domingo, 21 de setembro de 2014

Memórias de um comedor de panelada

(Edmar Oliveira)

Outro dia, tendo ido almoçar num restaurante a peso (maldita invenção brasileira de vender restos) me enamorei por uma suculenta dobradinha. Restaurante a peso é para gente fina que come salada e filé de peixe que pesam pouco. Rabada, costela, dobradinha, cozido, galinhada no peso da mistura e de ossos faz a comida do nordestino ser muito cara. Essas iguarias só nos restaurantes a preço único, sem balança ou no velho e decente prato feito.

Mas voltando: a dobradinha carioca ou a tripa lombreira portuguesa sempre me remetem ao sabor de uma panelada do meu Piauí. Não no sabor total, mas o cheiro e sabor do bucho traz a lembrança, mesmo faltando as vísceras e o mocotó que caracterizam a nossa panelada. E como a dobradinha pensando numa panelada. Talvez pela lembrança ela faça às vezes de minha saborosa memória.

Hoje, em qualquer restaurante típico do Piauí já se serve a panelada sem o preconceito. Mas teve um tempo que ela não frequentava os restaurantes finos. Era comida de pobre no mercado. Lembro que meu pai me mandava comprar uma panelada no Clube Auto Esporte, sede do Fluminense do saudoso Belchior. Mas o time era tão ruim que a sede podia vender panelada. Não era coisa que se comesse na sede do River ou no Iate Clube. Na minha juventude fui freguês de carteirinha da Maria Tijubina e tenho saudades da iguaria do Mafuá. Até quando ela perdeu o barraco na beira da linha do trem, eu, já morando fora, quando estava na terra ia na casa da Maria Tabaco de Sola (sobrenome que não pronunciávamos na sua presença ou de suas filhas), que ficava na Palmeirinha.

Tenho uma história curiosa de quando a panelada começou a frequentar os restaurantes. Estava em Teresina e com meu amigo Assaí fui receber no aeroporto outro filho ilustre que morava fora. Da mesma fome que eu, Chicão – recém-chegado – tava na vontade da panelada. Como o velho Assaí nunca enjeita a iguaria, contou que ali perto do Aeroporto, no antigo e já fechado restaurante Coqueiro Verde, tinham começado a servir o prato rejeitado pelas elites. Corremos pra lá nas horas quentes da tarde e o suor já empapava nossas camisas. Tinha um salão com ar-condicionado e outro salão do lado de fora, porque os fregueses tradicionais gostam do calor da terra e outros ficavam com medo de pegar um “difrúcio” pela mudança brusca de temperatura. Desta forma, o salão do lado de fora era simples e o de ar-condicionado refinado para receber os mais ricos. Emburacamos no salão com ar, que o calor tava de matar! Pedimos o cardápio e além do filé com fritas, tinha galinha caipira, capote, paçoca, mais nada de panelada. Ficamos decepcionados e o Assaí jurava que já tinha comido panelada naquele restaurante. Chamamos o garçom para tirar a nossa dúvida e o “da bandeja” nos esclareceu com a maior naturalidade:


– tem, mas só lá fora!    




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