e desembocaram no mar das Humanidades, das letras, esta arte capaz de transfigurar as pessoas. Para reiniciar os exemplos, citaremos o poeta Jorge de Lima, alagoano, um dos maiores poetas brasileiros, autor de Invenção de Orfeu.


Dyonélio Machado, gaúcho, contemporâneo de Érico Veríssimo, pertencente ao partido comunista, autor de grandes romances consagrados pela crítica, como o Louco do Cate, Os Ratos, e muitos outros. Josué de Castro, que pertenceu a FAO, ensaísta, escreveu grandes estudos sobre a questão da fome no planeta.


Agora vamos dar uma passada rápida pelos Estados Unidos. E ficar sabendo que o poeta William Carlos William era médico, e para acrescentar, lá existe a National Association for Poetry Therapy, (NAPT), que se propõe a usar a poesia como forma de terapia. Com certeza, funciona.


Voltemos mais uma vez ao Brasil. Não devemos nos esquecer de Helio Pellegrino, famoso psiquiatra, e também de Pedro Nava, o nosso grande memorialista. E de Guimarães Rosa, pois sua experiência de médico nos campos gerais das alterosas lhe deu muito fôlego para escrever a maior saga sertaneja depois de Sertões de Euclides da Cunha, Por último citaremos Moacyr Scliar autor do Centauro no Jardim, entre muitos de seus romances. Ia me esquecendo de Roberto Freire, romancista e ensaísta, criador de uma técnica terapêutica denominada Soma, autor de uma autobiografia: Eu e o Outro, um livro excelente para quem deseja conhecer os bastidores da subversão no período da ditadura.


Do rol que citei estão todos mortos, com exceção de Lobo Antunes e para acrescentar mais um vivo, citarei o médico psiquiatra Edmar Oliveira, escritor piauiense, autor de Ouvindo Vozes e Von Meduna, sobretudo pelo seu talento, já reconhecido pela crítica nacional, e principalmente pelos seus leitores.

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Geraldo, não tenho talento para ser acrescido nesta sensacional lista. Quero crer que o escritor Geraldo Borges, esse sim um sujeito fenomenal, tá querendo agradar o "dono" do blog.

Num nomem

Ana Cecília Salis


As letras de teu nome...

Reunidas,

Juntam-me na iris

O teu corpo todo
O teu cheiro imenso

Um amor partido...

Uma saudade inteira...

poemicro

NA REAL

Eu sou como sou
E não como você pensa

(Climério Ferreira)

Persona do Person

Aderval Borges

Outro dia vi o documentário Person, de Marina Person, sobre o pai – Luiz Carlos Person – figurinha elétrica que, em menos de dez anos, dirigiu seis filmes – dentre os quais Cassy Jones - O Magnífico Sedutor, São Paulo SA e O Caso dos Irmãos Naves –, idealizou e dirigiu o programa Jovem Guarda na TV, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo e Wanderlea, montou uma agência de publicidade (que fechou no auge por se encher da propaganda) e dirigiu o importante musical El Gran Coca-cola.



Person abriu a cabeça de Gláuber sobre José Mojica Marins. Gláuber, como a maioria dos cineastas do Rio, tinha desprezo pelo artesão do terror paulista. Depois dos papos com Person, o baiano também se tornou fã de carteirinha do Zé do Caixão e passou a defendê-lo.


Embora paulistano, Person era fissurado pelas chanchadas cariocas. Trabalhou com vários atores da antiga chanchada, dentre os quais Grande Otelo e Jofre Soares. Três dos seus filmes de humor – Cassy Jones, Um Marido Barra Limpa e o faroeste farsesco Panca de Valente – são chanchadas.


O cara tinha adoração pelo palco. Apesar do reconhecimento – inclusive internacional – dos longas São Paulo SA e O Caso dos irmãos Naves, acabou deixando a tela pelo teatro. Em El Gran Coca-cola – também inspirado nas chanchadas – reuniu a nata dos atores-cantores de Rio e São Paulo. Era uma superprodução, inclusive pros moldes atuais.


Estava há meses em cartaz em Sampa e logo iria pro Rio. Adorava o mar e tinha uma casa em Ubatuba. Nas últimas apresentações aos domingos, partia pro litoral em seu fusca, já de madrugada, pela perigosa Rodovia Tamoios. Numa dessas idas, não voltou mais.


Morreu aos 33 anos. Tinha personalidade explosiva e irreverente, muito parecida com a de Gláuber, com quem mais se dava na turma do cinema novo. Era briguento, intuitivo e movido por ansioso e angustiado impulso por realizar coisas. Amigos entrevistados, dentre os quais Jean Claude Bernadet, contam que ele dizia que sabia que não iria durar muito, por isso precisava produzir o que fosse possível enquanto tinha tempo.

efeito colateral

o amor é remédio sem bula
e ninguém sabe a dosagem certa


(Graça Vilhena)

Cinema: MATCH POINT

Gervásio Castro

Allan Stewart Konisberg sempre quis brilhar no meio artístico e percebeu, ainda garoto, que com esse nome não iria longe. Aos 15 anos, já como Woody Allen, começou a escrever para colunas de jornais e programas de rádio. Aos 29 era um respeitável comediante.



Em 1965 estreou no cinema como roteirista e ator no filme “O que é que há, gatinha?” e em 1969 como diretor em “Um assaltante bem trapalhão”.


Crítico mordaz e sutil, trata na maioria de seus filmes (que costumam ter Nova York como cenário) das neuroses comportamentais do dia-a-dia interpretando, sem parecer repetitivo, um judeu fracassado. Consegue, como poucos roteiristas/diretores, se aprofundar na alma das personagens evidenciando em seu trabalho um namoro com a psicanálise.


Allen é idolatrado por muitos e odiado por tantos outros. Seu estilo verborrágico de atuação não costuma agradar a um grande número de espectadores. Também não agrada aos organizadores da festa o fato dele preferir tocar jazz com sua banda em Nova York a comparecer à entrega do Oscar em Hollywood.


Em 2000 assinou com a DreamWorks, empresa de Steven Spielberg, iniciando sua pior fase, segundo a crítica. Findo o contrato reatou seu namoro com o drama, primeiro com “Melinda e Melinda” seguido de “Match Point”, bastante elogiado pela crítica, que recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro e uma ao Oscar. É o primeiro filme de Allen passado em Londres e também o primeiro com a atriz Scarlett Johansson. Conta a história de ascensão social de um jogador de tênis profissional que, cansado da rotina de viagens, decide abandonar o circuito e se dedicar a dar aulas do esporte em um clube de elite. O cara torna-se amigo de um playboy, casa-se com a irmã deste, passa a trabalhar nas empresas de seu milionário sogro, mas está mesmo interessado é em traçar a cunhada que, por sua vez, também se amarra em levar umas raquetadas do tenista.


O filme é recheado de referências a "Crime e Castigo", de Dostoievski, e tem um final surpreendente. O título no Brasil inicialmente seria apenas Ponto Final, mas este já havia sido registrado pelo diretor Marcelo Taranto para um longa-metragem que estava em processo de captação na época de seu lançamento. Com isso a Playarte modificou o título nacional para Ponto Final - Match Point.


Woody Allen não gosta de assistir seus filmes e é fã de Ingmar Bergman, Groucho Marx e Federico Fellini.


Também é conhecido por lançar atrizes e namorou a maioria delas até se firmar com Mia Farrow com quem viveu até 1997, trocando-a por Soon-Yi Previn, filha adotiva do casal. Esse fato levou ao delírio a imprensa, pra quem a vida amorosa de Allen sempre foi um prato cheio.


Sobre a atual mulher ele declarou em recente entrevista ao jornal britânico The Observer que ela não assistiu nem a 60% de seus filmes e que odeia quando ele pega no clarinete:"Ela não tem vergonha de detestar meu som no clarinete. Ela não suporta. Não suporta quando eu pratico em casa. Nunca vai a um show. Acha que é tortura."


Quando questionado sobre se faria novamente par romântico com Diane Keaton, com quem fez vários trabalhos no cinema e manteve uma relação amorosa nos anos 70, o diretor disse apenas que a idéia é até boa, mas ninguém aceitaria: "Ninguém quer ver sexagenários mandando ver. As pessoas podem até dizer que querem ver esse tipo de coisa, mas o que elas querem mesmo é assistir a Leonardo DiCaprio correndo atrás de Scarlett Johansson." É verdade. Infelizmente.

Cordel pro Lima Barreto





































Ainda Lima Barreto. Chico Salles, membro da confraria, tinha esse cordel feito desde muito cedo para a Casa. De quebra tem a história da organização da confraria.

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Chico Salles


Falar de Lima Barreto
Nos Conduz a claridade
Odiosa opressão
Da nossa sociedade
Dotada de incoerência
Apogeu da incompetência
Falta de brasilidade.

Final do século dezoito
Antes da Abolição
Nasceu este carioca
Fruto da escravidão
Trazendo na consciência
Na conduta e aparência
A sua indignação.

Estudante exemplar
Às suas origens, fiel
Mulato de boa instrução
Mas, o racismo cruel
Feito a ponta do espinho
Estreitava seu caminho
Limitava seu papel.

Vitima do preconceito
Mal conseguiu se formar
Perdeu os pais muito cedo
E cedo foi se virar
Fez das letras sua amante
Como cronista brilhante
Serviu sem ser militar.

Escrevia em periódicos
Assumindo pseudônimo
Jornal do Comercio, a Noite
Já não era mais anônimo
Assim na Literatura
Com sapiência e bravura
Tornar-se-ia sinônimo.

Tratava do dia a dia
Dos assuntos do seu povo
Sua expressão literária
Demonstrava algo novo
Foi sim um pré-modernista
Inconformado artista
E para elite um estorvo.

Pra alma do Carioca
Foi seu maior escultor
Falava dos preconceitos
Com certeza e com vigor
Retratou a hipocrisia
Contrário à burguesia.
Lima mostrou o seu valor.

“Numa e a Ninfa”, escracha
Mais um deputado bandido
Em “Cemitério dos Vivos”
Narra momentos sofridos
A pena do Lima não para
Corta rente, fura, vara
Em favor dos oprimidos.

Entregou-se ao alcoolismo
Com várias internações
Problemas psiquiátricos
Entrou nas suas ações
Precocemente morreu
O mundo não compreendeu
As suas preocupações.

Depois, no andar de cima
Passou a ser estudado
Sua obra se tornou
Um produto exportado
Viveu a vida sem medo
E até com samba enredo
Já foi homenageado.

É comparado aos maiores
Um menestrel suburbano
Em Policarpo Quaresma
O conceito soberano:
Pra tirar ouro de cobre
Basta ser mulato, pobre
E avesso ao desengano.

Escreveu por linha certa
A tortura descabida
Seu legado, sua obra
Sua história, sua vida
Que de grandeza encanta
Ficou feito quem decanta
Pelo Brasil esquecida.

No cenário onde viveu,
Final dos anos oitenta
Uma turma da pesada
Turma ligada e atenta
No subúrbio da cidade
No bairro da Piedade
A liberdade alimenta.

Músicos, escritores, artistas
Pimenta, cebola e jiló
No Boteco do Seu João
No caldo do Mocotó
Um encontro sem procura
Muita fome de cultura
Esperança sem ter dó.

Na concentração do Bloco
Simão, DaPenha e Carlinho
Mandaram uma idéia
De ser feito com carinho
Uma casa ou um coreto
Na Rua Lima Barreto
Que era ali bem pertinho.

A casa Lima Barreto
Ali então foi criada
Num ambiente festivo
Comida, cerveja gelada
Samba na mão e no pé
Criança, marmanjo e mulher
Muita conversa animada.

Foi alugado um imóvel
Assim na raça e no peito
Com muita dedicação
Birita, piada e respeito,
Depois daquele carnaval
O Espaço Cultural
Estava montado direito.

Com o esforço do grupo
E mais alguns aliados
A casa funcionou
Mais de dez anos passados
Quando em dois mil e dois
Nem foi antes, nem depois
Teve seus portões fechados.

A falta do Poder Publico
Refém da corrupção
Junto com a pouca renda
Da nossa população
Pelos guetos oprimida
Sem o saber, desnutrida
É triste a constatação.

Mesmo assim lá vai ele
Abnegado, paciente
O Grupo do grande Lima
Pacífico e consciente
Original, radiante
Agora é itinerante
Agregado permanente.

Movido a muita paixão
Rango, manguaça e conversa
Musica tocada e cantada
A poesia se versa
Deixando a alma lavada
A mente bem arejada
Fui, que a minha hora é essa.


Biografia e revisões: SIMÃO.
capa do Ciro de Uriaúna

A medida do homem

João Carvalho
para H Dobal

no silêncio da noite
um poema insiste em não calar

sapos coaxam, palmeiras cantam
a noite cai e diz:

uma história não é estória
escrita na água

durma, poeta!
você tem a medida do homem

Cadê o Tomazinho?

Recebi e-mail de Paulo José Cunha com essa sugesta:

Acho que vale a pena transcrever essa bela crônica do Bessa em futura edição do teu Piauinauta. Enviei a ele o seguinte comentário:


Que beleza de crônica, seu Bessa! Só mesmo no Brasil alguém alegue que saber a verdade é provocação e abertura de feridas. Nas trincheiras possíveis - e nas impossíveis, se houver como - vamos, sim, defender a abertura de todos os arquivos, principalmente aqueles que revelem as atrocidades de que muitos dos nossos foram vítimas. Não vamos deixar por menos. Conheço bem a deputada e secretária Maria do Rosário pra saber que ela não vai deixar barato e lutará até onde for possível pelo esclarecimento daqueles fatos que até hoje nos envergonham e revoltam. E mais: a anistia travestida de arranjo político pra por panos quentes em cima do sangue derramado não deve servir de disfarce aos que sumiram com Thomazinho, Rubem Paiva e tantos outros. Nas trincheiras possíveis, vamos continuar lutando. Essa luta já provocou bons resultados em outros países. Nos oito anos do governo Lula, curiosa e convenientemente o tema ficou escondido debaixo do tapete. No governo Dilma há de se levantar o tapete e revelar a face da verdade, seja ela qual for. Um abraço.




Cadê o Tomazinho?
José Ribamar Bessa Freire

Cadê o Thomazinho? O Comando do Exército, com apoio da Marinha e da Aeronáutica, em documento revelado nessa semana pelo GLOBO, demonstrou que quer prolongar o suspense em relação ao desaparecimento do amazonense Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e de outros 475 brasileiros, que foram vítimas de sequestro, cárcere privado, tortura, assassinato, ocultação de cadáver e outras formas ilegais de repressão durante o período da ditadura militar (1964-1985).



Cadê o Thomazinho e centenas de desaparecidos? Essa pergunta tem de ser feita com insistência, com obsessão, incansavelmente, milhares de vezes, pichada em todos os muros do Brasil, gritada por todos os cantos e recantos, até obtermos resposta. Não vamos nos intimidar. A sociedade brasileira tem o direito de saber a verdade. O Programa Nacional de Direitos Humanos atendeu esse apelo e propôs a criação da Comissão da Verdade, ainda nesse semestre, para investigar os crimes cometidos. A proposta foi encaminhada ao Congresso, onde tramita.


A Comissão da Verdade pode responder: - Cadê o Thomazinho? O que aconteceu com o nosso menino de Parintins, que aos vinte anos viajou para estudar no Rio de Janeiro, cheio de esperanças, disposto a lutar para compartilhar com todos os brasileiros a paçoquinha de pilão, que ele tanto gostava? Quando foi preso, em maio de 1974, ele tinha aquela convicção que mais tarde seu conterrâneo, o poeta Anibal Beça, expressaria num haicai: “Apenas num gesto / o homem é capaz de vida - / chibé repartido”.


Chibé repartido


Cadê o Thomazinho, cheio de vida, que queria tão somente repartir o chibé? Sobre o seu paradeiro, conhecemos até agora apenas um documento encontrado no arquivo do DOPS/SP, que registra a data da prisão, o que foi confirmado por Relatório do Ministério da Marinha. A Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos, criada pela Lei 9.140/95, o considerou oficialmente desaparecido, em 1995, mas até hoje seu corpo não foi localizado, para que a gente possa ir lá depositar uma flor, fazer uma oração.


Acontece que o Comando do Exército não quer que formulemos a pergunta - Cadê o Thomazinho? O documento enviado ao Ministério da Defesa afirma que o regime militar saiu de cena há mais de trinta anos, que muitos envolvidos naquele período já morreram e que “testemunhas, documentos e provas perderam-se no tempo”. Alega que a criação da Comissão da Verdade “poderá provocar tensões e sérias desavenças ao trazer fatos superados a nova discussão” e que exigir resposta a essa pergunta “parece tão somente pretender abrir feridas na amálgama nacional”.


É brincadeira. Quer dizer que perguntar cadê o Thomazinho é, então, “abrir ferida na amálgama nacional”? Deixa ver se eu entendi bem: a ferida não foi aberta por agentes do Estado, pagos pelo contribuinte, que torturaram e assassinaram quem estava preso, o que não se faz nem com o bandido mais facínora, muito menos com um lutador social. Ela é aberta – segundo o documento – por nós, que queremos saber onde estão enterrados nossos mortos. Eu torturo e mato teu irmão, mas se você quiser saber onde ele foi enterrado, você “abre uma ferida”.


Na realidade, para quem perdeu entes queridos, a ferida está aberta desde o momento em que eles “desapareceram”. Ela está sangrando desde então e a dor pode ser mitigada pela Comissão da Verdade, se consegue esclarecer onde estão Thomazinho e os outros 475 desaparecidos. Cadê o Thomazinho? O documento do Comando do Exército acha que a simples formulação dessa pergunta é “revanchismo”, “promove retaliações políticas” e “mantém acesa questão superada”.


O desaparecimento do Thomazinho é uma “questão superada”? Superada para quem, cara pálida? Como “superada” se não obtivemos ainda resposta ao que nos angustia? Além disso, só pode ser considerada retaliação política por aqueles que têm culpa no cartório e que temem a verdade, o que não é o caso da maioria dos militares que não compactuaram com crime tão hediondo.


Não é função das Forças Armadas defender torturadores. Essa defesa é, no mínimo, estranha, e depõe contra outros militares que, embora favoráveis à ditadura, não concordavam com o uso da tortura, alguns deles foram inclusive punidos por isso. A Comissão da Verdade pode nos mostrar que existiram oficiais dignos e íntegros como o general Peri Bevilaqua, nomeado, em 1965, ministro do Superior Tribunal Militar e cassado em 1969 porque se manifestou contra os crimes cometidos nos porões da ditadura. Queremos conhecer e reverenciar esses oficiais.


Anistia política


Num programa na Globo News, sexta-feira, a jornalista Mônica Waldvogel discutiu o tema, entrevistando o tributarista Ives Gandra e o ex-deputado Airton Soares. Na maior cara de pau, Ives Gandra, que está sempre do lado da sombra e também não quer saber onde está Thomazinho, veio com aquele papo manjado de que devemos colocar uma pedra sobre essa questão, porque a Lei de Anistia aprovada há mais de trinta anos pelo Congresso Nacional já concedeu o perdão a quem cometeu crimes políticos nesse período conturbado. Está tudo zerado.


O que é, afinal, um crime político beneficiado pela anistia? O jurista Dalmo Dallari entende que o crime hediondo da tortura não foi crime político e que a identificação e julgamento dos torturadores é uma necessidade para demonstrar que historicamente “a sociedade brasileira jamais compactuou com as práticas de um regime que limitou criminosamente a oposição e a liberdade de expressão, mesmo que tais práticas não possam mais ser punidas pela prescrição”.


Se a Lei da Anistia extinguiu a punibilidade, ela não determinou nem a ocultação de cadáveres, nem proibiu a identificação dos torturadores. As famílias e os amigos dos “desaparecidos” políticos tem o direito de saber o que aconteceu com eles, da mesma forma que a sociedade tem o direito de conhecer a história, para evitar que tais crimes hediondos sejam cometidos outra vez. Foi o que foi feito na Argentina, no Chile, no Peru.


Esse é, felizmente, o entendimento da nova ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário Nunes, nascida depois do golpe militar de 1º de abril de 1964, para quem a Comissão da Verdade é pré-condição para um processo efetivo de conciliação nacional. Esse é também o entendimento da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA que condenou o Brasil por não esclarecer aos parentes o paradeiro dos corpos das pessoas desaparecidas.


Como é que alguém pode ser contra que se apure a verdade? Até os índios, mantidos tradicionalmente à margem, estão querendo, agora, saber o que aconteceu com os Waimiri-Atroari, os Krenhakore, os Kané, os Suruí, os Cinta Larga e tantos outros que foram assassinados porque se opunham aos projetos da ditadura militar, embora “nenhum desses homens, mulheres e crianças sejam citados nas relações dos desaparecidos”, como reclama com razão Egydio Schwade em artigo recente publicado no Blog Casa da Cultura de Urubuí (Amazonas).


Cadê os Thomazinhos? Cadê os índios das nove aldeias do rio Alalaú, que foram massacrados? Temos de insistir com a pergunta em cada parágrafo, em cada linha do que for escrito para não nos cobrirmos de vergonha e opróbrio. Não podemos deixar essa dívida para os filhos e os netos da Pátria Mãe Gentil. A história do Brasil não é uma telenovela para ficarmos nos perguntando indefinidamente: quem matou Salomão Ayala, Odete Roitman ou Saulo Gouveia? Aliás, até mesmo as novelas só terminam quando se entende a cena do crime. A novela do Brasil ainda não terminou.


Cadê o Thomazinho? Mil vezes seguiremos, fiel, insistindo: Cadê o Thomazinho? A gente só sossega, depois de ter uma resposta a essa pergunta que Dona Maria, sua mãe, morreu fazendo. Nós perguntamos no nome dela, da sua nora Miriam e de seus netos Larissa e Togo. Cadê o Thomazinho que queria repartir o chibé nacional?

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em taquiprati

Saí da tua Alcova



"Saí da tua alcova"
 por Henrique Cazes



Noel Rosa foi um dos primeiros compositores, se não o primeiro, a se utilizar do humor como pano de fundo para as suas composições. Noel usava a facilidade e a habilidade em compor para provocar, responder ou ainda tirar um sarro de maneira sutil ou totalmente explícita.

Saí da tua Alcova trata-se de uma composição pouco conhecida de Noel, até porque é uma música que foi feita para uma ocasião específica e sem pretensão nenhuma de gravação. Tanto que ela foi ensinada pelo caricaturista e compositor Antônio Nássara à dupla João Máximo e Carlos Didier.

Noel a compôs para tirar um sarro do amigo Malhado, que era metido a cantar canções que abusavam das palavras rebuscadas. A história completa da música fica por conta de Henrique Cazes e se encontra no CD Cristina Buarque e Henrique Cazes – Sem Tostão... A Crise Não é Boato.
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é com prazer que reproduzo o texto e a fala do meu amigo Henrique Cazes.
Garimpado por Nacif Elia na internet

domingo, 13 de março de 2011

Lima na Lavradio


Edmar Oliveira          

   No antigo Brasil Colônia, no ano de 1755, foi aberta no entorno central da cidade do Rio de Janeiro a rua do Lavradio. O Segundo Marquês do Lavradio, que tinha o pomposo nome de Luis de Almeida Portugal Soares de Alarcão Eça e Melo Silva e Mascarenhas, Vice-rei do Brasil (1769-1779), mandou alargar a rua e ali construir sua residência, que desde 1777 se mostra gloriosa na esquina com a rua da Relação. A rua do Lavradio, que começa na Riachuelo e termina na Visconde de Rio Branco, teve seus momentos de glórias coloniais e imperiais. Com a República foi perdendo o brilho, mas na década de 1950 foi a sede da Tribuna da Imprensa, de onde Carlos Lacerda brilhava nos seus ataques a Getúlio Vargas. Depois a degradação, o esquecimento, os hotéis de solteiros, a prostituição, a resistência dos pequenos comércios, os brechós de mobiliário antigo. Recentemente revitalizada como grande parte da Lapa, bares e casas de shows fazem da noite um formigueiro de boêmios de todos os cantos do Rio. A Lavradio hoje é vida que canta e encanta a juventude e turistas em busca de diversão. E neste lugar, outrora aristocrático, majestoso, imperial; ontem degradado; hoje revitalizado e boêmio; você pode topar com Afonso Henriques de Lima Barreto.
             De certo ele nunca deixou de andar por ali. Carioca suburbano de Todos os Santos Lima Barreto entrou na história da cidade pelos órgãos de imprensa do centro conturbado do início do século passado. É no “Correio da Manhã” que elabora as peripécias autobiográficas de Isaías Caminha, o escrivão com sobrenome do escritor da Esquadra de Cabral. É n’ “A Noite” em que publica em folhetins “Numa e a Ninfa”. Na revista “Fon-Fon”, onomatopéia das buzinas de carros engarrafados dos primeiros anos do século vinte, publicou artigos ao lado dos ilustres ilustradores J. Carlos e Di Cavalcanti.
            Do subúrbio para o centro da cidade o nosso Afonso Henriques, de bonde ou a pé, freqüentava os botequins, consumindo no álcool o sonho do sucesso final de Isaías Caminha. Que destino se impunha na realidade em que tentou sobreviver! Abandona o sonho de ser engenheiro, ainda no Politécnico, para sustentar a família. Como um humilde amanuense da Marinha transcreve nas letras o pequeno salário. E isso tudo porque o pai, funcionário da Colônia de loucos da Ilha do Governador, enlouquece para não mais sair da companhia de quem cuidava. Mais tarde, na repetição da loucura paterna, Lima é internado como indigente no Hospício da Praia Vermelha, apesar de já ter publicado seu maior sucesso em vida: “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Triste fim de Afonso Henriques.
            Atacado por críticos mordazes, vítima do racismo, da pobreza, viu frustradas suas tentativas de entrar na Academia Brasileira de Letras. Sem o sucesso que o personagem autobiográfico conseguira, amargura o esquecimento em vida. Não entrando na Academia entra no Hospício, por duas vezes e morre no dia de Todos os Santos, no bairro de Todos os Santos, aos 41 anos, no ano da Semana Modernista de vinte e dois.
              Não sendo reconhecido em vida, Lima Barreto, como tantos outros gênios, ressurge, na linha do tempo ilógica e longa do reconhecimento, como o mais carioca dos escritores. Disputa, com o bruxo do Cosme Velho, a primazia do escritor brasileiro do romance moderno. Machado é a imponência, a academia e a magia do escritor reconhecido mundialmente. Mas no quintal dos subúrbios Lima mostrou a alma carioca. Assis é disputa na literatura planetária. Em casa, Barreto é soberano. E se Machado fica no portal da Academia anunciando a cultura oficial, Lima fica andando entre os boêmios da Lavradio.
            É que a Casa de Lima Barreto, confraria que cultua a obra de Lima Barreto para que Afonso Henriques jamais seja esquecido, inaugura o busto do escritor no ponto boêmia da Lavradio em frente ao CIEPE hoje existente. Perto de onde morou no número 71. E vez por outra eu vou sentar no bar em frente ao Lima do Lavradio e tomar uma cerveja em sua homenagem: - “Mulato, tu ficaste muito mais importante que o Isaías Caminha e este país continua a Bruzundanga de sempre...”

Lima na Lavradio 2








É na Lavradio. Rua onde trabalhou e morou Lima Barreto. Recuperando o casario. O discurso do Simão Curuca em homenagem ao mestre. O busto do Lima. Vitória conseguida pela determinação da Casa de Lima Barreto em ter o romancista passeando onde viveu. Ei-lo. Pelo trabalho de Simão (no microfone). 
 

rinha


Graça Vilhena

.

o que se empluma no galo
é matéria no seu dono
coisa afrutada e completa
ungida de valimento
.
por isso não ouso propor
o galo que enferruja
na fria rosa-dos-ventos
nem aquele que se perde
nas manhãs inauguradas
.
o homem é a própria rinha
apagando dos quintais
o seu ofício de chão

Andanças


















Ana Cecília Sales



Não... não está mais em mim...
Acabaram-se as bravatas do que posso
e sempre devo... a mim.



Meu espelho recolhe apenas o meu tamanho...
Nem de maior, nem diminuto...



Apenas um meu tamanho...
Que teria agora que caber no teu sapato...


Quero caber no teu sapato...

Coisa mais chata é andar sozinha...

THE HEART & SOUL OF MEMPHIS

1000TON

Mestre Zé Keti me empresta um pedaço do seu grande samba e eu devolvo mais um prosaico artiguinho quinzenal que passo a escrever. E desde já, o meu muito obrigado.


“Eu sou o blues, a voz de Memphis sou eu mesmo sim senhor, quero mostrar ao mundo que tenho valor......”.


Memphis, Tennessee, 1948. 40% da população era de negros e fazia-se de conta que eles não existiam, subentendida aí a sociedade branca-azeda-olhos-azuis- racista. Ou melhor, os crioulos existiam sim, claro, mas deixem livre o nosso caminho, please, mantenham-se atrás dessa risca, nas suas escolas, casas, bares e restaurantes, banheiros públicos, ônibus, enfim nos espaços, quero dizer, guetos, generosamente reservados para todos vocês black people.


E a WDIA-RADIO, The heart and soul of Memphis, AM1070, mandava ver na música negra pelos ares da cidade dando seu recado: um canto que saía diretamente do útero da terra para as negras cordas vocais: gutural, primal, sofrido, cru, puro sentimento e instintiva revolta e ia entrando, sem pedir licença, pelos “galenas” de toda a cidade.


Aí meu camarada os incautos ouvidos dos branquelos começaram a apreciar aquele som, completamente diferente e muito mais rascante do que as melodias românticas, xaropemente gordurosas da programação água-com-açúcar dos caras-pálidas. Miaaau! Este era o som gatinho manhoso dos brancos. Ohúúúú! Esse era o uivo irado de um selvagem coiote da black music!


E aí meu camarada surgiu logo depois o Martin Luther King, e aí meu camarada os decibéis da WDIA já eram mais vigorosos: a crioulada tinha comprado equipamentos mais poderosos e.... Pronto! A voz da negritude atravessava coast to coast os EUA inteirinho!


E AGORA, VAI ENCARAR? Joan Baez e Bob Dilan, por exemplo, encararam. E mais do que ficar do lado dos negros, mandaram seus ácidos recados contra a sociedade americana segregacionista, arrogante e reacionária.


Oriente Médio, 2011, março. Os povos árabes fazem um “carnaval” nas praças, clamando por liberdade. Livres não o foram durante décadas e mais décadas, subjugados pelo imperialismo ocidental, ou por seus próprios tiranos, tipo os Kadafis e os Mubaracks da vida.


Deitada eternamente em berço petrolífero esplêndido, essa realeza vendeu seu povo a uma família americana, eles têm carro, eles têm grana (Leminski sempre me auxilia), e são muito, mas muito viciados mesmo no negro óleo cru.


Assim como em 1948, em Memphis, os brancos fingiam que os blacks não existiam, lá no oriente médio o Ocidente esqueceu, também, que o povo árabe existia.


No problem. Desde que eles pudessem abastecer seus turbinados Volvos e Corollas com gasolina aditivada, para que se incomodar com essa gentalha que usa uns turbantes esquisitos, fede a catinga de camelo, faz cocô no deserto e se limpa com areia?


Bombas de gasolina, tremei! As grandes potências estão se borrando de medo!


Os povos árabes azedaram o Mardi Gras dos caras-pálidas da parte de cima do equador, cantando, gritando e clamando por liberdade. Definitivamente botaram seus blocos nas ruas...


O que vem por aí, brôu, é uma verdadeira revolução!

“EU SOU O POVO, A VOZ DA PRAÇA SOU EU MESMO SIM SENHOR, QUERO MOSTRAR AO MUNDO QUE TENHO VALOR, EU SOU O REI DAS ARÁBIAS”.

SALAM ALEIK !


1000TON

Copos que falam

Recebido por e-mail:



Irmãos e irmãzinhas:
Hoje teremos beleza em dose dupla: Marcos Vieira fez uma soberba fotografia e pediu ao poeta Diogo Fontenelle que a "ilustrasse" com um poema. O resultado não poderia ter sido diferente: fascinante. Uma semana luminosa para todos. (Cinéas Santos)






COPOS QUE FALAM

Diogo Fontenelle
.
Copos que guardam afetos de outros tempos...
Outras sedes a escorrer pela toalha de primavera em festa! ...
Sede de encontros e desencontros derramados!
Sede dos amores sumidos no azul do horizonte...

Sede de nós mesmos!...

5b - O amor e a hierarquia dos órgãos e membros




Mais uma página do inédito "Lingerie" de Durvalino Couto. Click na imagem para ampliar e ler melhor o poema...



Um aceno para o menino

Geraldo Borges


O trem passava todo santo dia pela cidadezinha do distrito. Quando o menino ouvia o apito da locomotiva sai de casa correndo, e, ficava, a uma distância do corte em que podia avistar os vultos de pessoas sentadas em bancos à janela . A locomotiva apitava e diminuía a marcha porque havia uma estação na cidade. Ai o menino acenava indistintamente para as pessoas. Esperava um aceno, um simples gesto de boas vindas, cordialidade. Mas não era correspondido. Mesmo assim, sempre que o trem passava, ele acenava.


Um dia, voltando para casa, vitima de mais um insucesso, encontrou o pai que ia saindo para o trabalho. O pai lhe perguntou por que estava triste. É que sempre dou com a mão para os passageiros do trem e eles não me respondem. O pai passou a mão na cabeça do filho, e disse: continue acenando, quem sabe um dia alguém lhe retribua o gesto.


E saiu para o trabalho. Mas não voltou no mesmo dia para casa.


Resolveu pegar o trem e ir para a cidadezinha mais próxima. Chegando lá procurou uma pequena pensão. Falou com o hospedeiro para lhe arranjar um quarto só por uma noite.


A pensão estava lotada, disse o hospedeiro. Mas se ele quisesse, havia um quarto, que já tinha um hóspede, um sujeito mal encarado, tosco. Não sei se você vai aceitar. Ele disse, não tem problema, é só por uma noite. Amaná de manha eu pego o trem de volta. Então tudo bem, disse o hospedeiro.


O pai do menino entrou no quarto. Deu boa noite ao estranho. Não notou nenhuma antipatia, embora ele tenha resmungado boa noite. Até conversaram antes de dormirem. O novo hospede disse que estava ali para cumprir uma missão. Ai contou o caso do filho dele. Disse que de manhã cedo pegaria o trem e quando passasse perto da estação da cidade iria ver seu filho dando com a mão para os passageiros sentados à janela E ele aproveitaria, então, e daria com a mão para o seu filho.


Terminou de contar a história. Falou um pouco sobre o tempo. E tratou de dormir. O companheiro de quarto também deitou. Pois ia viajar também de madrugada.


O dia amanheceu. Quando o pai do menino acordou olhou para um canto da parede viu a cama do seu companheiro de quarto vazia, os lençóis desarrumados. Assustou - se e olhou para o relógio no pulso, mais um susto. Havia perdido a hora do trem. Na sua imaginação viu o menino acenando mais uma vez sem ninguém lhe corresponder o gesto. Que diabo. Por que foi dormir tanto. Deve ter sido a chuva. E pensou. Esta chuva deve estar caindo na minha cidade também. E meu filho vai ficar em casa desta vez. Tomara que sim.


Enquanto isso, na estação, o trem partia, ao som de apitos e nuvens de fumaça e acenos de pessoas dizendo adeus na plataforma. Ao chegar próximo a estação da cidadezinha do distrito apitou, diminuiu a marcha


O menino apareceu correndo. E deu com a mão para um passageiro que estava em uma janela O hospede que havia saído antes da chuva. Este sem perda de tempo correspondeu como se fosse o verdadeiro pai do menino. Os acenos demoram até o trem diminuir na distancia, no meio da fumaça.


No outro dia o pai voltou. E não viu o menino acenando. Mas o encontrou alegre como um passarinho. Perguntou por que ele não tinha ido acenar para as pessoas no trem; O menino respondeu:


- Ontem alguém correspondeu o meu aceno. Estou satisfeito... .


Ponte Metálica



Willian Soares

.
braço estendido no espaço
elo
ligando amizades
no vai e vem das cidades
.
e o parnaíba fluindo
rumo ao congresso das águas

Movimento Hetero




Só em Teresina a gente tem dessas coisas...

CINEMA: Butch Cassid and Sundance Kid.





































Gervásio Castro

Paul Leonard Newman nasceu em Shaker Heights, em 26 de janeiro de 1925. Filho de um  bem sucedido comerciante  de  artigos  esportivos    frequentou  boas  escolas de artes como o Kenyon College, a Yale Drama Schoole e o renomado Actors Studio, em Nova Yorque. Atuou na Broadway e seu primeiro trabalho já lhe rendeu um contrato com a Warner Bros.
 Em  1954,  depois  que  viu seu filme de estréia,  The Silver  Chalice,  decidiu  que  seria  o último. Considerou sua performance uma porcaria e chegou a publicar anúncio de página inteira, num jornal, pedindo desculpas a quem havia assistido à fita. Mas a turma do “deixa disso” entrou em ação e ele resolveu tentar outra vez em 1956. Fez o papel do boxeador Rocky Graziano no filme “Marcado pela Sarjeta” e sua atuação foi aclamada pela crítica. A carreira detonou.
 Era defensor das causas políticas liberais nos EUA. Nos anos 60, esteve bastante envolvido  na campanha de candidatos democratas à presidência. Em 1968 estrelou diversos comerciais de televisão a favor de Eugene McCarthy, mas quem acabou sendo eleito foi Richard “Watergate” Nixon que o colocou em 19° lugar numa lista de seus piores inimigos. Newman não perdeu o rebolado e declarou ser este fato uma das maiores honras de sua vida.
 Na década de 90 passou a filmar menos, se dedicando mais à sua fábrica de molhos e condimentos, Newman's Own, com a qual ganhou mais dinheiro que no cinema. Mas quase todo o lucro foi destinado à caridade e à sua equipe de corridas na Fórmula Indy, a Newman-Haas Racing. O fato de ser daltônico não o impediu de se destacar como piloto amador de 1970 a 1990, correndo em carros esporte nos EUA e na Europa, onde chegou a conseguir um segundo  lugar nas 24 Horas de Le Mans. Aos setenta anos, foi o mais velho piloto a vencer uma corrida de prestígio, fazendo parte da equipe do carro que faturou as 24 Horas de Daytona de 1995.
Newman fez 56 filmes, entre os quais “Bucth Cassidy and Sundance Kid” que conta a história de dois amigos inseparáveis: Butch (um ex-açougueiro, daí o nome) e Sundance, assaltantes de trens e bancos nos  Estados Unidos que, caçados por todo país resolvem fugir para a Bolívia. Etta, namorada de Kid segue com eles. Mas a vida dos três na América do Sul não seria nada mais tranquila. Passe na locadora ou compre o DVD e confira.
Warren Beatty recusou o papel de Sandance Kid que depois foi aceito por Steve McQueen. Mas surgiu um problema: eram duas estrelas no auge de suas carreiras. Qual o nome que apareceria primeiro nos créditos? Felizmente alguém teve a brilhante idéia  de que os nomes dos dois aparecessem antes do título do filme, o que daria uma idéia de igualdade. Newman concordou, mas o “cabreiro” McQueen achou que se tratava de uma “armação” desistiu do trabalho. Convidaram, então, Robert Redford que topou a parada.
O diretor Roger Roy Hill havia escalado Paul Newman como Sundance Kid e Robert Redford como Butch Cassidy, mas Redford sugeriu que ele e Newman trocassem os personagens. Já havia rolado tanta confusão que a sugestão foi aceita de cara. E finalmente começaram as filmagens daquele que seria um mega sucesso de crítica e bilheteria mundial.
Naquela época Mr. Redford já pensava em ser diretor e resolveu dar um pitaco: não gostou da cena em que Newman experimenta uma bicicleta e sugeriu que fosse cortada. Dessa vez ninguém aceitou sua sugestão e a cena acabou se tornando uma das mais famosas do cinema.
Paul foi casado com Jackie Newman de 1949 a 1958, quando a trocou por Joanne Woodward com que viveu até 26 de setembro de 2008, data de seu falecimento.